Acompanhe o romance ‘Labirintos: a eterna busca do ser’!

Acompanhe o romance ‘Labirintos: a eterna busca do ser’!

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Imagem: reprodução da Internet

O Itaperuna News, apostando no bom gosto de seu público leitor, passa a divulgar com exclusividade o livro ‘Labirintos: a eterna busca do ser’, do escritor e jornalista Eusébio Dornellas. Indo na contramão dos textos rápidos e sucintos, o site reserva este espaço para contar histórias e prestigiar os amantes da leitura. Os capítulos serão postados durante as próximas semanas. Tenham uma boa leitura!

SINOPSE

O famoso poeta russo, Nikolai Andreiev, tem a sua vida contada por um misterioso narrador, que utiliza a linha temporal para expor as mazelas humanas, através da saga do poeta no decorrer de longos anos. Amor e ódio, morte e vida, fome, luxúria, a criação do universo, são alguns motivos de discussões entre narrador e personagem. O desnudamento do ser humano é provocado por um viés imaginário que reflete o corre-corre do mundo em que vivemos. Personagem e narrador são tão inflamados em seus debates, que no vigésimo nono capítulo, um deles poderá ser assassinado pelo outro. Como se termina uma história de trinta capítulos sem o narrador ou sem o personagem principal? Talvez uma entre as dezenas de pessoas que cruzaram o caminho do escritor Nikolai, ou quem sabe uma de suas amantes, tenha essa resposta. Talvez…

CAPÍTULO 16 – Publicado em 21/10/2017

Nikolai S. Andreiev. Este foi um dos nomes mais pronunciados por todo o país durante um determinado tempo. Livros como O GRANDE PEQUENINO TZAR – A LUTA PELO SOBERANO PODER e O IMPERADOR FANTOCHE, deram ao escritor notoriedade e respeito entre os intelectuais e entre grande parte da população. Entretanto, passou por uma série de transtornos em função de seu sucesso.

Esteve refugiado por quase dois anos. Nunca revelou a ninguém onde havia se escondido. Talvez temesse pela vida dos amigos, ou quem sabe, tivesse que fugir repentinamente e… Com certeza não haveria lugar mais seguro.

Deveriam ser quase sete horas da noite. Não o tinha visto desde a última vez que falamos sobre Nádia. Eu havia adormecido e quando acordei, não o encontrei mais no quarto. Nikolai ia sempre aos extremos… Ora trabalhava como um louco sem sair do quarto, ora não sossegava em lugar nenhum. Estava ficando preocupado com sua demora.

Resolvi ir procurá-lo. Não precisei ir muito longe. Encontrei-o no corredor, parado em frente à porta de um de nossos vizinhos, o 104. Ele espiava pelo buraco da fechadura.

– O que fazes aí? – perguntei.

– Psiuuuuuuu! Não faça barulho. Estou fazendo pesquisa de campo.

– Deixe disso! Venha para cá…

– Daqui a pouco… Preciso constatar algo.

Acabei voltando ao quarto esperando-o para que pudesse me esclarecer sobre o que ele estava fazendo. Quem morava no 104 era nossa vizinha, Anastácia. Uma mulher elegante de estranhas manias.

Ela não gostava muito de conversas. Jamais havia me cumprimentado. Sempre de nariz empinado, quase pisava em cima de mim. Lembro-me de tê-la visto conversando com Nikolai. Pouquíssimas vezes, é verdade, mas já haviam trocado algumas palavras.

Não demorou muito e Nikolai acabou retornando ao quarto. Pegou algumas folhas de papel e se pôs novamente a trabalhar. Enquanto trabalhava, dizia-me que há algum tempo observava nossos vizinhos com a finalidade de relatar fidedignamente a que ponto poderia chegar um ser humano.

A princípio, não compreendi muito bem o que ele realmente queria dizer. Qual seria o ponto a que um ser humano chegaria?

Nikolai não fez a mínima questão de me dar melhores esclarecimentos sobre o assunto. Disse-me que eu teria que descobrir tudo sozinho. Entretanto, forneceu-me parte de seus manuscritos – o original de seu novo livro – para que eu pudesse ter a mínima noção do que ele havia se proposto a escrever.

Confesso que a mescla de informações registradas dificultava bastante a idéia principal que ele tencionava passar para o leitor. Todavia, conversando com o autor, tudo ficou mais fácil, mesmo porque, havia fatos antigos registrados que eu já conhecia da boca do próprio escritor.

Nikolai relatava a vida presente, passada e prognosticava o futuro de seus vizinhos… Relatava fatos de seu próprio passado, evitando um pouco o presente, sem saber ao certo o que seria de seu futuro. Talvez não tivesse noção exata do queria, ou tinha uma mente que a minha não conseguia acompanhar.

Algo em particular chamou minha atenção naquelas folhas que agora estavam em meus domínios. Eram impressões sobre a vida de Anastácia. Não sei se verdadeiras ou não, diziam o seguinte:

O Lado Obscuro de Anastácia

Dizem que na infância ela assassinou sua irmãzinha por causa de um saquinho de doces. A mãe, naturalmente pobre, comprou somente um saquinho para que elas dividissem durante o intervalo da escola.

Como os doces estavam em poder de Anastácia, ela preferiu não fazer a partilha no recreio. Disse à irmã que, quando fossem para casa, distribuiria os doces igualmente entre elas.

A irmã nunca voltou para casa. Somente Anastácia retornou ao lar sofrendo fortes dores no abdômen e com diarréia. Disse aos pais que não tinha encontrado com a irmã no local combinado. A garotinha foi encontrada morta por asfixia próximo a um penhasco que ficava a menos de dois quilômetros do caminho de sua casa.

Os pais não quiseram aceitar a hipótese de que a morte teria sido provocada pela outra filha e com o passar dos anos, acabaram se mudando por não agüentarem mais as pressões sofridas pelos vizinhos e pelas autoridades.

Não demorou muito para que Anastácia ganhasse o mundo. Abandonou seus pais aos quatorze anos de idade e se juntou a uma pequena trupe que se apresentava por toda a Rússia.

Havia se tornado uma jovem bonita e bastante atraente. Interessava-se pela profissão na qual ingressara, por outro lado, não se esforçava pelo bem do grupo. Em pouco tempo, havia conquistado a antipatia dos outros atores.

Embora Anastácia não fosse simpática aos olhos da maioria, havia uma pessoa que a endeusava. Venerava-a como um ser supremo. Conseguia enxergar qualidades que ela não tinha. Chamava-se Mikail, nada mais, nada menos, que o responsável pela trupe.

Era tudo de que ela precisava. Em pouco tempo, havia se tornado amante de Mikail. Foi a gota d´água para que os problemas começassem a surgir por todos os lados.

Em alguns meses a trupe estava desfeita. Somente Mikail e Anastácia permaneceram juntos, tentando difundir a arte teatral e sobreviver com o pouquíssimo dinheiro que ganhavam.

Certa vez, quando tencionaram ir a São Petersburgo, não conseguiram ganhar nada com o pequeno espetáculo que realizavam pelas cidades por onde passavam. A única coisa que conseguiam por parte da platéia foram vaias e algumas migalhas de pão que eram atiradas no palco (a carroça em que viajavam tinha algumas adaptações que possibilitavam transformar-se num pequeno palco).

Durante algum tempo, a única coisa que tinham para comer eram as migalhas jogadas como forma de protesto. Anastácia, sem a mínima compaixão pelo companheiro, comia quase tudo enquanto ele se trocava e tirava a maquiagem em um improvisado camarim.

O desespero passou a açoitá-los dia e noite. Discutiam e praguejavam reciprocamente. Parecia que um ponto final estava se aproximando daquela conturbada história.

Cansada das migalhas de pão, Anastácia comunicou ao amante que iria se prostituir. Disse, ainda, que se ele realmente gostasse dela, deveria se tornar um proxeneta. Sabia que, juntos, as coisas poderiam acontecer com mais facilidade.

Mikail se sentiu enojado com a proposta feita por ela. Teve vontade de abandoná-la para sempre. Nunca teria coragem… Não queria ver a sua pequenina nos braços de outro homem. Justo ela, a quem ele havia iniciado na arte do amor ter que se prostituir para poder ter o que comer.

Pensou em lhe dar uma surra, mas logo desistiu. Não adiantaria de nada. Ela estava disposta a se enveredar pelos caminhos da prostituição e ele não podia fazer absolutamente nada.

Ao menos era uma saída. Ela tinha uma saída para a fome que sentiam e ele não havia atinado em nada, quer dizer, quase nada. Ele já estava pensando em praticar pequenos furtos. Coisas que não fariam mal a ninguém. Uma verdura, um legume ou uma fruta. Quem sabe, até mesmo um animalzinho de estimação que estivesse perdido…

Enquanto Mikail se decidia se iria roubar ou não e o que roubaria, lembrou-se de que poderia pedir… Esmolaria! Como essa palavra soava duro aos seus ouvidos. Nunca tinha passado por situação tão adversa como a que estava enfrentando.

Lamentou-se pelo fato de seu país não valorizar a arte e a cultura como mecanismos de transformação de um povo.

Não adiantava ficar parado sem tomar nenhuma atitude, criou coragem e saiu batendo de porta em porta pedindo que lhe fosse dado algo para comer.

Foram várias as portas batidas na cara. Nunca havia sido tão humilhado em toda a sua vida. Sentia-se um lixo travestido em forma de gente. Era um ninguém. Um ator! Um ator que não representava suas mazelas e suas aflições, e sim, vivenciava as chagas abertas em seu espírito e tentava administrar um rombo em seu estômago.

Lembrou-se dos aplausos que já havia conquistado de milhares de pessoas pela a vida afora e agora; nenhum daqueles aplausos lhe serviria para saciar a fome. Como é estranha a dor da fome! Uma dor aguda que invade todo o ventre levando a terríveis dores de cabeça… Ruídos estranhos ecoavam pela cavidade abdominal como se houvesse alguém lá dentro reclamando pelo alimento que nunca chegava… Um terrível cansaço e uma dor nos ossos que o levavam a uma fraqueza descomedida, complementavam o seu estado. A dor provocada pela fome só não era  mais estranha do que a dor da humilhação!

Mikail pôde ver a indiferença em cada olhar, em cada gesto, em cada palavra daqueles que o enxotaram das portas de suas casas.

Estava prestes a desistir quando uma senhora, notando o estado abatido em que se encontrava, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Como não tinha nada a perder, Mikail acabou dizendo que a fome o consumia e que há horas estava esmolando e nada havia conseguido.

Penalizada com a situação do ator, a senhora o levou para fazer uma refeição em sua companhia. Ela tinha uma habitação bastante simples, embora sua mesa fosse farta.

O faminto ator comeu desesperadamente tudo o que podia. Não adiantaram as palavras da senhora dizendo que os alimentos não iriam fugir da mesa. Ele parecia não escutar e comia como se pretendesse armazenar a comida no estômago como determinados animais o fazem.

Sempre que desocupava um pouco a boca, ou seja, sempre que deixava de mastigar, ele pronunciava o nome de Anastácia e pedia a senhora que o deixasse levar alguns alimentos para a sua mulher.

Justiça seja feita, a primeira coisa que Mikail quis fazer ao encontrar a caridosa senhora, foi chamar Anastácia. Só não havia ido chamá-la por dois simples motivos: primeiro, porque teria que caminhar por quase uma hora para reencontrá-la e segundo, porque teve medo de que a senhora desistisse de ajudá-lo ou simplesmente desaparecesse.

A bondosa mulher disse que ele poderia levar o quanto precisasse. Inclusive, enquanto Mikail comia, ela preparava em alguns sacos, mantimentos diversos para que ele levasse consigo, principalmente para Anastácia. Pensava em como estaria aquela pobre mulher faminta.

Saciado e satisfeito por encontrar uma alma tão generosa, Mikail se despediu e agradeceu praticamente de joelhos o acolhimento que havia recebido. Com alguns sacos dependurados nas costas, o ator saiu cantarolando ao encontro de sua amada.

Não via a hora de reencontrá-la e dizer-lhe que ainda existiam pessoas boas no mundo. Que poderiam preparar melhor o próximo espetáculo para apresentarem nas outras cidades, já que tinham mantimentos para pelo menos uma semana, caso racionassem a comida.

Ele estava contente. Era visível que uma mudança, uma transformação havia ocorrido em sua vida. Voltava a depositar sua confiança no ser humano. O encontro com aquela senhora desconhecida o havia deixado maravilhado. Foi a primeira vez que alguém realmente se importou com ele.

Saciado, satisfeitíssimo com a refeição que havia acabado de fazer, Mikail fazia planos… Tinha várias idéias que, sem dúvida nenhuma, enriqueceriam o espetáculo. Tudo dependeria da boa vontade de Anastácia.

A alguns metros de distância da carroça, Mikail viu um homem descer pelo palco, olhando para os lados como se estivesse com medo de ser visto. O ator chegou a gritar em direção ao homem, mas este, assim que ouviu o grito, tratou de fugir. Era um homem alto, com cabelos grisalhos, muito bem vestido; deveria ter uns cinqüenta e três anos de idade.

Mikail sentiu vertigem assim que entrou na carroça e se deparou com sua amada Anastácia completamente nua em cima de algumas cobertas sorrindo e dizendo que era mais fácil do que respirar… Ele sabia o que ela havia feito!

Ela tinha se encontrado com um dos homens mais ricos, digo, um dos homens com melhor situação financeira daquela pequena cidade. Chamava-se Ivanovith, dono de alguns negócios, entre eles: um açougue, uma quitanda, uma tecelagem e uma modesta hospedaria.

O comerciante Ivanovith foi quem a procurou. Ele já estava observando a situação pela qual o casal de atores passava e esperou o momento certo para tirar proveito da situação.

Levou comida para Anastácia e assim que ela terminou a refeição, ouviu claramente o que o comerciante desejava.

– É pouco! Muito pouco! Ou será que você pensa que eu só valho um prato de comida? – perguntou Anastácia ao lascivo comerciante.

– Não! Claro que não! E será que isso lhe basta?

– Por enquanto… Somente por enquanto…

E se entregou aos braços de Ivanovith por algumas moedas que sequer se dera ao trabalho de contar. Estava sentindo prazer no que fazia. Não era só o dinheiro, não era a falta de comida, não! Seu sangue pulsava com mais fervor nos braços de um desconhecido.

Ivanovith despediu-se dizendo que voltaria. Entretanto, exigia exclusividade. Ela teria que dispensar o amante Mikail para poder ficar somente com ele. Anastácia riu e brincou dizendo que ficaria com quem e com quantos quisesse. Não admitia nenhum tipo de interferência em seus atos.

Confuso, o comerciante foi embora sem entender muito bem se teria uma outra vez aquela mulher em seus braços.

Enquanto Mikail se recuperava do susto e da vertigem que teve, Anastácia escondia parte da comida que estava nos sacos que ele havia trazido. Ela tinha um baú que ficava trancado com um cadeado. Somente ela tinha a chave daquele baú. Era lá que estava escondendo os alimentos.

– O que você está fazendo? – perguntou Mikail assim que teve coragem para voltar à realidade.

– Eu?! Nada! – respondeu Anastácia.

– Como nada! Então é nesse baú que você estava escondendo a comida, não é?

– Não! Claro que não! Agora, é que eu estou armazenando o que você trouxe…

– Sua vagabunda mentirosa…

– Vagabunda, sim! Mentirosa, não! – disse Anastácia soltando uma grande gargalhada.

– Como é que você pôde se prostituir?

– Eu disse que faria, não disse?!

– Mas eu trouxe comida… E você… E aquele homem saindo daqui…

– Vocês são todos uns idiotas… Todos imbecis… Não podem ver um par de pernas que…

– Vadia! – gritou longamente o ator.

E Anastácia o esfaqueou. Quando percebeu que Mikail iria agredi-la, ela se antecipou e o matou.

Tudo aconteceu muito rápido. Somente uma facada no peito. Anastácia não sentiu nenhum tipo de remorso. Assim que o corpo desabou, ela retirou a faca ensangüentada e começou a descascar algumas batatas.

Mikail nunca a mataria. Mesmo com todo o ódio que estava sentindo, jamais teria coragem para matá-la. O máximo que faria seria lhe dar alguns bofetões e continuaria a viver ao lado dela, mesmo sabendo que ela seria de outros e por que não dizer, de todos os homens que ela desejasse.

O ator foi vítima de uma eterna personagem…

Fim.

Foi o que li nas poucas folhas que Nikolai havia me cedido. Fiquei curioso para continuar lendo sobre o lado obscuro da vizinha do 104, mas por enquanto não poderia ler mais nada.

Muitas coisas se passavam pela minha cabeça. Minha imaginação me levava para lugares que possivelmente Mikail e Anastácia teriam percorrido.

Como continuaria a história? Para onde teria ido Anastácia? O que ela teria feito com o corpo? E o comerciante Ivanovith? O que teria feito ao saber que Anastácia havia matado o homem que estava em seu caminho? O que ele queria dizer com “o ator foi vítima de uma eterna personagem”?

Todas estas perguntas perpassavam uma a uma diante de meus olhos e quando me dirigia a Nikolai na expectativa de conseguir alguma resposta ele apenas sorria. Um sorriso encantador. Tinha convicção de que conseguiria “fisgar” o leitor como me havia “fisgado”.

Deixei-o no quarto absorvido pelo seu insano trabalho e fui procurar algo para comer. No corredor, algumas luzes acesas e um silêncio acentuado davam um tom de mistério ao local que morávamos.

Enquanto caminhava, pensando em outras situações vivenciadas por Nikolai, ouvia meu amigo solitariamente repetir seus textos, buscando a tão almejada perfeição artística…

CAPÍTULO 15 – Publicado em 19/10/2017

Havia uma sensação diferente no ar. A atmosfera estava carregada. Os rostos das pessoas estavam transtornados. Ninguém arriscava sequer uma brincadeira, era visível que um profundo sentimento de tristeza tomava conta do ambiente.

Mesmo os que não o conheciam sentiram bastante a sua morte. Os curiosos vinham de todas as direções para presenciar aquela terrível cena: um cadáver estirado no chão, algumas cadeiras espalhadas pelo salão, garrafas e copos quebrados, o sangue fétido derramado junto ao corpo, compunham aquele triste episódio.

A face do morto já não continha mais nenhum tipo de expressão. Uma cor arroxeada se fazia presente na tonalidade da pele, substituindo a cor viva e clara de algumas horas atrás.

A total ausência dos sentidos o deixava parecido com um inútil boneco. Um terrível e grande brinquedo que apodreceria em pouquíssimo tempo, tornando-se inutilizado para todo o sempre.

 Cada um dos que presenciaram o assassinato tinha uma versão diferente. Entretanto, houve uma versão que se espalhou de boca em boca rapidamente e acabou ficando como a original.

Tudo tinha acontecido por causa de uma dívida de jogo. Enquanto o jovem Yennov estava sentado com uma das mulheres do prostíbulo em seu colo, um homem de aproximadamente vinte e oito anos, bem gordo, com a barba por fazer, aproximou-se vagarosamente por detrás da vítima e lhe cravou um punhal pelas costas.

Um grito ecoou fortemente pelo salão enquanto as poucas pessoas que estavam ali começaram a fugir. O assassino tirou um lenço de dentro do bolso do paletó, limpou o punhal ensangüentado e saiu andando calmamente sem que ninguém ao menos tentasse agarrá-lo. Alguns diziam que ele até acendeu um cigarro dizendo que a dívida do jogo já estava paga.

Não demorou muito tempo para que o prostíbulo de Katerinne tivesse o maior público de todos os tempos. Era estranho… Tantas pessoas diferentes em um lugar que provavelmente não estariam em outras circunstâncias… Gente que de certa forma se admirava com aquele terrível espetáculo. Gente que, apesar da tristeza e do espanto, admirava-se como se fosse uma peça de teatro.

Algumas questões pertinentes ao fato ocorrido foram suscitadas por uma série de pessoas. Questões que circularam por todo o salão. Como por exemplo: onde estaria aquele jovem, já que existia somente um corpo que dentro de algumas horas estaria entrando em decomposição? Estaria o seu “eu”, ou o seu “espírito”, ou sua “alma” lutando para voltar ao corpo inerte? Seu “eu” estaria observando toda aquela gente deslumbrada com sua morte? Acaso sua “alma” desejaria vingança? Haveria um lugar para abrigar o seu “espírito”?

Horas depois, a mãe do jovem chegou ao local em prantos, loucamente desesperada. Abaixou-se próximo ao corpo do filho e fechando as pálpebras do jovem, disse para ele não se preocupar, pois ela estava ali, ao lado dele, cuidando para que nenhum mal lhe ocorresse.

Muitas pessoas choraram ao escutar as palavras daquela pobre mãe. Outros cochichavam sobre a inocência da mulher que tentava se comunicar com aquela matéria morta. “Coisas de mãe!” – disse um ébrio.

O medo passou a assombrar a vida de alguns que ainda não tinham pensado na morte. Até mesmo os que dizem não temer nada, tampouco a morte, mudaram de pensamento na presença de um cadáver cujo destino seria uma cova.

Tudo se acabaria com uma pá de terra sobre a face. Seria o ponto final. Ou o recomeço? Quem poderia afirmar e relatar tais indagações? Somos tão banais a ponto de sermos somente casca? E se somos casca, para onde vai o conteúdo?

As pessoas presentes ficaram sem ação ao ver aquele rapaz perder a vida por causa de algumas reles moedas produzidas pelo próprio homem. Qual é o preço de uma vida? Acaso temos condições de estipular quanto vale a vida de uma pessoa? Acaso somos alguém perante algo que foge aos nossos conhecimentos e principalmente de nossos domínios? Podemos com a morte? Qual fortuna poderia combatê-la?

Eram muitos os pensamentos. Eram muitos os filósofos que tentavam encontrar respostas para todos os questionamentos suscitados pela morte do jovem Yennov.

As autoridades não demonstraram muito empenho em prender o assassino. Diziam uns que o jovem não valia muita coisa, que mais cedo ou mais tarde estaria morto. Alegavam que era um marginal a menos, um crápula que não traria mais problemas. Segundo eles, a sociedade não estava preocupada com a morte de bandidos… Ninguém se importava!

Estavam aliviados. Yennov havia cometido um assassinato quando tinha dezesseis anos. Fugia como um lobo selvagem. Nunca conseguiram apanhá-lo. As autoridades suspeitavam de que ele houvesse cometido outros crimes durante o longo tempo em que estava foragido.

Talvez alguém não mereça nenhuma consideração e respeito por ter uma vida marginal, embora esta pessoa possa ser importante para alguém ou até mesmo possa ter valores desconhecidos para a sociedade. Por mais que uma pessoa não valha nada, talvez haja alguém que necessite dela.

Yennov tinha uma mãe que precisava da companhia dele. Mesmo quando ele esteve longe, ela sabia que voltaria. Esforçou-se para que o filho se entregasse e pagasse pelos crimes cometidos. Queria-o preso, jamais morto.

O jovem marginal tinha ao menos uma pessoa que se importava com ele. Havia uma pessoa que aguardava ansiosamente por um abraço, um sorriso, um carinho ou qualquer outro pequeno gesto de sua parte.

Nunca prenderiam o assassino, isso não era importante. Quando Yennov estava vivo, não o prenderam, não o julgaram! Não houve um julgamento… Existiram vários julgamentos, ou melhor, inúmeros apontamentos por parte de pessoas que se consideravam acima do bem e do mal. Pessoas que estavam respaldadas pela razão… Todos donos da verdade.

Yennov, que não era nada perante a sociedade, continuava a nada ser. O corpo foi retirado do lugar, as pessoas voltaram para suas casas, aquele fatídico incidente iria gerar alguns comentários por mais alguns dias, no máximo alguns meses. Depois, tudo cairia no esquecimento, ninguém mais falaria no jovem assassinado na casa de Katerinne. Talvez um único coração chorasse por um período maior aquela morte. Talvez…

Katerinne manteve seu estabelecimento fechado por três dias. Houve uma grande festa após o período considerado como luto. O salão estava repleto de pessoas que comemoravam a reabertura da casa. Todos alegres, brincando uns com os outros; o pianista Puttin, como sempre, animava o ambiente e durante toda a noite, ninguém sequer mencionou o fato acontecido há alguns dias.

Tudo continuou como antes.

CAPÍTULO 14 – Publicado em 17/10/2017

Fazia algum tempo que Nikolai e Anna não se encontravam. Os vários acontecimentos em torno do pequenino Dimitry contribuíram para que os amantes se privassem de seus encontros secretos no quarto da hospedaria.

Ela esperava por uma nova viagem do marido que aconteceria em poucos dias. Estava bastante ansiosa, não via a hora de compartilhar seus desejos e perspectivas de uma mudança de vida com o amante.

Enquanto a viagem não acontecia, ela agia naturalmente em casa como se nada estivesse passando por sua cabeça. Havia melhorado um pouco o tratamento com o filho e continuou tratando o marido como sempre o fazia desde que conheceu Nikolai.

Vladimir era um homem forte. Poderia dizer-se que até mesmo bonito. Olhos claros que combinavam com sua pele. O cabelo cortado baixo, como um soldado do exército, dava um aspecto taciturno aquele bom homem.

Trabalhador ao extremo, gostava do que fazia. Sentia prazer em vender sapatos, tinha convicção de que era a melhor coisa que sabia fazer e orgulhava-se disso. Deveria ter uns trinta e oito anos. Talvez menos… Não sei ao certo. O que posso afirmar com certeza é que ele ainda lutava com todas as suas forças para sustentar sua família.

Trabalhava até mesmo no frio inverno para dar uma vida melhor a Anna e principalmente ao filho Dimitry. Creio que se tenha descuidado um pouco no que concerne às suas obrigações como marido durante algum tempo, embora por motivos compreensíveis.

Na noite anterior à sua viagem, ele, por várias vezes tentou agradar à esposa. Eram pequenas frases ditas junto ao ouvido, algumas carícias quando estavam a sós no quarto, brincadeiras inventadas repentinamente… Ela desconversava e saía de perto do marido.

Nada funcionou. Anna definitivamente evitava um contato mais íntimo com ele. Não suportava sequer a idéia de terem que se deitar na mesma cama. Estava ficando evidente que havia alguma coisa errada.

Vladimir percebeu o jeito como estava sendo tratado. Assim que Dimitry foi para o quarto dele, não pensou duas vezes. Foi até a cozinha onde Anna estava, pegou-a pelos braços e arrastando-a foi para o quarto do casal para conversarem.

– Agora você vai me dizer… O que é que está acontecendo? – disse Vladimir.

– Acontecendo o quê, homem de Deus? – perguntou Anna deixando um sorriso no ar.

– Não brinque comigo… Você não sabe do que sou capaz…

– Capaz? Capaz de quê? De vender sapatos? – ironizou Anna.

– Por que você está me tratando dessa maneira?

– E como é que eu estou te tratando?

– Não se faça de tola, Anna! Você sabe muito bem do que estou falando… Passei a noite toda tentando me aproximar de você…

– A noite toda!? – interrompeu Anna não deixando que o marido completasse a frase. – Ora, essa! Você sabe há quanto tempo você não me procura?

Houve um pequeno silêncio na discussão do casal. Vladimir não tinha resposta para a pergunta de Anna. Ele realmente não sabia quando tinha sido a última vez em que havia se deitado com a esposa.

Pensou em começar a recuperar o tempo perdido. Aproximou-se carinhosamente dela dizendo que estava pronto para amá-la novamente. Desejava-a ardentemente e queria pôr um ponto final naquela discussão.

Levou as mãos em direção ao rosto da esposa para poder beijá-la e…

– Tire suas malditas mãos de mim! – gritou Anna como se estivesse sendo agredida.

– Calma! Eu só queria te dar um beijo…

– Não ouse me tocar novamente, tá ouvindo?

Vladimir, assustado com a reação da esposa, não sabia o que dizer. Não sabia sequer o que pensar. Até que olhou dentro dos olhos dela… Percebeu que o coração dela já não lhe pertencia mais… Sentiu uma horrível sensação como se um punhal tivesse sido cravado em suas costas… Não teve dúvidas.

– Quem é ele? – perguntou Vladimir furioso.

– Ora… Ora… Ora… Você quer saber quem é ele?

– Sim! Quem é?

– E o que isso importa? Você não precisa saber quem é. Você já está sabendo demais…

– É essa a consideração que você tem por mim? Sempre dei o melhor de mim e isso não foi o suficiente? E o seu filho? Em algum momento você pensou no seu filho?

– Não me fale naquele pobre diabo! – gritou Anna furiosa.

Assim que ela acabou de pronunciar essa frase, Vladimir sentiu um estranho arrepio. Seu corpo esquentou de tal forma que as faces ficaram vermelhas, podia sentir o sangue pulsar-lhe nas veias, os braços pareciam fora de controle e ele partiu para cima da mulher, esbofeteando-a.

Eram nítidos os barulhos provocados entre o encontro das mãos de Vladimir com o corpo de Anna. Cada tapa desferido contra a mulher era como se fosse um pedaço de carne que estava sendo arrancado dele mesmo. Ele estava sentindo muito mais dor do que ela, que estava sendo surrada.

Batia continuamente e dizia para ela nunca mais se referir ao filho daquela maneira. Não tinha mais paciência para ouvir todos aqueles impropérios da boca de uma mãe desnaturada. Creio que a fúria desencadeada por Vladimir tenha sido muito mais por causa de Dimitry do que propriamente por causa do amante da mulher.

Parou somente quando perdeu as forças. Transtornado com tudo o que havia acontecido, saiu do quarto e ganhou as ruas. Não queria que o filho o visse daquele jeito. E por hora, não queria ter que olhar na cara de sua mulher. Temia cair na tentação de matá-la. Justamente ele, que não tinha coragem para fazer mal a uma simples formiga.

Ela estava com a face inchada, alguns cortes no corpo… A pele ainda vermelha devido às pancadas. Não derramou uma lágrima sequer. No fundo de seu coração passou a odiar ainda mais o filho. Questionou-se consigo mesma o porquê de o garoto ainda estar vivo. Atribuía a todas as mazelas de sua vida ao nascimento daquela criatura.

Agora, mais do que nunca, teria que deixar o marido. Não havia mais condições para que vivessem debaixo do mesmo teto. Pensou em procurar por Nikolai antes mesmo que Vladimir fosse viajar. Acabou se sentindo feliz por pensar que mesmo de uma forma drástica, de certa maneira, seu objetivo tinha dado certo.

Dimitry, que ainda não havia dormido, só não presenciou tudo o que havia acontecido porque sentiu medo. Havia se enfiado debaixo da cama e só saiu depois que a confusão cessara.

Chegando ao quarto dos pais, viu como se encontrava sua mãe. Solícito e querendo prestar socorro, tentou ajudá-la, mas foi brutalmente impedido por ela:

– Afaste-se de mim! Não me toque! Eu tenho nojo de ter concebido algo como você!

O pobre Dimitry não teve palavras perante toda a insanidade da mãe. Por mais que quisesse odiá-la, não conseguia. Tinha medo dela… Morria de medo de sofrer agressões por parte dela, contudo, não sentia ódio.

Ficou parado no quarto vendo sua mãe arrumar as coisas que lhe pertenciam dentro de uma grande mala. Assim que a mala estava pronta, ela saiu sem dizer para onde ia.

O garoto ficou contemplando durante algumas horas a porta pela qual sua mãe havia saído sem dizer quando voltava. Se é que tinha intenções de voltar…

Anna havia saído de casa disposta a encontrar seu amante. Foi até a casa dele e não o encontrou. Perguntou por algumas pessoas que estavam na rua e ninguém havia visto Nikolai.

Passou algumas vezes na hospedaria em que se encontravam na expectativa de vê-lo, contudo, ele não estava lá. E nem poderia, já que não haviam marcado um encontro. Por certo, ele deveria estar esperando que Vladimir viajasse para poder entrar em contato.

Como estava próxima à Rua das Prostitutas, acabou entrando no prostíbulo de Katerinne por pura curiosidade.

A noite estava bastante agitada. O pianista Puttin tocava sem parar, dando um ritmo todo especial à casa mais famosa da rua. Algumas pessoas acharam estranho aquela mulher toda machucada com uma enorme mala nas mãos, porém, não deixaram de fazer o que estavam fazendo para saber dela se estava precisando de ajuda.

Anna olhava para todos os lados encantada com o brilho da festa. O ambiente, a música, as pessoas felizes… Não imaginava que o prostíbulo fosse daquela maneira, tinha uma concepção totalmente diferente daquilo que seus olhos estavam contemplando.

Uma das mulheres que trabalhavam no prostíbulo (creio que tenha sido Valeska) viu o estado em que se encontrava Anna e tencionou ajudá-la. Ela estava um pouco assustada, teve receio, mas depois de alguns minutos de conversa, entregou-se aos cuidados oferecidos.

A moça havia levado Anna ao quarto que dividia com Martinna. Como tudo que acontecia no prostíbulo tinha que ser comunicado à Katerinne, não demorou muito para que ela ficasse a par da situação.

– Como se chama? – perguntou Katerinne à informante.

– Ela disse que se chama Anna…

– Anna! – replicou surpresa Katerinne.

– Sim, Anna!

– Quem a encontrou?

– Valeska… Ela já havia entrado na casa…

– Chame Valeska urgentemente…

Katerinne queria ouvir os relatos da boca da própria Valeska. Queria se certificar de que a pessoa que estava em sua casa fosse realmente a amante de Nikolai. A jovem Valeska pouco ajudou, contou tudo o que havia acontecido, disse palavra por palavra do que tinha conversado com Anna, embora não soubesse se a referida mulher tivesse alguma ligação com Nikolai.

A imagem de Anna perpassou pela memória de Katerinne. Ela já havia visto a rival algumas vezes. Agora, estavam debaixo do mesmo teto, ou melhor, estavam sob o teto de Katerinne. Bastaria uma pequena comprovação.

Ela pensou em uma forma de tirar proveito da situação. A presença de Anna naquela casa só poderia ter sido um presente dos céus. Ordenou que cuidassem bem dela, disse à Valeska para lhe dar de comer e que em alguns minutos iria até o quarto para conhecê-la…

– Você deve ser Anna… – disse Katerinne sorridentemente.

– Sim. Sou eu mesma.

– Muito prazer. Sou Katerinne. A dona de tudo isso aqui…

– O prazer é meu e… Muito obrigada por estar me ajudando.

– Ora! Não agradeça ainda… Conte-me tudo o que aconteceu com você, pode confiar, você está entre amigas.

E Anna contou quase tudo a respeito de sua vida. Fez-se de vítima quando se referiu ao marido Vladimir e quase não mencionou o nome de Dimitry. Em momento algum, disse conhecer Nikolai, o que despertou um interesse ainda maior, por parte de Katerinne, na conversa que estavam tendo.

Katerinne perguntou se ela tinha para onde ir. Ela, um pouco confusa, disse que sim, que um amigo iria ajudá-la. A prostituta, querendo aprofundar um pouco mais a conversa, disse:

– Amigo! Ou o seu homem?

– Homem! Como assim!? – exclamou Anna como se não estivesse entendendo o que Katerinne falava.

– Ora, minha filha! O seu homem… O seu macho… Aquele que te leva pra cama e faz você sorrir por um longo tempo. Aquele que faz você se esquecer de todos os problemas… Aquele que te espanca em cima de uma cama e você agradece. Vai me dizer que não tem?

– Não tenho não, senhora…

– Senhora é a puta que te pariu. – gritou Katerinne.

Anna ficou assustada. Katerinne rapidamente pediu desculpas pelas palavras ditas. Explicou que não gostava de ser chamada de senhora. Disse que quando uma mulher chega na idade a qual tinha chegado, a palavra senhora se tornava uma ofensa.

A conversa foi novamente se restabelecendo de forma que um aparente entendimento fosse sendo alicerçado de ambas as partes.

Katerinne não a questionou mais sobre o amigo que provavelmente a ajudaria e ainda disse que se precisasse ficar alguns dias em sua casa, que não haveria nenhum problema.

Anna agradeceu a hospitalidade oferecida, contudo precisava solucionar seus problemas ainda naquela noite. Esperaria somente mais alguns minutos para voltar às ruas à procura dele.

Enquanto conversavam, uma das meninas que trabalhavam para Katerinne a chamou em um canto para lhe falar em particular. Conversaram por aproximadamente três minutos. Katerinne sorriu. Acenou com a cabeça e disse em voz alta que ele poderia subir.

Voltou-se e ficou frente a frente com Anna.

– Acho melhor você se arrumar um pouco. – disse Katerinne com um estranho sorriso nos lábios.

– Por que? Não entendo…

– Seu amigo… Pedi que subisse…

– Nikolai!!!

Anna pronunciou o nome do amante assim que ele entrou no quarto onde estavam. Assustou-se ao perceber que Katerinne sabia de seu relacionamento com o escritor.

Nikolai, por sua vez, ficou ainda mais confuso. Não esperava encontrar sua amante, Anna, no prostíbulo de Katerinne, conversando com a própria.

– O que aconteceu com você? O que está fazendo aqui? – perguntou Nikolai à Anna.

– Eu é que te pergunto o que você está fazendo em um lugar como esse! – replicou Anna, demonstrando ciúmes.

– Ih! Já vi que estou sobrando. Vê se não me quebram nada, por favor! – exclamou Katerinne saindo do quarto, deixando os dois a sós.

Katerinne conhecia muito bem as mulheres. Viu claramente nos olhos de Anna o ciúme que ela tinha pelo escritor. Sentiu-se, de certa maneira, aliviada. Como sabia que não tinha o escritor somente para ela, também não queria que nenhuma outra mulher, sequer cogitasse essa possibilidade.

Nunca teve a intenção de contar, ainda que através de uma carta anônima, os passos do escritor à Anna. Entretanto, não pensou duas vezes em esclarecer os fatos, ao vê-la em sua casa e que um encontro com Nikolai seria praticamente inevitável.

Anna passou os primeiros minutos discutindo com Nikolai. Não queria aceitar que o grande amor de sua vida pudesse freqüentar lugares como aqueles. Nikolai ria cinicamente e dizia que provavelmente ela nunca tinha lido nenhum de seus livros. O prostíbulo de Katerinne era fonte de inspiração para seus trabalhos.

Assim que ela ficou um pouco mais calma, o escritor delicadamente a abraçou e pediu que ela lhe contasse tudo o que havia acontecido. Desejava saber, principalmente, o porquê de tantos ferimentos.

Ela o pôs a par de tudo o que havia ocorrido em casa com o marido. Disse também, que estava pensando em fugir de casa. Pensava em deixar toda a sua vida para trás e começar vida nova. Esperava pela viagem do marido para colocar seus planos em andamento, mas a descoberta da traição antecipou seus planos.

– Você estava planejando uma fuga sem antes me consultar? – perguntou Nikolai.

– Mas… Eu ia te contar… Não houve oportunidade…

– Você acha que eu aceitaria uma coisa dessas? Você só pode ser louca…

Anna não entendeu. Prendeu a respiração para não chorar. Toda a fantasia criada em torno do amante se desmoronava como um castelo de cartas. Nikolai deixava claro para ela que não fugiria em hipótese alguma. Tampouco assumiria um caso com ela perante toda a sociedade. Ela se sentiu usada, sentiu-se como uma prostituta.

Ele não queria ser tachado como “o homem que havia roubado a mulher do vendedor de sapatos, deixando-o com o pobre diabo nos braços”. Alegava como sendo nobres os seus motivos e aconselhou à Anna que voltasse para casa.

Nikolai reconheceu que deveria ter conversado há mais tempo com ela sobre a situação deles. Disse que, no último encontro, pensou em falar sobre o pequenino Dimitry e que desejava ver uma outra postura dela como mãe.

Ela não queria acreditar em tudo o que estava ouvindo. Não do grande amor de sua vida. Não daquele a quem ela o havia elegido como o seu protetor, o homem por quem ela venderia a alma ao diabo se preciso fosse.

Eles se entendiam tão bem… Levavam uma vida perfeita. Jamais haviam brigado… Era a primeira discussão que tinham. Ela não podia aceitar que ele desistisse do relacionamento de uma forma tão simples e natural como se nunca houvessem existido sentimentos.

– Nosso bom relacionamento sempre se resumiu em sexo… Sempre nos demos muito bem na cama… No pequeno quarto da hospedaria. Aquele era um mundo que inventamos para fugir de nossas realidades. Aquele sim, era um mundo perfeito. – disse decididamente Nikolai.

– Éramos perfeitos… – concordou Anna totalmente decepcionada.

Nikolai disse que iria acompanhá-la até a casa dela. Ela mudou de assunto dizendo que tinha sido muito ingênua em não perceber que tudo o que tinham vivido juntos não se passava de uma grande ilusão.

– Sexo! Simplesmente sexo não serve, não serviu e nunca servirá como alicerce em um relacionamento. – ponderou ela com os olhos vermelhos.

Anna começou a se sentir angustiada na medida em que percebeu sua fuga da vida real. Nunca havia encarado os fatos de frente, ao contrário do marido, que sempre lutou contra todas as adversidades. Sentiu-se como um grande rato… Um rato de esgoto, ou melhor, uma ratazana de esgoto.

No entanto, ainda sentia um grande repúdio pela figura do filho. Não sabia explicar o que era. Não se sentia mãe e não sabia por quê.

Como Nikolai não a convenceu a voltar para casa, acabou se despedindo e indo embora. Não havia muito que fazer. Pediu a Katerinne que a deixasse ficar lá por alguns dias até que ela resolvesse voltar para casa. A dona do prostíbulo afirmou o que já havia dito à Anna e ele foi embora um pouco mais tranqüilo.

Nikolai era um homem complexo demais para ser compreendido. Estava se sentindo feliz por tirar um peso de suas costas; por outro lado, sentia-se como o mais desgraçado de todos os homens, porque não iria ter a bela Anna em seus braços. Creio que, em nenhum momento, ele tenha pensado nos sentimentos dela.

Com o dia clareando, Vladimir, totalmente ébrio, voltou para casa e se deparou com o filho sentado em uma cadeira defronte à porta, esperando a volta da mãe. Abraçaram-se e choraram amargamente.

CAPÍTULO 13 – Publicado em 16/10/2017

Escutei perfeitamente as cinco badaladas que o relógio da catedral, ao longe, anunciou. Nikolai ainda permanecia sentado na sua velha cadeira de balanço, completamente absorto. Eu pensava em Anna, Dimitry, Vladimir, Katerinne, Puttin, Yelenna, Yellenova, Valeska, Martinna, Boris e tantas outras pessoas que tiveram seus caminhos cruzados com os caminhos de Nikolai.

Pensava em como cada uma dessas pessoas contribuíram, ao longo de suas vidas, na formação do escritor e principalmente na formação do homem Nikolai, já que consciente ou inconscientemente, tenham existido trocas de experiências, informações, sentimentos… O homem realmente seria uma formação do próprio meio?

Sempre que me questiono sobre o ser humano, sinto dores de cabeça. Talvez não me caiba essa difícil tarefa. Às vezes não entendo por que insisto em continuar suscitando questões que nem mesmo sei se valem a pena. Sinceramente, às vezes não sei se o ser humano vale a pena!

Enfim, não quero deixar aqui as minhas impressões. Prefiro tentar desvendar os segredos de meu amigo Nikolai, ainda que as dores de cabeça persistam, e que isso leve algum tempo. Ou até mesmo que toda essa busca consuma minha fonte de entendimento.

– O que está fazendo? – perguntou-me repentinamente Nikolai, levantando-se da cadeira de balanço.

– Nada. – respondi.

– Nada?! Nunca diga que não está fazendo nada, ainda que nada esteja fazendo…

– Mas por quê? – perguntei curioso.

– Por nada. Apenas não diga.

Colocou um disco em uma antiga vitrola, tomou-me contra o seu peito e começamos a dançar.

Como ele estava diferente! Falastrão, com a animação contagiante. Por tanto falar, acabava errando alguns passos. Desculpava-se e… Continuávamos dançando como um casal apaixonado.

Eu olhava bem dentro de seus olhos e percebia que a música, a dança e por que não dizer, minha companhia, lhe faziam bem. Alegrava-me ao contemplar a felicidade estampada em seu rosto. Vi claramente naquele dia como as pequenas coisas da vida fazem a diferença.

Ele me confidenciou algumas de suas histórias e pela primeira vez, disse-me que um dia havia amado loucamente… Nádia! Esse era o nome da mulher por quem o escritor nutria algo de especial.

Interrompemos nossa dança e nos dirigimos para a cama. Deitado ao seu lado, pus-me a escutar curiosamente tudo o que ele tinha a dizer…

Percebi que aquele nome soava diferente aos ouvidos dele. Ele repetia o nome dela várias vezes… Gritava como se a chamasse. Lágrimas escorriam pelo seu rosto sem me dizer o porquê do choro.

Notei que havia algo de estranho no ar. Um clima melancólico invadiu o ambiente, desfazendo toda a felicidade momentânea que havia acalentado nossos corações através da música.

Cada frase, palavra, cada suspiro que Nikolai proferia por causa de Nádia eram motivos suficientes para que eu procurasse respostas junto ao seu passado que me auxiliassem na montagem desse grande quebra-cabeça que se formava a cada nova descoberta.

Ao menos, agora, eu sabia que havia existido um amor verdadeiro na vida de Nikolai. Se é que se pode dizer que a palavra AMOR algum dia tenha sido desvendada pelo meu amigo. Ele mesmo, em determinadas ocasiões, dizia desconhecer o verdadeiro significado da palavra. Entretanto, de todos os casos e romances vividos por ele, a história com Nádia foi a que me pareceu mais sincera.

Amor… Nem sei por que suscitei essa dúvida em relação a Nikolai e Nádia, ou até mesmo em relação às outras mulheres com quem Nikolai já se envolveu; talvez eu não tenha esse direito, já que sei tão pouco a respeito desse nobre sentimento.

Nunca amei… Não da forma que todos conhecem. Talvez tenha amado do meu jeito, na minha insignificante maneira de ser. Talvez eu ame meu amigo Nikolai, não sei, talvez… Não consigo descrever com palavras o que realmente seria o amor. Não sei se toda a minha admiração por ele poderia ser rotulada como amor. Às vezes fico confuso com tudo que absorvo de nossas conversas.

Bem! Esqueçamos o que disse em relação ao que sei ou ao que não sei sobre amor. Minhas medíocres deduções não estão à altura de meu amigo e principalmente à altura de meus ilustres leitores, que com certeza sabem realmente o que é o amor…

Nikolai havia me dito que era amor… Eu via claramente em seus olhos um brilho diferente enquanto conversávamos sobre Nádia, então, não irei mais discutir sobre meu pouco conhecimento nesta questão.

Ele me falava sobre poesia. Sim, poesia, sim! Eram poesias todas aquelas histórias entre Nikolai e Nádia. Conversamos durante algumas horas… Ele fez algumas confissões sobre o passado ao lado de Nádia e por fim, adormeci. Depois de algum tempo, acordei e não mais o vi.

Enquanto pensava em seu paradeiro, lembrava-me de fatos que envolviam direta ou indiretamente a vida do escritor Nikolai S. Andreiev…

CAPÍTULO 12 – Publicado em 14/10/2017

O pequenino Dimitry estava disposto a estudar na escola. Até então, todo o ensinamento recebido vinha da parte do pai. Vladimir procurava instruir o filho da melhor maneira possível. Ainda não havia pensado na possibilidade de o filho freqüentar a escola como as demais crianças. Apesar de ele nunca ter escondido seu filho da sociedade, sabia perfeitamente que, quando o garoto estava em sua companhia, as demais pessoas ainda toleravam a presença do pequenino. Quando Dimitry estava sozinho, poderia esperar-se o pior.

O pai, na verdade, temia pela integridade física e moral do filho. Poderia defendê-lo se estivesse por perto, mas de longe, nada poderia fazer. Isso era o que mais o preocupava.

Anna não aprovava o desejo do filho em estudar na escola com as demais crianças. Preferia que Dimitry não pusesse mais os pés fora de casa. Dizia que ele estaria melhor estudando com o pai e não envergonhando a família.

Vladimir a repreendia severamente pelas palavras com as quais se referia ao próprio filho. Contudo, era bastante moderado e contornava a situação com muita diplomacia.

A vontade de Dimitry quase sempre prevalecia diante de seu pai. Embora soubesse das dificuldades que o garoto encontraria pela frente, permitiu que ele estudasse longe de seus cuidados.

O pequenino Dimitry já não era mais o mesmo desde a surra levada pelos garotos. Travava vários questionamentos consigo mesmo sobre todos os problemas que tinha.   Às vezes, acordava de bem com a vida. Evitava a presença da mãe e ia para o quintal brincar com alguns brinquedos de madeira feitos pelo pai. Também gostava muito de ler. Admirava os trabalhos de Nikolai e ficava envaidecido por considerá-lo um amigo.

Em outros momentos, sequer saía do quarto. Ficava deitado na cama olhando para o teto. Não fazia absolutamente nada. Apenas olhava para o espelho quase que de hora em hora para se certificar de sua aparência.

A vida do pequenino era muito difícil. Talvez ninguém saiba precisar, com palavras exatas, todo o sofrimento, todas as dúvidas, todos os questionamentos que ele travava diariamente em frente ao espelho.

Mas a decisão de ir à escola era dele próprio. Mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar a vida de frente, ainda que muitos lhe virassem as costas para não verem a sua face.

Dimitry encontrou dificuldades logo no início. A direção da escola não queria aceitar sua matrícula. Segundo a explicação dada a Vladimir, o garoto nunca havia estudado em uma escola, portanto não estava apto a acompanhar os demais alunos.

Vladimir contestou veementemente dizendo que seu filho era capaz de acompanhar os demais, pois ele mesmo lhe havia ensinado tudo o que aprenderia na escola.

Como a direção não queria aceitar de maneira nenhuma a matrícula de seu filho, Vladimir os desafiou a prepararem um exame para que Dimitry provasse a todos que era capaz de freqüentar a escola.

Diante desse impasse, Boris, o diretor da escola, se viu obrigado a elaborar um exame para por à prova os conhecimentos de Dimitry.

Vladimir foi para casa um pouco mais aliviado dar as novas ao filho. Sabia que teria que prepará-lo ainda melhor para os exames que aconteceriam na próxima semana.

– Uma semana! – disse Dimitry bastante confuso a seu pai.

– Sim, filho! Uma semana.

– Mas não vai dá tempo!

– Claro que vai. Você já estudou tudo o que eles vão cobrar…

– Mas são só alguns dias para revisarmos tudo o que já foi estudado em cinco anos. Eu não vou conseguir…

– Claro que vai. Você não pode desistir. Não é o que você quer?

– Eu não sei, pai… Eu não sei…

Diante da vaga resposta dada pelo filho, Vladimir se retirou do quarto. Sabia que o filho tinha que tomar suas próprias decisões. O que ele podia fazer como pai já havia sido feito; agora era esperar por uma resposta do filho.

Assim que Vladimir saiu da escola, Boris convocou uma reunião com todos os professores. Não desejava o pequenino na escola. Sabia que a presença de Dimitry seria algo no mínimo desagradável para todos.

Exigiu que os professores dificultassem ao máximo os exames de forma que o garoto não conseguisse alcançar o objetivo. Não houve objeções. Todos os professores corroboravam os pensamentos e teorias do diretor.

Mobilizaram-se rapidamente e começaram a elaborar uma longa e cansativa prova com as questões mais avançadas possíveis à série pertinente àquela em que Dimitry deveria estar.

Não demorou muito para que a notícia se espalhasse pela cidade. Alguns pais de alunos disseram que se o “pobre diabo” conseguisse passar nos exames, tirariam seus filhos da escola para não vê-los misturados.

A notícia corria à boca pequena. Nikolai ficou contente ao saber que o pequenino estava se preparando para realizar os exames e que o pai o ajudaria com os estudos.

Sentiu uma leve ponta de tristeza por saber que não veria Anna durante aquela semana. Quando soube dessas novidades, estava no prostíbulo de Katerinne. Nessa época, Katerinne deveria ter uns cinqüenta anos. Sabia de todos os passos de Nikolai, inclusive que ele era amante de Anna. Nikolai e Anna estavam juntos há pouco tempo, talvez alguns poucos meses, não sei ao certo, provavelmente Katerinne sabia até mesmo dos segundos exatos deste romance.

Ainda se considerava amante do escritor. Contentava-se em ser o caso mais longo que o escritor tivera em toda a sua vida. Procurava não esboçar mais os ciúmes que sentia, havia aprendido a lidar com eles. A única coisa que exigia de Nikolai era algumas horas de amor e um pouquinho de atenção.

O escritor atendia aos desejos de Katerinne porque gostava de tê-la na cama e por ela o ter ajudado nos momentos em que precisou. Não nutria sentimentos maiores por ela. Também não necessitava mais de seu dinheiro, já sobrevivia há algum tempo de literatura. Talvez a gratidão ainda os unisse.

Dimitry havia passado toda a semana recordando as lições com seu pai. Estava feliz… Muito feliz. Não se importava se iria passar ou não, aquela semana foi tão especial para ele que o resto não tinha tanta importância.

Pela primeira vez, ele pôde ver sua mãe demonstrar um pouco de carinho e compreensão para com ele. Anna levava bolinhos com chá para que ele e seu pai fizessem alguns intervalos durante as horas de estudo. E isso aconteceu durante toda a semana.

O desconfiado pequenino não sabia ao certo se a mudança de comportamento de sua mãe era devido à presença do pai, ou se realmente algo estava ocorrendo naquele frio coração de mãe.

Preferiu não pensar em suas dúvidas e aproveitou para curtir alguns momentos de felicidade. Por alguns instantes, sentiu-se o garoto mais feliz do mundo.

– Nossa! Como o tempo passou rápido! – disse o pequenino Dimitry.

– Amanhã é o grande dia. Não importa o que aconteça, dê o seu melhor. – disse Vladimir com um olhar confiante.

– Eu darei, pai…

– Eu me orgulho muito de você, filho! Me orgulho muito…

Com um abraço bem apertado, pai e filho se despediram durante a noite. Teriam que estar de pé bem cedo.

A cidade estava em polvorosa. Todos sabiam que Dimitry iria prestar o exame para tentar ser admitido na escola.

A chegada do garoto ao local marcado para as provas foi algo inenarrável. Cartazes agressivos e uma grande multidão gritando palavras de baixo calão assustaram o garoto. Seu pai o abraçou e o atravessou pela multidão que teve de ser controlada pelas autoridades.

A intolerância, a discriminação sobre o pequenino Dimitry era algo assustador. O garoto era tratado como uma aberração, filho do demônio. Pensavam, alguns, que o menino tivesse poderes sobrenaturais.

A ignorância se transformava em setas que vinham de todos os lados. Em meio à multidão, algumas pessoas tentavam dissuadir aquela gente. Era o escritor Nikolai e algumas prostitutas que se afeiçoaram ao pequenino desde o fato lamentável ocorrido com o garoto próximo ao açougue.

Dimitry, já dentro da escola, tentava se acalmar. Era uma forte pressão que estava sofrendo. Sentia-se odiado, rejeitado… Não sabia por que ser diferente era tão ruim assim. Ele nunca havia feito mal a ninguém. Não entendia como aquelas pessoas o apontavam, sendo que ele nunca havia estendido o dedo para apontar ninguém…

– Está pronto? Podemos começar? – perguntou o diretor Boris.

– Senhor?

– O que é? Pensa em desistir?

– Não! Não é isso. É que no ano passado, quando sua esposa…

– Minha esposa! O que tem minha esposa? – interrompeu Boris, assustado, antes que Dimitry completasse o raciocínio.

– É que no ano passado, quando sua esposa saiu para procurar o cavalo fujão que tinha ido à floresta…

E Dimitry narrou todos os fatos para o diretor Boris antes que fosse dado início aos exames.

O pequenino Dimitry costumava ir à floresta para se isolar. A companhia dos pequenos animais, dos pássaros e até mesmo dos insetos era mais agradável do que a companhia da maioria das pessoas.

Certa vez, viu um cavalo muito bonito cavalgando solto pela floresta. Não era comum ver um belo animal como aquele por aqueles lados. Estranhou, contudo deixou o pobre animal de lado.

O tempo estava começando a virar. Uma forte tempestade se anunciava sem muitas cerimônias.

Dimitry, percebendo a mudança do tempo, resolveu voltar para casa. Assim que começou a deixar a floresta, percebeu que alguém se aproximava. Escondeu-se… Não queria que ninguém o repreendesse por está ali.

Era uma bonita mulher. Jamais a havia visto pela cidade. Ela passou correndo, e não houve chance para que o pequenino lhe advertisse sobre a mudança do tempo. Preocupado, resolveu voltar para avisá-la de que poderia ser perigoso.

O vento já soprava forte e de repente, um grande galho de árvore caiu sobre a cabeça da mulher. Ela desmaiou… Estava com o rosto voltado para o solo, totalmente desacordada.

Não demorou muito para que começasse a chover. Chovia fortemente de maneira que uma grande poça d´água se formou em volta dela. Morreria afogada em questão de minutos…

Quando Dimitry se deparou com aquela cena, usou toda a força que tinha para virá-la. Não satisfeito, pois a chuva caía fortemente no rosto dela, arrastou-a por alguns metros e a encostou em uma árvore.

Como ela não acordava e ele não tinha forças suficientes para carregá-la até a cidade, decidiu ir em busca de ajuda.

Chegando próximo ao mercado central, viu um aglomerado de pessoas que procuravam por alguém. Não queria ser visto… Também não queria que descobrissem que se escondia na floresta para poder brincar. Ouviu alguém dizer que a mulher do diretor Boris havia saído para procurar o cavalo de estimação e que ainda não tinha voltado.

Dimitry não teve dúvidas. A mulher que ele havia ajudado na floresta só poderia ser a esposa do diretor.

Ele não sabia quem era Boris, nunca o tinha visto, porém, sabia onde ele morava. Teve a idéia de escrever um bilhete informando sucintamente o que havia acontecido e onde se encontrava a mulher que todos estavam procurando.

– Então foi você quem escreveu aquele bilhete salvador… – disse Boris estupefato.

O pequenino fez um sinal positivo com a cabeça e ficou esperando que o diretor lhe dissesse como ela estava, já que não soube mais notícias e também não a tinha visto mais.

O diretor não tinha palavras. Sequer agradeceu o gesto salvador que o garoto tivera na ocasião. Pigarreou duas vezes e disse que o tempo do exame já estava sendo marcado.

Com todas aquelas folhas nas mãos, Dimitry não sabia por onde começar. Em determinados momentos teve vontade de desistir, entretanto foi respondendo folha por folha, sem deixar questão em branco.

O relógio parecia correr mais que o habitual. Quatro horas depois, o diretor anunciou o término do tempo e recolheu os exames para conferência. O resultado sairia em aproximadamente uma hora após o término das provas.

Vladimir, assim que viu o filho saindo, correu e o abraçou. Com o filho nos braços, procurou se isolar da multidão que ainda se manifestava contra o ingresso do garoto na escola.

Os professores que estavam corrigindo os exames não acreditavam no que estava acontecendo. No ritmo em que as coisas estavam indo, Dimitry certamente conseguiria a tão pretendida vaga.

Um deles sugeriu que se anulassem os exames. Um outro professor achou melhor manipular os resultados, pois segundo ele, não havia necessidade de se apresentar claramente os resultados aos interessados, já que o poder de decisão estava nas mãos da escola.

Um terceiro professor disse que aquele não era um simples caso para ser tratado por eles, era um caso que deveria ser solucionado pelo Estado, já que se tratava de algo nunca vivenciado por nenhuma instituição de ensino.

O tempo estipulado pelos examinadores para o término da correção já havia sido ultrapassado. Vladimir e Dimitry estavam ansiosos pelo resultado que não vinha. Nikolai, percebendo a aflição dos dois, aproximou-se para manifestar seu apoio.

O pequenino Dimitry sorriu ao ver seu amigo escritor se aproximar. Nikolai disse que tudo daria certo. Teriam que esperar só mais um pouco e que depois comemorariam a primeira vitória do garoto. Vladimir agradeceu emocionado as palavras proferidas pelo escritor e disse:

– Tenho uma dívida eterna de gratidão com o senhor e não sei como pagá-la…

Nikolai calou-se. Talvez tenha pensado na amante. Não sabia o que dizer ao marido traído que estava bem a sua frente, relembrando o quanto ele havia sido generoso ao cuidar do filho quando estava ferido.

– Está demorando demais! Eu vou ver o que está acontecendo. – disse Nikolai secamente, procurando fugir das lembranças provocadas por Vladimir.

Dimitry foi aprovado nos exames. Já haviam passado duas horas e o resultado ainda não tinha sido divulgado. Os professores confabulavam com o diretor para saber que providência seria tomada.

Boris estava com o coração apertado. Sabia que a aprovação do menino poderia gerar um grande tumulto por parte dos manifestantes que estavam de prontidão em frente à escola. Sem levar em consideração que a todo o momento, sua consciência o cobrava por gratidão a quem salvara a vida de sua esposa.

Estavam dispostos a anular os exames. Foi o próprio Boris que sugeriu essa saída como sendo a mais sensata. Não levaram em consideração os esforços de um garoto especial que lutava pelo direito de se instruir… Não levaram em consideração a forma honrosa pela qual o garoto tinha conseguido para freqüentar as aulas… Não levaram nada em consideração.

Entretanto, Nikolai havia escutado tudo o que tinha se passado entre o diretor e os professores. E assim que ouviu a decisão que pensavam em tomar, ele acabou intervindo.

Ameaçou denunciar a todos publicamente através de um artigo que circularia em todos os jornais do país e disse que não mediria esforços para manchar a reputação de todos eles, ainda que tivesse de inventar algumas histórias… Eles sabiam que a opinião pública local estaria a favor deles, mas não tinham idéia de que forma a situação repercutiria pelo resto do país, ainda mais sendo direcionada pelo escritor Nikolai S. Andreiev. Preferiram não arriscar.

Minutos depois, Nikolai saiu com as boas novas para Dimitry e Vladimir. Rapidamente, os três deixaram a frente da escola sem nada dizer à multidão. Essa tarefa ficou a cargo do diretor Boris, que preferiu sair pelos fundos da escola sem nada dizer.

Nikolai acompanhou os dois até a porta da casa deles. Viu rapidamente a bela Anna que o cumprimentou como se não o conhecesse. Vladimir o convidou para tomar uma dose de vodka, mas ele recusou o convite dizendo que ficaria para uma próxima oportunidade.

Dimitry disse a Nikolai que queria algo dele…

– O que você quer de mim? – perguntou curiosamente o escritor.

– Quero um beijo…

Sua mãe o repreendeu. Nikolai sorriu e disse que não tinha nenhum problema. Ele se abaixou, deu um forte abraço no pequenino e beijou sua testa… Depois beijou sua face… Primeiro, o lado esquerdo… Depois, o direito… Olhou nos olhos do garoto e viu que ele sorria como se o que havia acabado de fazer fosse a coisa mais importante do mundo.

Arrisco-me a dizer que se não foi a coisa mais importante para o pequenino Dimitry, talvez tenha chegado muito perto. Ele sabia que o escritor nutria um carinho, uma afeição especial por ele. Tinha certeza de que não se tratava de pena.

CAPÍTULO 11 – Publicado em 12/10/2017

Três horas da tarde. Ainda vinham à minha memória muitas histórias, vários questionamentos, inúmeras conversas que já havia tido com Nikolai. Era uma verdadeira fonte de que manava toda a existência do escritor diante de mim.

Ele ainda dormia. Aproveitei para ler alguns trechos de seu recente trabalho e confesso que pouco entendi. Era compreensível, haja vista se tratar dos primeiros rascunhos; as idéias ainda estavam desconexas. Talvez somente ele mesmo entendesse aquele amontoado de palavras. Acabei desistindo de decifrar todas aquelas folhas.

Olhei em todas as direções do quarto e percebi algo que ele ainda não havia notado. O quarto…

Talvez seus pensamentos estivessem tão direcionados ao novo trabalho que mal havia tempo de notar as pequenas coisas que se passavam ao redor. Não que eu me incomodasse com sua dedicação ao trabalho a ponto de deixar pequenas coisas se acumularem dentro de casa… Longe de mim! Mas o quarto estava repleto de tralhas.

Ele tinha uma estranha mania de guardar algumas coisas embaixo da cama. Como não houvesse mais espaços, todos os cantinhos do ambiente foram sendo preenchidos durante algum tempo.

Eram pequenas caixas de papelão, algumas caixas de fósforos usadas, cotonetes, embalagens vazias de absorventes, sacolas plásticas de várias cores e tamanhos, sola de sapato, pequenos pedaços de madeira, pedras (grandes e pequenas), barbantes de todos os tipos, tampinhas de refrigerantes, brinquedos usados de plástico, canetas sem tinta, uma enorme quantidade de latas de vários tamanhos e cores, ferramentas velhas e enferrujadas, panelas amassadas e ou furadas, peças separadas de um antigo televisor, pedaços de uma cama que havia sido cortada em uns pequenos centímetros para facilitar o manuseio, uma grande quantidade de livros, todos eles velhos e repletos de traças, além de uma infinidade de coisas que eu levaria horas para relatar.

No princípio, quando não havia ainda tanto lixo, Nikolai havia me dito que todo aquele material era para ser aproveitado em um trabalho artístico que tencionava realizar. Nunca me revelou o que seria e muito menos quando começaria a trabalhar nesse projeto.

Agora, os espaços estavam praticamente todos ocupados. Cada cantinho com seu pedacinho disso ou daquilo outro; um objeto com uma cor clara, outra mais escura; grandes quantidades, pequenas quantidades; algumas coisas velhas, outras mais velhas ainda…

Coisa de artista… Vá-se entender! Acho que nunca lhe diria nada. Ele poderia achar que eu estivesse querendo me intrometer em sua vida e principalmente em seu trabalho. Talvez ele seja um grande artista plástico que trabalhe com materiais recicláveis e eu não conheça esse seu talento. Bem! Se for artista plástico, tomara que seja tão bom quanto o é como escritor.

 Minha amizade com ele era bastante unilateral. Nikolai se sentia muito à vontade para conversar comigo sobre todo e qualquer tipo de assunto. Principalmente sobre sua vida pessoal, suas aventuras do passado, seu presente em minha companhia e suas poucas perspectivas para o futuro, embora falasse somente no momento em que desejasse conversar. Tudo era no seu tempo. Isso me intimidava e eu não tinha a mesma liberdade para falar com ele, não conseguia me sentir à vontade, por isso, sempre preferi escutá-lo.

Talvez por agir assim, tenha sido eleito por ele como o seu melhor amigo. Estava feliz por poder ajudá-lo de alguma forma, ainda que minha contribuição fosse ínfima.

Nikolai acordou sedento. Pegou sua velha xícara de estimação, encheu-a até a borda com água e bebeu sem parar. Repetiu essa cena por mais quatro vezes, talvez o efeito do tempero extremamente salgado tenha se manifestado somente depois de algumas horas.

– Ah! Que maravilha de água! – disse Nikolai com um semblante refrescante.

– Parece que toda a comida estava salgada. Não acha? – perguntei-lhe.

– Não! Não acho! Somente a carne estava salgada.

Disse-me de uma forma seca, como se eu estivesse levantando uma hipótese absurda. Como se minhas palavras não tivessem nenhum cabimento. Preferi não dizer mais nada. Apenas me calei e fiquei observando seus passos.

Ele estava prestes a retomar o seu trabalho. Leu e releu suas últimas anotações com toda atenção que lhe era pertinente quando estava trabalhando. Assim que começou novamente a escrever, foi interrompido por um forte grito.

Assustado, olhou em direção à porta e viu que ela permanecia fechada. Aproximou vagarosamente e olhou pela fechadura para descobrir o que estava acontecendo. Não queria abrir a porta, parecia estar muito assustado com grito a ponto de sentir medo.

Mais uma vez o grito ecoava pelo corredor e dessa vez ele pôde identificar quem estava gritando. Era o seu vizinho da frente, o morador do 102.

Pensou em abrir a porta, mas o adverti sobre o que tinha se passado durante a madrugada e ele acabou desistindo.

Não houve mais gritos. O silêncio voltou a reinar absoluto de forma que Nikolai poderia voltar a trabalhar, embora tenha preferido se sentar na velha cadeira de balanço sem nada fazer.

Balançava-se… Balançava-se… Vagarosamente… Vagarosamente, balançava-se… Olhar absorto como se estivesse pensando em algo que não fosse preciso ou que não fosse possível compartilhar.

Penso que naquele exato momento ele se transportava para uma outra dimensão ou para uma outra época qualquer diferente da nossa. Era sempre a mesma sensação que eu tinha quando ele se sentava naquela cadeira de balanço.

O ranger da cadeira era algo mágico. Às vezes eu dormia ao som emitido pela cadeira. Embora estivesse muito cansado, preferi observar a fisionomia de Nikolai para ver se era possível captar alguns de seus pensamentos. Deseja saber onde o escritor estava naquele exato momento. Onde ele poderia estar naquele estado alterado de consciência?

Era impossível. Não há como penetrar nos pensamentos de um ser humano. Por mais que eu me esforçasse, nunca conseguiria desvendar o que se passava quando ele se sentava na velha cadeira.

Como não era possível desvendar, acabei me lembrando de algumas coisas que se passaram na vida de determinadas pessoas que tiveram seus caminhos cruzados com os caminhos do escritor. Para uns, trilhados pela vida; para outros, trilhados pelo destino; e, para muitos outros, somente trilhados…

CAPÍTULO 10 – Publicado em 10/10/2017

Katerinne, com o passar dos anos, assumiu seus sentimentos por Nikolai. Não havia mais como esconder. Todos sabiam quanto ela o amava. Tudo o que podia fazer pela felicidade de seu amado ela fazia. Não media esforços para que ele conseguisse alcançar seus objetivos…

Assim que se tornou amante de Katerinne, seu comportamento modificou visivelmente. Não era mais solícito com as outras moradoras do recinto, não trabalhava mais em função do prostíbulo, conversava somente o necessário e quase não saía do quarto de Katerinne.

Não sei se por ordens dela estava evitando as outras mulheres ou se estava pensando que o fato de dormir com a dona do prostíbulo o fazia melhor que os demais, a ponto de não se relacionar com os outros. Talvez não fosse nem uma coisa, nem outra. Ele poderia estar simplesmente querendo se isolar um pouco do mundo real e adentrar de cabeça em um mundo novo, totalmente imaginário como fazia em suas histórias.

O fato é que a partir dessa época, ele passou a estudar com afinco literatura. Também passou a escrever rotineiramente, até que um dia deu por si e já estava com um livro pronto.

Encontrou uma série de dificuldades para publicá-lo. Nada menos do que sete editores recusaram seu trabalho. Katerinne quando percebeu que seu amado estava frustrado por não encontrar um editor que apostasse em seu talento, decidiu bancar uma primeira e modesta tiragem.

UMA FORCA PARA O HOMEM DE SANGUE AZUL foi publicado com uma tiragem de 500 exemplares. A maior parte dos livros era vendida no prostíbulo, uma outra parte era vendida pelo próprio escritor.

Nikolai saía pelas ruas da cidade com alguns livros dentro de uma sacola oferecendo a todos que encontrava pela frente. Bem, na verdade ele oferecia àqueles que aparentavam ter um pouco de dinheiro, que pudessem ao menos comprar um livro e principalmente aos que sabiam ler.

Não demorou muito para que o livro se esgotasse. Era comum ver um amontoado de pessoas em algumas ruas e vielas com o livro na mão, discutindo uns com os outros.

Houve um aumento de fregueses no prostíbulo em função do sucesso que o livro estava fazendo. Todos queriam conhecer o escritor que colocava “o homem de sangue azul” dependurado em uma forca.

Nikolai percebeu que seu talento o levaria a alçar vôos mais altos. Estava feliz com a repercussão de seu trabalho.

Katerinne sentia-se leve… O sucesso do amado era o seu sucesso. Sentia-se maravilhada com tudo aquilo que estava acontecendo. Sabia que, se não fosse por ela, Nikolai ainda estaria limitado a contar histórias às mulheres de seu prostíbulo.

Dizia para si mesma que agora tudo estava nos eixos. Que tudo havia se encaixado perfeitamente. Ele agora teria mais um motivo para ser somente dela. Não tinha como o escritor escapar de seus domínios.

Creio que um dos grandes erros de Katerinne tenha sido a tentativa de comprar o amor de Nikolai…

Houve uma festa na casa de Katerinne para comemorar o sucesso de vendas que tinha se tornado o livro. Naquela noite, com o recinto fechado ao público, somente os moradores participaram da festa preparada com enorme zelo ao mais novo sucesso literário que começava a se despontar.

Algumas mulheres dançavam no pequeno palco enquanto uma grande quantidade de vodka era distribuída entre os demais. Nikolai estava com uma garrafa na mão e já havia bebido quase a metade dela. Seu estado de embriaguez já era visível.

Dançou junto com as mulheres que estavam no palco de forma insinuante e excitante… Suas mãos acariciavam os corpos dançantes com o desejo estampado no rosto. Seus lábios tocavam os lábios das três mulheres que estavam no palco… Sugou cada gotícula de saliva que poderia encontrar nos sedentos lábios. Mordia levemente o pescoço de Martinna, enquanto Valeska e Yellenova começaram a tirar a roupa dele.

Era o único homem que havia no recinto. Aliás, havia um segundo homem… Puttin, o pianista, era quem comandava a festa tocando ininterruptamente. Ele era dotado de um grande talento musical e por isso, todos o respeitavam.

Possuía um abdômen bastante saliente para quem media apenas um metro e sessenta. Um bigode pequeno e ralo, contrastava com a face arredondada do excelente músico. Não gostava muito de tomar banho, por isso, exagerava ao passar suas supostas colônias francesas pelo corpo.

Andava sempre muito bem trajado. Tinha o costume de trazer consigo uma cartola e uma bengala. Separava-se de seus objetos pessoais somente quando estava tocando.

Diziam as más línguas que ele nunca havia estado com uma mulher. Não sabiam se ele tinha sua vida voltada somente para a música ou se na verdade, nunca havia despertado o interesse em alguém.

Isso, na verdade, é um fato irrelevante. Nikolai era o único homem que despertava o desejo de quase todas as mulheres da casa. O seu prestígio havia contribuído grandemente para que isso ocorresse.

Yellenova, Valeska e Martinna haviam tirado toda a roupa do escritor. Nu e embriagado ele também tirou toda a roupa das três. Uma a uma… Peça por peça… Estava formada uma grande orgia. Era uma autêntica festa solene em honra de Dioniso ou Baco, como queiram, só que regrada a vodka e não a vinho.

Ele possuiu as três mulheres… Ali… No palco! Uma de cada de vez. Enquanto estava nos braços de uma, as outras aguardavam ansiosas a oportunidade de copularem com o escritor… Acariciavam-se como se fossem do sexo oposto.

Katerinne, que estava em seu quarto se arrumando para a festa, sequer imaginava o que estava se passando no salão. Ouvia as músicas, as gargalhadas, toda a anarquia que se passava, embora não suspeitasse de nada.

Ela só queria abraçar o seu amado e demonstrar toda a sua felicidade pelo sucesso repentino que ele havia alcançado. Fazia planos para depois da festa… Os dois… A sós, em seu quarto… Amar-se-iam como se fosse pela primeira vez.

Pensava em seu sofrido passado. O quanto havia sido maltratada pelos homens e que na verdade nunca havia se apaixonado por ninguém. Ele era o seu primeiro homem. Era o seu único e verdadeiro amor.

Um garoto a quem ela acolheu por piedade acabou se tornando um homem… Um grande homem. Um escritor! Ela só desejava ter o seu nome gravado no coração de Nikolai.

Ainda no palco, o escritor percebeu que outras mulheres se excitavam com a cena que havia proporcionado. Perguntou se mais alguém desejava fazer parte daquele banquete carnal e houve algumas respostas positivas.

O palco havia se transformado em uma confusão de corpos que desejam ser tocados pelo rígido membro do escritor. Não havia amor, não havia sequer paixão naquelas cenas. O que existia era tão somente uma convulsão libidinosa que havia se alastrado como uma doença contagiosa.

Assim que saiu do quarto, Katerinne presenciou tudo que se passava sob seu teto. Uma grande dor invadiu seu peito e por muito pouco não desmaiou. Sentiu-se a pior de todas as prostitutas. Não queria acreditar em tamanha traição. O que mais lhe doía não era vê-lo com as outras mulheres, sabia que mais cedo ou mais tarde isso poderia acontecer. Ela sabia que uma loba na idade dela não conseguiria segurar um carneirinho só para si.

A grande traição, a maior ofensa, o grande desprezo que sentiu pelo homem a quem amava foi de ele não ter compartilhado sua maior alegria com quem realmente merecia. Foi ela que lhe deu comida quando teve fome… Foi ela que cedeu sua cama para que ele pudesse dormir confortavelmente… Ela quem acreditou no seu talento como escritor…

Katerinne havia apostado todas as suas fichas em Nikolai e começava a presenciar as próprias perdas.

Quando o escritor percebeu que estava sendo observado por sua amante, ele parou. A música parou… Todos pararam e olharam para ele. Ele ergueu uma das mão convidando-a a fazer parte da orgia iniciada por ele. Ela acenou negativamente com a cabeça e mandou que todos continuassem.

A música reiniciou… As mulheres recomeçaram com suas carícias… Nikolai viu sua amante retornar ao quarto e… Pensou em ir atrás dela, mas foi convencido, sem palavras, a permanecer no palco. Afinal, ele era a estrela da noite.

Katerinne teve vontade de chorar. Segurou ao máximo até a primeira lágrima escorrer pela face. Caminhou em direção ao espelho que ficava no centro do quarto e ficou contemplando seu rosto durante algum tempo.

Viu como o tempo havia passado rápido. Lembrava-se de seus quinze anos como se lembrava da noite anterior. Como sua pele era sedosa… Havia um frescor que se exalava a cada sorriso dado. Seus olhos irradiavam uma energia que nem mesmo sabia de onde vinha. Perguntou-se onde teria ido parar toda aquela jovialidade.

Alguns leves sinais enrugados deixavam-lhe o rosto com um semblante circunspecto. Não acreditava no que seus olhos viam. Até a noite passada, não havia notado todos aqueles sinais. Pensou que eles pudessem ter “invadido” seu rosto da noite para o dia. Sabia que já não era a mesma, que estava envelhecendo, todavia ainda não tinha se dado conta das transformações pelas quais estava passando.

Era impossível! Difícil acreditar na realidade que estava diante de seus olhos… A idade estava começando a deixar suas marcas indeléveis pelo corpo. E o pior de tudo isso é que não se podia fazer nada. Não se luta contra o tempo e nem mesmo se consegue vencê-lo.

Katerinne ainda era uma bela mulher e nessa época deveria ter quarenta e dois anos. Estava decepcionada consigo mesma como se ela fosse culpada por todos os acontecimentos e descobertas da noite.

Desejou ir se deitar, embora não o fizesse. Não estava com sono. Acabou pegando uma escova e defronte ao espelho começou a alisar seus cabelos. Executou o mesmo movimento várias vezes até que um som diferente ecoou por todo o quarto.

Parte do espelho havia se quebrado com a forte pancada que ela deu utilizando a escova de pentear. Alguns pedaços caíram no chão revelando o reflexo de uma mulher momentaneamente perturbada. O que sobrou do espelho foi um grande trincado de cima a baixo.

Ela, com o semblante totalmente desfigurado, apanhou um pedaço do espelho que estava no chão e passou vagarosamente pelo pulso, como se estivesse tencionando sua morte.

Brincava… Passava o afiado caco pelo pulso contando em voz alta o número de vezes em que se repetia esse gesto. Depois de um impreciso tempo, direcionou o caco do espelho ao pescoço. Cantarolava e dizia para si que havia perdido literalmente a cabeça.

Algumas horas se passaram e o silêncio tomou conta do quarto de Katerinne. Meia hora depois, a festa também havia se encerrado.

No palco, várias mulheres nuas e seminuas dividiam o pequeno espaço desejando algumas horas de sono.

No balcão de madeira que havia no salão, uma porção de copos sujos presenciavam as situações a que um ser humano pode chegar.

Encostado ao piano, Puttin ressonava abraçado a uma mulher. Ela nua e ele de roupa, com uma garrafa de vodka, sua cartola e a bengala. Creio que seja um dos poucos que não tenha participado da festa de Baco, digo, de Nikolai.

Yellenova, Valeska e Martinna como tinham sido as primeiras a fazerem parte daquele bacanal, haviam ido para seus quartos antes mesmo do término da festa.

Nikolai, bêbado e cansado, tentava ir para o quarto. A escada em formato de caracol parecia ter o dobro do tamanho real. Isso dificultava o seu intento.

Rastejando como uma cobra conseguiu chegar ao quarto de sua amante que já estava dormindo. Viu o seu reflexo em um dos pedaços do espelho que estavam despedaçados pelo chão e chorou.

Não demorou muito para que avistasse o que restou do grande espelho que havia no quarto… Um trincado de cima a baixo que dividia sua face em duas, demonstrando imperfeições que aparentemente não existiam em seu rosto. Pensou que se tratava de um homem com duas caras, ratificando a impressão que tinha ao olhar aquele espelho.

Aproximou-se da cama em lágrimas e se deitou ao lado de Katerinne. Ela acordou assustada ao vê-lo na cama, tentando abraçá-la.

– O que você pensa que está fazendo? – disse Katerinne furiosa.

– Eu não sei! – respondeu confusamente Nikolai.

Acabou enxugando as lágrimas com as mãos. Ele estava transtornado. Não falava muita coisa, na verdade não falava quase nada. Apenas chorava. Convulsivamente…

Katerinne teve pena ao vê-lo naquele estado e o abraçou. Ficaram muito tempo abraçados até que a última lágrima cessou. Não havia mais lágrimas para percorrer o rosto dele.

Estavam calados. Novamente o silêncio imperava absoluto naquele quarto. Não demorou muito para que Nikolai acariciasse a face de sua amante. A princípio, ela tentou se esquivar, mas um forte arrepio que percorreu seu corpo fez com que cedesse aos carinhos e carícias iniciados pelo amado.

Não pronunciaram uma única palavra a respeito daquela noite. Na verdade, creio que a noite estava começando a partir daquele momento. Talvez fosse o marco zero.

Katerinne teve a noite que desejava compartilhar com o seu homem, embora o seu coração estivesse ferido.

Ela sabia que o amor que sentia por Nikolai não era recíproco. Todavia, contentava-se com o forte amor que sentia por ele. Havia ouvido, não se lembrava onde, que para amar não era necessário que os dois amassem. Bastava apenas um para que se consolidasse o amor. Ela o amava e isso bastava.

Aquele coração sofria calado por um amor de momentos, um amor de migalhas. Ela sabia que o seu homem, na verdade, não era seu… Talvez não fosse de ninguém, mas aceitava a situação e iria fazer o impossível para conquistá-lo.

Seu amor era incondicional. Estava disposta a ficar ao lado de Nikolai por toda a sua vida. Jamais pensou em abandoná-lo. Sabia que sempre teria problemas por causa de outras mulheres, mas isso, sem dúvida nenhuma, não seria motivo para que seu sentimento pelo ardente escritor esfriasse.

CAPÍTULO 9 – Publicado em 09/10/2017

Eram dez horas da manhã. A hora do almoço se aproximava e Nikolai ainda não havia retornado. Não costumava dar satisfações de sua vida a ninguém, principalmente a mim. Às vezes me comunicava o seu paradeiro, embora, na maioria das vezes, simplesmente saía sem dizer aonde ia.

Fui a nossa improvisada despensa ver se havia algo para comer e não encontrei nada. Meu pequeno estômago vazio produzia sons horríveis. Definitivamente precisava me alimentar.

Até mesmo os restos de queijo e azeitonas tinham desaparecido. Ficaram somente o cheiro que fizeram meu estômago “reclamar” vorazmente por comida. Lembrei-me de que eu mesmo havia me encarregado da última porção de queijo com azeitonas.

Antes que eu saísse em busca de alimentos, Nikolai havia retornado com uma farta quantidade de comida. Estava adivinhando meus pensamentos. Retirou dos bolsos de seu sobretudo, alguns embrulhos de papel contendo carne, dois ovos cozidos, um pouco de pasta à italiana além de um pequeno vidro contendo vinho.

Comemos moderadamente, embora tenhamos nos fartado. Tive vontade de beber um pouco de vinho, mas egoisticamente fui privado de saborear essa divina bebida. Não me importei, afinal sabia que uma das maiores paixões dele era o vinho.

Conversamos pouco. Coisas sem importância e sem muita utilidade. Ele não quis falar sobre o livro que estava escrevendo, contudo acabou me dado algumas pistas preciosas sobre o que seria.

Como sempre, eu apostava que seria um enorme sucesso, como toda a sua obra. Ele não levava muito em consideração meus comentários, afinal, éramos amigos e segundo ele, amigos não serviam para comentar e analisar livros escritos por outro amigo.

Fui para o meu canto e fiquei observando com que empenho ele se entregava ao trabalho. Não me admirava o porquê de ele ter sido um dos escritores mais lidos do país e ter o seu trabalho reconhecido em outros continentes.

Era um homem fenomenal. Comprometia-se ao extremo com seu trabalho. Quando desenvolvia um novo projeto, preferia não ler nenhum outro autor para não se influenciar. Desejava ser cristalino como as águas sem se deixar confundir por outras idéias, ainda que estas fossem louváveis.

Queria ser autêntico e estava conseguindo executar seu intento com êxito. Falava de questões vistas por um ângulo diferente, sempre explorava a face oposta, o lado ainda não descoberto pelos outros escritores e isso era o seu diferencial. Sua marca registrada.

Era fácil reconhecer um texto escrito por Nikolai. Seu estilo era inconfundível. Muitos escritores, jovens novatos na arte da escrita e até mesmo os velhos, quiseram imitá-lo; em vão, aproximaram-se de algumas questões suscitadas por ele, embora não da maneira contundente e ao mesmo tempo elegante que o fazia.

Acabou tomando o restante de vinho que havia sobrado da refeição enquanto escrevia. Foi uma pequena pausa e o trabalho recomeçou.

Algum tempo depois, como costumava fazer, leu suas anotações em voz alta. Repetiu um mesmo trecho por cinco vezes seguidas e acabou rasgando algumas páginas que havia escrito.

– Droga! Isso tá uma porcaria! – disse Nikolai.

Ficou algum tempo parado. Olhava para o teto… Olhava para suas folhas rasgadas… Podia escutar perfeitamente sua respiração. Não tinha a menor idéia do que ele estava pensando.

Pegou todas as páginas que havia rasgado e começou a recompô-las como um verdadeiro quebra-cabeça. Assim que tudo estava montado, pegou algumas folhas novas e começou a copiar o que estava escrito. Ao terminar de copiar o texto, refletiu por alguns instantes e sorriu.

– É isso! É isso mesmo! Não acredito que iria desperdiçar esta verdade… Só se estivesse louco! – alegrou-se Nikolai por ter conseguido recuperar as idéias originais.

Leu novamente o texto em voz alta, só que desta vez, com uma outra tonalidade na voz. Havia melhorado a pontuação e o texto havia se transformado. Fiquei surpreso ao ver como as mesmas palavras tinham significados diferentes; como as pequenas mudanças ampliavam a forma de se entender uma simples frase.

Nikolai gargalhava e olhava para mim como cúmplice de seu talento. Sabia das suas qualidades como escritor e isso o envaidecia.

Eu não disse uma única palavra. Não queria inflamar ainda mais o ego do escritor, todavia minha admiração por ele aumentava ainda mais. Era um brilhante escritor.

Apesar de sua incontestável obra, Nikolai era incompreendido por muitos. Havia pessoas que deturpavam seu trabalho. Não sei se por inveja, ignorância ou até mesmo por questões políticas; o fato é que a incompreensão vinha de várias direções… Era assustador.

Ele não gostava de falar a respeito disso. Eu evitava tocar no assunto, embora uma série de questionamentos me visitasse à noite, durante meu sagrado sono.

Nikolai continuou repetindo seu texto inúmeras vezes. Tive medo que nossos vizinhos reclamassem, pois ele estava falando um pouco alto. Depois de certo tempo, ele havia decorado o texto e agora declamava alguns trechos como se estivesse perante a mulher amada.

Sorriu para mim e voltou a trabalhar em um ritmo frenético. Tinha algumas manias estranhas que ficavam ainda mais em evidência quando trabalhava. Enquanto escrevia com a mão direita, quase que de minuto a minuto, passava a mão esquerda pelo rosto como se estivesse enxugando a face. Seus pés balançavam constantemente como se marcasse o ritmo. Talvez marcasse o compasso da escrita. Quando parava de escrever, sempre fixava o olhar em uma direção e ficava parado por algum tempo. Depois, retornava a escrever em seu ritmo habitual.

Mesmo em um clima frio como o nosso, vi por várias vezes Nikolai transpirar enquanto trabalhava. Creio que a intensidade no processo criativo era tamanha, que ele acabava expelindo não só suas idéias e seus pensamentos. Acabava se expurgando…

Trabalhou por aproximadamente uma hora. Talvez uma hora e meia, não mais do que isso. Deixou todo o material em cima da simples mesa que compunha a mobília do quarto e caminhou em direção à cama.

Sentou-se e com um olhar bastante interrogador ficou me olhando. Não sei por que, mas senti um calafrio. Tive um pouco de medo, embora soubesse que ele não desejava meu mal.

 – O que você está fazendo aí? – perguntou-me com um leve sorriso nos lábios.

– Eu… Bem! Aqui é o meu lugar. – respondi um pouco confuso.

Ele ficou me olhando por mais uns dez minutos. Eu não lhe disse nada durante esse tempo. Ele também nada havia me falado. Resolvi quebrar o silêncio e perguntei por que ele me olhava tanto.

– Nada! Não é nada. Estou somente te admirando. Gosto da sua forma de ser. Vejo muita honra em seus olhos. Há homens brilhantes que não possuem o brilho que há em seus olhos. – disse-me Nikolai.

Senti-me lisonjeado com suas palavras. Não esperava que ele se dirigisse a mim daquela forma. Suspirei emocionado e logo em seguida tive uma surpresa maior ainda.

– A partir de hoje, você vai dormir na minha cama. – bradou Nikolai como um verdadeiro general.

Eu não me cabia de tanta felicidade. Não via a hora de chegar a noite para poder dormir junto com meu melhor amigo. A atitude que estava tendo comigo era de uma enorme cumplicidade. Sem dúvida alguma era um gesto incontestável de amizade.

Assim que me comunicou a novidade, ele se deitou para poder dormir um pouco. Às vezes agia assim. Não se limitava a horários, embora fosse necessário cumprir certas normas. Acabou adormecendo no período da tarde.

Eu acabei fixando meu olhar em seu abdômen. Ele respirava… E expirava… Respirava… Expirava… Bem lentamente… Respirava… E expirava… Sua respiração era tão monótona e ritmada que acabei entrando numa espécie de transe e muitas coisas sobre Nikolai vieram a tona. Minha cabeça fervilhava de tantas imagens que me visitavam ao mesmo tempo. Foram muitas as recordações do que ele havia me confidenciado…

CAPÍTULO 8 – Publicado em 07/10/2017

Deveriam ser oito horas da manhã e eu me lembrava de outras histórias sobre meu amigo poeta…

Meu amigo Nikolai era um homem surpreendente. Escritor de imaginação fértil, às vezes me confundia. Não conseguia discernir realidade de ficção em algumas de nossas conversas.

Certa vez, contou-me que fizera uma viagem clandestinamente em um navio cargueiro pelo Mar Negro. Não me revelou como havia conseguido passar por todas aquelas fronteiras, por isso não sei ao certo… Bem! Ele…

Nikolai queria escrever um conto cuja narrativa central se passasse em Istambul. Nunca disse por que o interesse por tal localidade. Como possuía pouca informação sobre a cultura e os costumes daquele povo, resolveu se arriscar em uma aventura pelo Mar Negro.

Havia passado os primeiros dois dias na companhia dos ratos dividindo as sobras de comida com os mesmos… No terceiro dia, resolveu se apresentar ao comandante e lhe dizer toda a verdade.

Não pensou duas vezes, agiu impulsivamente. Na primeira oportunidade, foi até ao convés e imediatamente foi capturado pelos marinheiros que o levaram a presença do comandante do navio.

O primeiro desejo do comandante foi de lançá-lo ao mar, porém havia algo no clandestino que chamou a atenção do responsável pelo navio. Uma pequena cicatriz no ombro direito em formato de âncora.

Não era um formato bem definido, todavia, quando se olhava de relance, realmente lembrava uma âncora.

O fato é que o comandante tinha um filho que havia morrido há dois anos. O jovem possuía uma marca semelhante à que Nikolai carregava no ombro.

Karov, este era o nome do filho do comandante, havia morrido nos braços do próprio pai. Contraíra uma doença desconhecida que o levou com apenas dezessete anos de idade.

Antes de morrer, o rapaz havia dito ao pai que um outro filho o substituiria. O pai respondeu que ele era insubstituível e que nenhuma outra pessoa ocuparia seu lugar de filho unigênito.

Outro detalhe importante que convém ressaltar nessa história é que, além do estado de viuvez do comandante, ele já não podia mais procriar, devido à idade avançada. Nada disso era justificativa para Karov. Ele disse que o pai saberia na hora certa quem seria o enviado para acalentar o pobre coração daquele velho lobo do mar.

 A hora havia chegado. A cicatriz no braço de Nikolai era o sinal que o comandante acreditou como sendo a confirmação que seu filho havia profetizado. O velho comandante estremeceu ao ver aquela cicatriz… Quase desmaiou ao se lembrar das palavras do filho.

Aquela pequena imperfeição na pele de Nikolai acabou lhe salvando a vida. Justamente ele que já havia dito toda sorte de impropérios por causa do acidente que havia sofrido.

Em sua infância quando havia saído para pescar, acabou não se sabe como, tendo o anzol agarrado no ombro. Na ânsia de se livrar daquele objeto, acabou rasgando a pele ficando assim uma marca em seu ombro.

– Karov! – disse o comandante com uma teimosa lágrima escorrendo pela face.

Houve um enorme silêncio no convés do navio. Toda a tripulação conhecia a história do comandante, o único que não sabia o que aquele nome significava, era o clandestino.

Mais uma vez o comandante pronunciou o nome do filho, só que dessa vez, caminhando em direção a Nikolai e o abraçando.

Choraram durante alguns minutos. Sim! Choraram… Apesar de não saber o que estava se passando, Nikolai chorou ao ver que aquele velho homem chorava como uma pobre criança de colo.

O comandante o levou para a cabine principal, dando ordens aos marinheiros que preparassem roupa limpa e comida para o rapaz que não comia há dias.

Nikolai aproveitou para tomar um delicioso banho. Com as roupas que havia ganhado do comandante, parecia fazer parte da tripulação. Comeu mais do que realmente desejava, talvez estivesse com medo de sentir fome novamente. Depois que havia se fartado, ouviu toda a história do comandante.

Penalizou-se com a tragédia sofrida pelo velho, embora se sentisse uma farsa. Não queria de forma alguma se aproveitar das crenças de um pai desesperado que perdeu seu único filho fatalmente.

Explicou mais de uma vez ao comandante como havia adquirido a cicatriz, todavia o velho comandante já o havia adotado sentimentalmente como filho. Foi inútil tentar convencê-lo do contrário.

Surgia ali uma grande amizade entre duas pessoas completamente desconhecidas. Pessoas totalmente diferentes que se encontraram por uma mera obra do acaso.

Acho que Nikolai aproveitou toda a situação favorável para identificar no velho comandante a figura paterna. Como já mencionei, nunca ouvi dos lábios de Nikolai uma só palavra a respeito de seus pais. Penso que o período em que passou ao lado do velho lobo do mar tenha sido mais significativo.

À noite, Mazukiewikz (o comandante do navio) e meu amigo escritor; iam para a proa e ficavam horas a fio conversando… Fumavam… E bebiam vodka. Ficavam até a última gota de vodka, depois iam ver as estrelas. O comandante lhe dava aulas de como navegar se orientando pelas estrelas; narrava inúmeras façanhas vividas a bordo dos navios dos quais fizera parte; compartilhava seus sonhos, desejos e principalmente suas frustrações. Nikolai o ouvia e… Conversava sobre os assuntos abordados durante a noite na perspectiva de poder compreender seu interlocutor. Depois o sono aliado ao cansaço os dominavam não os dando nenhuma chance. Iam dormir…

Houve uma noite em que o céu estava encoberto. Não se podia ver uma estrela sequer. Uma forte tempestade que estava se formando acabou não se consolidando, para sorte de toda a tripulação. Nikolai e Mazukiewikz ficaram longas horas esperando poderem ver ao menos uma estrela.

Enquanto esperavam discutiam sobre a criação do universo. Para o velho lobo do mar, tudo era muito simples, obra da natureza. Tudo feito com precisão e às vezes, ao acaso mesmo, mas pela natureza. A natureza se incumbia detalhadamente das mínimas coisas. Os detalhes eram particularidades que só ela – a natureza – seria capaz de conceber, não haveria forma racional conhecida que formasse o universo… Os mares e rios… As imensas florestas… Os cumes gelados… Enfim, a natureza se fazia por si só, ao seu tempo, à sua vontade, do seu jeito… Era um navio à deriva.

O escritor achava que havia algo mais profundo, uma divindade superior capaz de transformar, criar, recriar, dar origem, dar forma… Dar vida… Não gostava de utilizar a palavra Deus e deuses, talvez pela criação sempre imposta por parte dos governantes ou realmente por não acreditar em tal existência. Referia-se a esse ser como um irmão de um universo distante e bem mais evoluído do que o nosso…

O comandante e o escritor ficaram horas discutindo sobre a razão que defendiam. Eram tão convictos em seus respectivos discursos que, em determinados momentos, acabavam convencidos um pela retórica do outro. Mas somente por alguns instantes, depois voltavam a defender suas convicções com todo fervor.

Depois de algum tempo, impreciso tempo, ficaram em silêncio. Não sabiam explicar o motivo que os levara a cerrarem os lábios. Trocaram olhares como se pudessem transmitir seus pensamentos e depois de aproximadamente cinco minutos, voltaram a conversar.

Falavam sobre a vida. Discutiam sobre a morte. O comandante se justificava dizendo que não podia crer em uma divindade superior que havia tirado o único filho. Um filho que morreu em seus braços agonizando por causa de uma maldita doença. Em contrapartida, Nikolai não sabia argumentar o motivo que levara o filho do comandante a se encontrar com a morte.

A morte os apavorava. Não entendiam, não sabiam explicar, não sabiam de onde vinha ou para onde ia, só não queriam ter que olhar para a face negra e maldita da morte.

Às vezes, não sabiam sequer se era maldita. A morte… Maldita ou bendita? Não sabiam ao certo. Confundiam-se a cada palavra que se dispersava pelo ar. Eram simples criaturas tentando decifrar os enigmas mais bem protegidos que o ser humano tentou desvendar em todos os tempos.

Não conseguiam respostas que os satisfizessem. Beberam mais vodka e acabaram adormecendo abraçados, como duas crianças. Dormiram tranquilamente até que o Sol reluziu fortemente em suas faces mostrando toda a imponência de luz e calor.

Sentiram-se meras formiguinhas diante do gigantesco astro. Preferiram não mais falar sobre o assunto da noite passada, embora houvesse uma grande frustração estampada nos rostos de ambos.

Durante todo o dia, o escritor aproveitou para relatar toda a sua viagem junto à tripulação do Kiev. Tomou depoimentos de quase todos os tripulantes e por fim se dava por satisfeito. No fim do dia, encontrou-se com Mazukiewikz que lhe disse:

– Você sabe tantas coisas e não sabe nada ao mesmo tempo…

Nikolai se surpreendeu com as palavras ditas pelo comandante do navio Kiev e esperou que ele completasse a frase:

– Não tem certeza de seu próximo passo. Não sabe sequer se dará um próximo passo… Se terá a oportunidade de seguir adiante…

– Todavia tenho que continuar… – disse Nikolai olhando dentro dos olhos do comandante.

– Continuar para quê? À procura do quê? O que tanto desejas?

– Ainda não sei… Sei que não posso parar. Tenho que ir adiante. Tenho que continuar.

Após ter dito essas palavras, ele foi para a cabine e ficou meditando sobre as coisas que haviam acontecido nos últimos dias.

Percebeu que não precisava ir a Istambul para escrever seu conto, tinha material suficiente para narrar tudo o que havia passado juntamente com a tripulação do Kiev e principalmente suas conversas com o comandante Mazukiewikz.

Preferiu não seguir viagem e acabou retornando para casa. O comandante, a princípio, não se conformou com a decisão de Nikolai. No entanto, compreendeu que o lugar do escritor não era a bordo do Kiev. Ele tinha que continuar sua busca, já que o comandante já havia abdicado de procurar por respostas. Dava-se por satisfeito ao reencontrar o filho Nikolai.

Dessa pequena aventura surgiu o livro NAVEGANDO PELA MORTE EM BUSCA DO CAMINHO DA RAZÃO. Não sei por que Nikolai sempre gostou de títulos grandes, entretanto, bem instigantes. Creio que grande parte de sua obra é voltada para a essência do SER.

Apesar de não saber ao certo se essa viagem a bordo do navio Kiev foi verídica, o livro narra uma discussão filosófica entre dois marinheiros que, durante a viagem pelo Mar Negro, presenciam a morte do filho do comandante do navio e a partir desse fato, questionam-se sobre os entrelaçamentos dos caminhos da morte e da vida no universo em que pensamos viver.

Nikolai é realmente surpreendente… Ou seria um louco? Surpreendente… Louco… Simplesmente Nikolai.

CAPÍTULO 7 – Publicado em 06/10/2017

Anna aguardava ansiosamente uma oportunidade para reencontrar seu amante. No mesmo dia em que seu marido viajou para vender sapatos, ela procurou por Nikolai. Mandou um bilhete por um portador de confiança marcando um encontro à noite na hospedaria.

O escritor respondeu prontamente dizendo que iria e que faria o possível para não se atrasar. Precisava concluir alguns trabalhos que não poderiam ficar para depois.

Assim que anoiteceu, Anna preparou uma poção sonífera para o filho que, em pouco tempo acabou adormecendo. Pegou uma capa e ganhou a rua. Percorreu várias vielas antes de chegar à hospedaria. Tinha um enorme cuidado para que ninguém, além das pessoas que eram cúmplices daquele relacionamento extraconjugal, soubesse de sua aventura.

Chegando ao quarto, jogou algumas pétalas de rosas sobre a cama e se despiu por inteiro. Deitada na cama, passava as pétalas pelo corpo tendo seu cheiro misturado ao cheiro das rosas. Era uma bruxa… Uma encantadora bruxa capaz de levar qualquer homem a cometer o mais louco dos crimes por apenas uma noite de amor.

Tocava-se em algumas partes do corpo… Isso lhe dava um enorme prazer. Pensava em seu amante e o prazer aumentava ainda mais. Desejava estar nos braços dele… Desejava seus beijos, seus toques, suas doces palavras ditas bem pertinho do ouvido… Desejava ser amada novamente com a mesma intensidade da última vez em que se encontraram.

A única coisa que fazia sentido para Anna era o grande amor que nutria pelo escritor. Venderia sua alma ao diabo, se preciso fosse, para ficar ao lado daquele que havia elegido como seu escolhido.

Creio que Nikolai não havia planejado uma noite de amor da mesma forma que Anna. Ele pensava em conversar sobre o pequenino Dimitry. Queria saber onde estava o amor de mãe para com seu único filho. Queria ver mudanças da parte dela para que o garoto pudesse ter uma vida um pouco melhor. Penso até que desejava conversar a respeito de Vladimir, o pobre marido traído que carregava consigo um misto de bondade e bestialidade.

Bem! Quanto a isso fica difícil de saber. O fato de ser amante lhe dava grande prazer. O “fruto proibido” o deixava maravilhado diante da perspectiva de ser o homem ideal para toda e qualquer mulher.

Claro que Nikolai era vaidoso e com certeza um homem bastante interessante. Entretanto, todos os ditos criados em torno dele eram um reflexo direto de seus trabalhos lidos por grande parte da população, principalmente as mulheres que adoravam ler seus romances.

Enquanto caminhava em direção à hospedaria, lembrou-se do dia em que socorreu o pequenino e acabou chorando. Chorou amargamente como se aquele garoto fosse seu filho. Não aceitava a condição imposta pela vida ao pequenino Dimitry. Tinha que fazer alguma coisa, precisava de uma solução para o problema. No entanto, lembrou-se de que não são todos os problemas que têm solução.

Ao menos iria conversar com Anna para exigir que seu papel de mãe fosse executado como deveria ser. Pelo menos alguma coisa ele poderia fazer pelo pequenino.

Chegando ao quarto da hospedaria, ele se esqueceu de todos os nobres motivos que havia pensado há pouco. Recuperou o fôlego que havia perdido por um breve momento e se pôs a contemplar aquela mulher nua em cima da cama… Seus olhos pousaram na nudez da linda mulher…

O cheiro de rosas lhe invadiu as narinas deixando-o estonteado com a deliciosa fragrância que se misturava ao frescor da pele suave e macia de Anna…

Ouviu-a chamar pelo seu nome docemente, parecia ter mel nos lábios…

Aproximou-se vagarosamente da cama sentando-se ao seu lado. Delicadamente, seus dedos percorreram toda a extensão do corpo dela. Mãos que acariciavam pernas… O abdômen bem desenhado… Mãos que tocavam os seios com extremo cuidado, como se fossem duas jóias raras…

Os lábios dos amantes desejavam-se fortemente como se a vida dependesse de um beijo para existir… O néctar dos deuses havia sido compartilhado.

Estava tudo pronto. Os cinco sentidos aguçados eram uma pequena prévia de tudo o que iria acontecer durante a noite.

Anna desejava ser amada com toda a virilidade que o amante pudesse lhe proporcionar. Queria sentir novamente todos os prazeres do último encontro. Nikolai também compartilhava o mesmo desejo.

A fricção causada pelos corpos incendiava a cama. Desejavam-se com tanto fervor que pareciam estar brigando… Mordidas e arranhões complementavam aquela luta, tamanha era a intensidade amorosa.

Ela gritava como uma loba selvagem em pleno cio que conclama seu macho a copular…

A mistura dos corpos exalava um cheiro libidinoso que, misturado ao suor, excitava-os ainda mais. Eram dois animais que se devoravam e continuariam a se devorar até que alcançassem o clímax do prazer.

Não demorou muito para que esse estágio fosse atingido. Era recíproco o desejo de ambos e como não se viam há dias, atingiram o clímax em um tempo menor. Não que isso fosse importante, já que a sensação que tiveram, desta vez, foi certamente melhor.

 Ficaram aproximadamente uma hora deitados bem juntinhos sem pronunciar uma palavra sequer… Sentiam-se leves… Seus corpos não pesavam mais de um quilo… Aproveitaram aquele momento silencioso trocando carícias…

Nikolai desejou acender um cigarro, entretanto não o fez. O clima harmonioso daquele quarto era tão perfeito que qualquer movimento mais brusco poderia quebrar todo aquele encanto. Preferiu não arriscar.

Todo o universo cabia naquele pequeno quarto de hospedaria. Ao menos, as coisas boas do universo. O resto do mundo era somente resto, pelo menos era essa a impressão obtida pelo casal de amantes. Definitivamente não queriam sair para se confrontarem com um mundo real.

Como não tinham nenhuma pressa, estavam dispostos a se amarem novamente… O escritor beijava suavemente os delicados pés de Anna que se contorciam em alguns momentos ao sentir as cócegas provocadas por aquela doce língua. Durante algum tempo se deliciaram com essa brincadeira.

Ele delicadamente a tocou na vulva, com a ponta dos dedos, enquanto seus lábios procuravam os lábios de Anna.

Nikolai cobria cada centímetro do belo corpo de Anna com beijos ardentes… Beijos que provocavam arrepios não somente nos poucos pêlos que ela possuía nos braços, como também na alma.

Amaram-se durante horas… Agora pareciam dois jovens que estão descobrindo a arte de amar, diferentemente dos “animais” de algumas horas atrás que se “atracaram” desejosos, como se a morte os esperasse em seguida e fossem privados dessa prática para todo o sempre.

O ritmo suave com que seus corpos bailavam sobre a cama era a verdadeira expressão da paixão. Deliciavam-se com o embalo… Seus sorrisos iluminavam o simples quarto como o Sol em uma manhã de primavera.

Não se soltavam para nada… Também, isso era algo que não desejavam fazer.  Eram os dois um único indivíduo… Eram os dois um só espírito… Amantes loucos! Loucos amantes que se entregavam sem reservas.

Mais uma vez a harmonia entre eles era perfeita. Conheciam-se… A cama, literalmente, era a solução para todos os problemas que tinham. Entendiam-se perfeitamente… Na cama!

Não poderiam se esconder pelo resto de suas vidas dentro daquele cubículo. A vida não se resumia simplesmente em sexo. Existiam outras coisas que iam além da imaginação do casal quando estavam trancafiados no pequeno quarto da hospedaria.

Não se disseram uma só palavra naquela noite. Depois que não tinham mais forças para continuarem, acabaram adormecendo. Abraçados, pareciam recém-casados em suas núpcias.

Assim que amanheceu, Anna se vestiu rapidamente, beijando a face de seu amante, sem que ele acordasse. Pôs-se a caminho de casa cantarolando como uma menininha que acabara de ganhar o presente almejado por toda a vida.

Sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Estonteada com a noite maravilhosa que teve, ainda não tinha caído em si. Esqueceu-se por alguns minutos de que tinha uma vida própria… Uma vida longe do quartinho da hospedaria… Uma vida bem diferente.

CAPÍTULO 6 – Publicado em 04/10/2017

O dia já estava amanhecendo. Deveriam ser seis horas. Os primeiros raios do Sol já me acariciavam. Havia passado a noite em claro no corredor, próximo ao quarto de Nikolai. Decidi ir até lá e verificar como estava meu amigo.

Chegando ao quarto, pude vê-lo trabalhando intensamente em seu livro. Ainda não havia notado minha chegada ao recinto. Depois de alguns minutos observando com que afinco ele escrevia, acabei sendo notado.

– Você está aí? – disse-me sorridente como se nada houvesse acontecido na noite anterior.

Somente acenei com a cabeça. Não tinha a mínima intenção de incomodá-lo, mesmo porque minha única vontade era ir para o meu canto dormir um pouco.

Enquanto me preparava para dormir, pude ouvi-lo falar consigo mesmo. Anotava durante longo tempo, depois discutia e repetia em voz alta tudo aquilo que estava sendo registrado.

– Eu tenho razão! Sempre tive razão! Bem! Pelo menos na maioria das vezes, sempre estive coberto de razão. – exprimiu-se o escritor.

Não demorou muito para que ele produzisse uma outra frase memorável:

– No fundo, todos acham que merecem o melhor do que verdadeiramente possuem… Ninguém se satisfaz com o que tem.

Pareciam frases soltas, sem nexo, não conseguia captar o que ele estava querendo dizer com todas aquelas palavras. Por fim, acabei perdendo o sono e tentei durante algumas horas parafrasear o que estava sendo dito pelo escritor.

O escritor tentava chegar ao âmago da questão. E a questão para ele era o ser humano. A razão de ser, de estar, de pensar era a chave principal para toda a sua busca. Ele queria respostas. Às vezes penso que Nikolai não tinha a mínima ideia de onde viriam todas as respostas que formulava no seu dia-a-dia.

Aquelas frases me levaram a refletir sobre fatos que passavam despercebidos na minha vida… Razão? Merecer o melhor do que verdadeiramente tem? Não estar satisfeito com o que possui?

Todos os questionamentos abordados por ele são bem próprios do ser humano. Talvez a autossuficiência, a empáfia, a ganância… Os sete pecados capitais: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, orgulho e preguiça; talvez possam ajudar a elucidar os questionamentos propostos por Nikolai. Ou não?

A essa altura dos acontecimentos, pude concluir pouca coisa do que havia sido dito. Passei a observar detalhadamente todos os movimentos de meu amigo.

Nikolai estava no banheiro com a porta totalmente aberta. Sentado na privada, defecava tranquilamente, enquanto relia suas anotações e assobiava como se fosse um passarinho.

Como a descarga estava com defeito, ele pegou seus excrementos e os jogou na pia. Deixou a água correr por entre os dedos, socando logo em seguida com a ponta dos dedos, o último pedaço que se desfez pelo ralo abaixo.

Após todo esse ritual, lavou bem as mãos e as cheirou. Sorriu como uma criança que acabasse de cometer uma travessura. Parecia estar purificado. Segundo ele, essa era a principal função da água.

Olhou-me com um olhar fulminante… E, antes que eu dissesse algo, falou-me que um dos males da humanidade é não assumir a condição de excremento perante o seu próximo… Deu as costas para mim, abriu a porta e saiu pelo corredor.

Fiquei ainda mais confuso. Talvez ele quisesse dizer que não adiantava todo o poder que os homens buscavam a todo o custo, não se importando com nada, não se importando com ninguém para obter prestígio… Quem sabe quisesse dizer que as guerras, as bombas, o domínio de uma nação sobre a outra fosse tudo uma grande porcaria! Talvez estivesse se referindo à má distribuição de renda que existe em vários países do mundo e chegasse à conclusão de como é duro viver em um mundo tão injusto… Talvez estivesse pensando nos políticos corruptos – a grande maioria – que são verdadeiros lixos…

Talvez… Quem sabe? Talvez… O jeito como Nikolai colocava as coisas poderia ter uma infinidade de significados. Porém, assim como eu não conseguia decifrar suas incógnitas, ele também não conseguia decifrar todos os seus caminhos… Não decifrava os caminhos do ser humano.

Enquanto aguardava sua volta, lembrei-me de fatos relacionados à sua vida pessoal que talvez me auxiliassem a compreender sua busca…

CAPÍTULO 5 – Publicado em 03/10/2017

Nikolai havia ganhado o mundo ainda na adolescência. Não me lembro de ele ter me falado sobre seus pais. Em uma de nossas primeiras conversas, disse-me que havia sido criado na Rua das Prostitutas.

Tinha pouco mais de dezesseis anos quando conheceu a bela Katerinne. Ela era dona do prostíbulo mais requisitado da região e teve pena do jovem que foi bater à porta de seu estabelecimento em busca de comida.

Ele havia conhecido a fome. A miséria havia assolado a região em que vivia. Nem mesmo baratas havia naquele lugar, pois não havia sobras para que elas sobrevivessem.

Seu corpo era o reflexo real da miserabilidade de um ser humano. Fraco e debilitado, foi-se recuperando aos poucos, até que um dia Katerinne disse que ele já estava bom e que poderia ir embora. Já estava pronto para seguir sua própria vida.

Ele chorou e implorou para ficar. Não tinha para onde ir. Mesmo assim, a dona do prostíbulo insistiu para que ele fosse embora, pois não havia nada que ele pudesse fazer para pagar as próprias despesas. Nem mesmo fazer a segurança das moças – que às vezes eram agarradas à força e espancadas por alguns bêbados – ele servia. No entanto, havia algo que Nikolai fazia que era privilégio de poucos.

Nikolai sabia ler e escrever e fazia isso muito bem. Nunca revelou quem lhe havia ensinado, embora isso não tivesse tanta importância. Acabou fazendo um contrato verbal com a dona do prostíbulo, pois ela precisava de alguém para ajudá-la a administrar seu lucrativo negócio.

Além de ajudar a administrar a casa de Katerinne, ele passou a fazer uma série de obséquios para as moças que trabalhavam naquele estabelecimento. Lia o jornal informando-as sobre tudo o que se passava; escrevia cartas para os familiares de algumas delas, omitindo os verdadeiros fatos quando lhe pediam; narrava as mais belas e trágicas histórias de amor contadas naquele tempo, causando um delírio generalizado às doces “donzelas”.

Com o passar do tempo, o jovem garoto começou a contar suas próprias histórias agradando a todos. Sentiu um enorme desejo de registrar as histórias que contava para que outros pudessem ter acesso aos seus pensamentos. Pela primeira vez, foi chamado de escritor.

Nessa época, não tinha maiores pretensões. Também, nem poderia. Precisava ser lapidado. Teria que estudar muito e somente com o passar do tempo poderia fazer jus ao título dado pelas jovens da casa de Katerinne.

Lembro-me de palavra por palavra do seu primeiro texto que só obteve resultado positivo no prostíbulo, nem mesmo o Jornal Revolucionário, que tinha um pequeno espaço destinado a textos românticos e poéticos, quis publicar. O texto dizia o seguinte:

Sonho Meu

Na noite passada, profundo silêncio, a solidão imperava na mais penetrante escuridão, num passe de mágica já não estava mais só…

Podia embriagar-me com seu aroma delicioso e divino; seus cabelos esvoaçantes deixavam o seu semblante com certo ar de mistério, seu rosto queimava em febre, simplesmente desejo.  Desejo que fazia suas delicadas mãos transpirarem e eu ardesse em paixão.

De repente, senti que minhas mãos tocavam levemente o seu corpo como se elas quisessem dizer algo.  Não, elas não queriam dizer nada, somente contornar as formas que foram divinamente esculpidas pela natureza.  Minha boca teimava em fazer o mesmo percurso das minhas mãos, meus lábios quentes contornavam todo o seu corpo como tinta suave de um artista retocando sua obra de arte.

A temperatura do seu corpo alternava, queimava em desejo, ardia em curiosidade, como também esfriava em preocupação…

O fogo que ardia com infinita intensidade queimou todos os obstáculos que perduravam em insistir e quando olhamos olhos nos olhos, começamos a nos descobrir.

Nossos corpos se misturavam, podia sentir bem de perto seu perfumado hálito que se confundia com flores do campo. O brilho dos seus olhos iluminava toda aquela noite escura.  Os sorrisos de felicidade eram como músicas aos meus ouvidos e a verdadeira razão de existirmos fazia-se presente naquele momento: o amor.

Aquele momento parecia infindável.  Eu continuava a amá-la.  Seu corpo tinha as marcas de meus lábios.  As leves marcas de minhas unhas; não queria parar…  Minha língua contornava a ponta de seus seios numa interminável demonstração de carinho…  Ela, sorria e dizia: “eu te amo”!

Gotas de vinho eram derramadas pelo seu corpo, e eu, deliciava-me, já não era mais o seu corpo uma obra de arte, e sim, uma admirável taça de cristal a qual eu, com enorme zelo, cuidava para que estivesse sempre cheia.

A curiosidade se renovava a cada gesto, a cada palavra, a cada nova descoberta que se ia aproximando…  Não, realmente não queríamos parar.  Parar?  Somente o tempo, este sim, queríamos parar e imortalizar aquelas cenas.

Penso em cada momento, em cada palavra, em cada segundo vivido…

De repente, aquela escuridão começou a se dissipar, as nuvens negras que cobriam o céu dão lugar à luz do Sol que entram pelas frestas do quarto, denunciando mais um dia como outro qualquer.

Fim.

Apesar de jovem e iniciando sua carreira como escritor, Nikolai tinha ciência de suas limitações e acreditava profundamente em seu potencial. Sabia que se tornaria um grande escritor. Tinha convicção de que um dia, todo o seu país ouviria falar em Nikolai S. Andreiev. Tudo aconteceria no seu devido tempo.

Como disse anteriormente, nenhum jornal da época quis publicar seu texto, todavia houve uma grande agitação nas dependências do recinto onde morava.

Uma das meninas de Katerinne, chamada Yelenna, que já estava há tempo olhando de forma especial para o rapaz, ficou ainda mais encantada ao ouvi-lo dizer todo o texto representativamente e… E acabou se declarando.

Yelenna foi quem iniciou Nikolai na arte do amor. Ele aprendia tudo muito rápido e, em pouquíssimo tempo, a jovem estava completamente apaixonada. Havia se tornada aluna de seu discípulo.

Katerinne não gostou do envolvimento dos dois. Aquele relacionamento, segundo ela, estava atrapalhando o bom andamento dos negócios. Yelenna já não era a mesma, não queria agradar aos fregueses. Não queria que nenhum outro homem a tocasse. Só desejava ser de Nikolai.

Ele também não queria dividir a jovem com mais ninguém… Já não era mais o mesmo. Algumas tarefas incumbidas a ele não eram executadas da mesma forma, sem contar que a atenção dada às outras mulheres já não existia.

Um sentimento inusitado passou a fazer parte do dia-a-dia de todos aqueles que viviam sob as ordens de Katerinne. O ciúme…

A própria Katerinne experimentava esse sentimento sem entender muito bem quais eram seus interesses diante daquela história. Seriam interesses puramente comerciais?

Algumas semanas se passaram e Yelenna recebeu ordens para ir visitar sua velha mãe que estava morrendo. Assustada com a notícia, pediu a Katerinne um pouco de dinheiro para poder fazer a viagem. A quantia dada foi superior ao que ela necessariamente precisaria…

Uma semana depois, o jovem Nikolai parecia ter esquecido todas as juras de amor que havia trocado com Yelenna. Deitava-se na melhor cama e no melhor quarto da casa… Havia se tornado o amante oficial de Katerinne.

Jamais teve notícia de Yelenna. Tudo lhe pareceu uma grande armação de sua nova amante. Não se importou… Nem mesmo lhe passou pela cabeça a possibilidade de ir atrás da jovem. Estava levando uma vida que jamais havia sonhando. Tudo estava perfeito demais, não queria mudar os rumos traçados pelo destino.

Com o passar dos anos, deixou os interesses do prostíbulo de lado e passou a cuidar de seus interesses próprios. Dedicava-se com afinco à literatura. Lia grandes obras e começou a apurar seu gosto. Tolstoi, Gogol, Gorki, Liérmontov, Tchekhov, Zóchtchenko, o grande Dostoiewsky e outros passaram a ser leituras obrigatórias para ele.

Nikolai agora tinha espaço para publicar seus trabalhos no Jornal Revolucionário. Sua técnica e seu estilo inconfundível já agradavam à grande maioria dos leitores.

Apesar de toda essa dedicação, o jovem escritor, em momento algum, havia abandonado Katerinne, ao contrário, estavam cada vez mais juntos. Não sei ao certo se havia um sentimento forte e conciso neste relacionamento, o que sei é que a primeira publicação de seu livro UMA FORCA PARA O HOMEM DE SANGUE AZUL foi totalmente pago por ela.

Ele nunca foi muito claro em relação aos sentimentos por Katerinne. Todavia, ela o amava sinceramente. O que ficou bastante claro nesse relacionamento foi que, no início de sua carreira, o escritor Nikolai S. Andreiev foi totalmente amparado por sua amante. Sem ela, com certeza seria impossível o acesso do público às suas obras.

CAPÍTULO 4 – Publicado em 02/10/2017

Eram três horas e vinte cinco minutos da madrugada. Respirei aliviado quando vi meu amigo Nikolai retornando ao quarto. Caminhava lentamente, com muita dificuldade. Uma das mãos apoiando a cabeça e a outra na cintura. Sentou-se na cama e preferiu não conversar. Os cabelos molhados como se alguém o tivesse atirado em um poço d’água, grudavam no rosto. A boca, entreaberta, salivava com pequenos movimentos executado pelos lábios. Seu olhar percorria todas as direções… Senti que inconscientemente me ignorava, não sei explicar por quê.

O silêncio era absoluto no quarto. Não desejava comer nada, talvez por saber que nada houvesse para comer. Teve vontade de se deitar para poder recuperar suas forças, mas não foi possível, seus músculos estavam rígidos como uma rocha. Manteve-se sentado e chorou.

Havia algum tempo que Nikolai não chorava, pelo menos na minha presença. Confesso que aquela cena mexeu muitíssimo comigo. Como era difícil compreender os sentimentos, as emoções, os desejos, as ansiedades, as culpas, a própria existência! Era tudo complicado, eu estava perplexo…

Em determinados momentos, tive a nítida impressão de que gritava, embora som algum saísse de sua boca. Talvez seu grito fosse de fora para dentro. Nikolai estava sofrendo… Não sabia ao certo se lhe doía o corpo, talvez estivesse ferido. A única coisa que eu sabia, não me pergunte como, mas sabia, é que sua alma se dilacerava…

Aproximei-me de sua cama e o toquei. Ele me olhou, esboçou um sorriso e pude compreender perfeitamente que estava querendo ficar sozinho.

Eu não podia fazer mais nada. Conhecia-o suficientemente bem para saber que tudo tinha seu tempo e aquele não era o tempo de conversarmos a respeito do que havia ocorrido.

Levantou-se cautelosamente da cama e caminhou com certa dificuldade até a porta. Antes que saísse de sua presença, disse-me que eu era seu maior amigo…

Lembro-me do ranger da porta que se fechou às minhas costas e jamais me esquecerei dos sons produzidos por alguns objetos quebrados por Nikolai.

Enquanto eu caminhava pelo corredor, lembrava-me de suas palavras e me envaidecia: “você é meu maior amigo”. Sabia que o momento era delicado, porém não poderia deixar de pensar naquelas singelas e sinceras palavras.

Antes mesmo de cruzar o corredor, tive que encarar os vizinhos… Olhavam-me assustados, com olhos interrogadores pelas portas semiabertas, como se eu fosse a resposta para todos os questionamentos e atitudes desencadeadas pelo escritor Nikolai.

Não pude ir muito longe, afinal, morava com Nikolai. Teria que voltar ao quarto mais cedo, ou mais tarde… Aproveitei o tempo ocioso que tinha para procurar respostas. Algumas conversas com o escritor começaram a borbulhar em minha mente…

CAPÍTULO 3 – Publicado em 30/09/2017

Dimitry havia ido ao açougue comprar um pouco de carne para o almoço. Durante seu trajeto, viu de longe alguns garotos brincando. Eles estavam ofegantes, porém contentes com a brincadeira.

Sentiu um enorme desejo de participar daquela brincadeira com os demais. Com suas pequenas pernas apressou o passo em direção ao grupo com o intuito de ser mais um garoto. Ele estava enganado. Ele não era mais um garoto, ele era o garoto…

Houve um enorme silêncio quando Dimitry ficou frente a frente com os demais meninos. Eles ficaram paralisados. Um deles acabou fugindo, teve medo… Os outros esperavam algo da parte da “aberração”.

– Posso brincar com vocês? – perguntou Dimitry com um inocente sorriso.

Não houve resposta de imediato. Eles o olhavam de cima a baixo como se para constatar que o garoto que estava à frente deles era real. A realidade nua e crua de um menino com problemas congênitos era terrivelmente assustadora. Creio que todos nunca haviam visto Dimitry, embora já houvessem escutado uma série de coisas a seu respeito.

Não demorou muito para que o silêncio fosse quebrado, pois um dos garotos disse aos berros que ele voltasse para o inferno, lugar de onde ele nunca deveria ter saído.

Os demais, empolgados com a agitação do colega, engrossaram o coro, ameaçando-o de surrá-lo até a morte.

 Assustado com toda aquela confusão, Dimitry correu por dois quarteirões, sendo perseguido por todos aqueles garotos que lhe socavam as costas, com toda força que tinham.

A poucos metros do açougue, o jovem perseguido, levou um soco na cabeça e caiu no chão, batendo fortemente a fronte no solo. Os agressores, assustados com o sangue que jorrou imediatamente, fugiram sem nenhum remorso.

Pela primeira vez Dimitry chorou…

Ele só estava querendo brincar… Não havia feito nada demais contra os outros. A única coisa que desejava, era tão somente participar da brincadeira.

Suas lágrimas lhe denunciavam o quanto era difícil ser diferente numa sociedade “perfeita” e… “Normal”…

Seus conceitos de perfeição e normalidade pareciam se perder… Justo ele, que sempre encarava a vida de cabeça erguida… Justo ele que estava sempre com um sorriso nos lábios… Nunca se tinha incomodado com sua aparência. Não, até aquele exato momento.

Levantou-se… Limpou a face com sua camisa e caminhou em direção ao açougue para cumprir a tarefa imposta a ele.

Antes mesmo de chegar a tocar na maçaneta da porta do açougue, viu o responsável pelo estabelecimento colocando um aviso de que estavam fechados. Fez sinal para o açougueiro mostrando que tinha dinheiro para poder comprar, mas foi inútil. Ele não abriu a porta.

Toda aquela confusão de minutos atrás havia sido presenciada pelo açougueiro, que se omitiu diante do fato ocorrido a Dimitry. Para falar a verdade, penso que ele aprovou a agressão realizada pelos outros garotos.

Estava claro que a presença de um garoto com todos aqueles problemas em seu estabelecimento poderia prejudicá-lo. Tinha medo de atrair má sorte e de perder seus fregueses…

Já estava ficando tarde e Dimitry tinha que voltar ao lar. Estava com medo… Somente sua mãe estava em casa e esse era o maior problema. Sabia que o pai o defenderia de qualquer coisa, mesmo se ele estivesse errado, todavia, a situação era bastante desfavorável, sua mãe era completamente diferente.

Caminhava lentamente como se não quisesse chegar ao seu destino. Em uma das vielas por onde passava, com intuito de cortar volta dos garotos agressores, viu Nikolai, que se assustou ao vê-lo ensangüentado.

O escritor mal conversou com o menino para saber o que de fato havia ocorrido. Pegou-o no colo e o levou à casa mais próxima de onde estavam. O prostíbulo de Katerinne. Nikolai não pensou duas vezes. Precisava cuidar do menino.

Dimitry estava encantado com aquele universo. Jamais tinha visto tantas cores vivas em uma mesma sala. Na verdade, era um salão. Um enorme balcão de madeira com uma adega ao fundo davam um charme bastante rústico ao ambiente. Cortinas vermelhas, entreabertas, deixavam-se revelar um pequeno palco. Um lindo piano deixava claro que as noites naquele lugar eram bastante animadas. Uma escada em caracol levava ao andar de cima onde havia vários quartos… Por alguns minutos ele se esqueceu de quem era e do que havia acontecido.

As mulheres o rodeavam e falavam todas ao mesmo tempo. A princípio, bastante curiosas… Depois, demonstraram-se solícitas e cuidaram dos ferimentos do garoto. Ele começava a se esquecer da surra que havia tomado e já conversava com algumas das prostitutas com bastante desenvoltura, parecia íntimo de todas.

Nikolai aproveitou a ocasião e levou o garoto a um dos quartos para poder conversar mais à vontade com ele. Conversaram longamente de forma que não foram incomodados por ninguém.

Era encantador ouvir maravilhas da boca de uma criança considerada o horror em forma humana. Nikolai registrava palavra por palavra, em sua mente, como se tudo aquilo fosse fazer parte de um livro. Falaram da surra que Dimitry havia acabado de levar dos garotos…

Dimitry agora estava diferente. Semblante fechado, relembrou que somente desejava brincar com os demais e o desfecho da história foi aquela tragédia. Nikolai o consolou.

Curioso é que, no cerne da questão, Nikolai sentiu-se feliz com a infelicidade de Dimitry, embora tenha disfarçado muito bem.

Não!!! Nikolai não era um homem ruim, ao contrário. Somente defendia a tese de que Dimitry não poderia ser feliz. Para ele, essa hipótese era impossível. Ainda que Dimitry encontrasse a felicidade na vasta escuridão do labirinto, jamais sairia de lá.

O garoto se viu no reflexo de um grande espelho que havia no quarto e se sentiu mal com as suas anomalias. Entretanto, não poderia ficar a vida toda ali, lamentando-se. Tinha que ir embora e já estava quase anoitecendo. Lembrou-se de sua mãe e teve medo.

Nikolai o encorajou dizendo que não haveria problemas, bastaria ele mencionar os fatos à sua mãe de forma simples e direta. E que ele havia sido cuidado pelo próprio Nikolai, mas, em hipótese alguma, ele deveria falar que estivera no prostíbulo de Katerinne. Para todos os efeitos, ele havia recebido ajuda na casa do escritor.

Mal chegou em casa, Dimitry foi recebido com um tapa no rosto. Sua mãe o estava esperando atrás da porta morrendo de ódio porque havia almoçado um caldo com legumes sem a carne tão esperada por ela.

– Desgraçado! Filho do demo! Por sua causa tive que comer esta porcaria de caldo. Por que demorou? E não trouxe a carne? – gritava Anna com seu filho.

Dimitry, apavorado, tentava fugir de sua louca mãe que tinha o ódio estampado na face. Anna estava disposta a estrangular o próprio filho e só não o fez, por que o garoto em meio à surra que estava levando, pronunciou o nome de Nikolai.

Ensandecida, soltou o pequenino que fugiu para o quarto dele e se enfiou debaixo da cama, enquanto ela quebrava as louças que estavam na mesa desde a hora do almoço. Anna chorava, não creio que de arrependimento, talvez pensasse na possibilidade de perder o amante. Talvez… Bem, o certo é que chorava.

Na manhã seguinte, Vladimir chegou à sua casa. Estava contente por ter vendido uma boa quantidade de sapatos. O dinheiro para o mês já estava garantido. Poderia ficar mais tranqüilo e não precisaria viajar por aproximadamente dez dias.

Ainda não tinha encontrado com o filho e se assustou com os ferimentos de seu pequenino. Dimitry contou sobre o que os garotos haviam lhe feito, entretanto, omitiu a tentativa de estrangulamento de sua própria mãe. Anna preferiu se calar, enquanto o pai estava possesso.

Vladimir quis tirar satisfação com todos os envolvidos no caso, contudo o pequeno Dimitry com muita conversa o convenceu do contrário. Anna suspirava aliviada; segundo ela, já bastavam os escândalos. A única coisa de que Vladimir não abriu mão foi de ir agradecer pessoalmente, os préstimos do escritor Nikolai, por quem ele nutria certa admiração.

– Não creio que seja necessário. – disse insistentemente Anna.

Vladimir ignorou por completo os argumentos de sua esposa e foi procurar aquele que ajudou seu filho e cuidou de todos os ferimentos do garoto como um verdadeiro pai. Estava contente por saber que havia uma outra pessoa no mundo que se importava de verdade com seu filho.

Batendo à porta do escritor, ouviu alguns rumores dentro da casa. Depois de alguns segundos, alguém perguntou:

– Quem é?

– Vladimir Svalonilov… Vendedor de sapatos, pai do pequenino Dimitry.

– Não precisamos de sapatos, vá embora! – disse novamente a pessoa.

– Não, não é nada disso! Eu não estou vendendo sapatos. Quero dizer, não neste momento, eu só…

– Então o que você quer?

– Eu só queria agradecer por ajudar meu filho.

A porta se abriu e Nikolai apareceu enrolado em alguns lençóis. Com a porta entreaberta, Vladimir viu de relance a silhueta de uma mulher que tentava se esconder atrás das cortinas.

– Desculpe-me pelo incômodo. Eu só vim para agradecer-lhe. Muito obrigado por socorrer meu filho.

– Ah, o garoto pequenino! Não por isso… – disse Nikolai com um sorriso nos lábios.

– Tenho uma dívida de gratidão com o senhor, espero um dia poder pagá-la. Mais uma vez, muito obrigado.

Vladimir, percebendo que o escritor estava acompanhado, não se demorou. Apertou fortemente a mão de Nikolai, que o olhou surpreso, e mais uma vez afirmou ter uma dívida de gratidão.

O escritor não estava esperando aquela visita repentina e isso o deixou pensativo durante todo o dia. Sentia-se confuso, não sabia o que o atormentava. Via naquele homem um misto de bondade e bestialidade incompreensíveis…

Vladimir era de poucas palavras, bastante discreto, não falava da vida alheia. Quando retornou ao seu lar, disse que havia falado rapidamente com Nikolai, entretanto não mencionou que o escritor estava acompanhado.

Anna quis mais detalhes, embora seu marido já houvesse narrado o fato duas vezes. Por fim, acabaram indo fazer uma refeição. Comeram um delicioso guisado. Anna, Vladimir e o pequeno Dimitry.

CAPÍTULO 2 – Publicado em 29/09/2017

Deveria ser uma hora da madrugada quando notei uma pequena movimentação pelo lado de fora da porta do quarto. A luz do corredor estava acesa, isso raramente acontecia na madrugada. Olhei por debaixo da porta a fim de ver o que se passava. Não vi ninguém. Nikolai dormia em sua velha cama, coberto por várias folhas de papel. Havia trabalhado arduamente durante todo o dia e acabou adormecendo em meio às suas anotações.

Preferi não acordá-lo. Estava visivelmente cansado… Um pouco abatido também. Parecia ter urgência em concluir o trabalho. Ainda não me havia falado claramente do que se tratava, mas eu já podia imaginar o que vinha a ser aquele livro.

Estava com fome e fui ver se havia algumas sobras para mim. Sobras, sim! Nikolai era um pouco guloso, ainda mais quando estava escrevendo compulsivamente. Felizmente havia um pouco de queijo com azeitonas em cima da mesa e pude me fartar.

Acabando de fazer minha refeição, relembrei-me da última conversa com meu amigo Nikolai e percebi que seu livro tinha tudo para ser um grande sucesso. Não que eu seja crítico literário, todavia suas ideias eram no mínimo ousadas.

Os minutos avançavam lentamente e o cansaço chegou rápido como uma flecha, arrebatando-me. Procurei meu canto para repousar e adormeci em pouquíssimo tempo.

Algum tempo depois, impreciso tempo, acordei com um forte grito. Era Nikolai. A princípio pensei se tratar de um pesadelo, entretanto, quando dei por mim, vi dois homens agarrando-o e levando-o para fora do quarto. Não tive tempo de ajudá-lo. A truculência dos bárbaros-selvagens-trogloditas assustou-me de tal forma, que fiquei paralisado.

Passado o estado de choque, corri em direção à porta, que ainda estava aberta, para ver que direção tinham tomado. Já não havia mais ninguém no corredor. Senti uma fisgada no peito. Parecia um sinal. Tinha medo de nunca mais voltar a vê-lo.

O morador do 102 – vizinho da frente – abriu rapidamente sua porta e quando me viu, fechou-a. Não sei se tinha visto tudo o que havia acabado de acontecer, o certo é que não queria se envolver. Talvez estivesse com medo. Quem desvendará os mistérios mais ocultos da mente humana?

Na verdade, não o culpo. Ninguém se envolvia nos problemas alheios. Nikolai era o único que procurava ajudar os outros. Mesmo assim, na maioria das vezes, era criticado por suas atitudes.

“Jamais irei me perdoar se algo acontecer”.

Pensava constantemente no que poderia acontecer com ele. Como não conseguia dormir, passei por algumas de suas anotações e algo em particular me chamou a atenção. Um de seus textos, dizia o seguinte:

Depois da morte? Bem, não sei! Pra gente que fica, parece o fim; parece que tudo vai acabar, quando na verdade fica tudo igual…

As folhas secas da figueira continuam a cair; o choro dos recém-nascidos está cada vez mais alto; o Sol continuará a nascer pontualmente às 5h 59min nas manhãs de primavera; a lua estará sempre formosa contemplando os casais apaixonados; a semente não deixará de germinar porque alguém morreu.

O que fica são saudades de que, através dos anos, talvez não haja sequer resquícios. O sopro de vida é tão complexo que, a partir do momento em que a essência da vida abandona a matéria, tudo se torna podre. Transforma-se em resto… Até o cheiro cadavérico torna-se insuportável… Não importa quem seja a pessoa, fede. Simplesmente fede!

Dez, vinte, trinta, cem anos… Com quantos anos se é arrebatado pela morte? Não há diferença! Acontece! O ritual é sempre o mesmo… A negra sombra, com sua foice amolada, vem ceifar mais um escolhido, não se sabe se a mando de Deus ou do diabo, só se sabe que, quando ela vem, sempre alguém é obrigado a ir…

A dor da perda não tem fim. Pelo menos, é o que se pensa. Deseja-se também morrer, como se houvesse a certeza de que se encontraria com aquele que se foi.

Deseja-se fazer voltar o tempo para modificar algo que porventura estivesse equivocado… Ou até mesmo, para salvar a vida de uma pessoa. Fazer voltar o tempo!? Puro engano… Dois ou mais enganos… O tempo, assim como a morte, são supremos em aspectos incompreensíveis ao homem. Não há como mudá-los. Eu, pelo menos, não conheço.

Sinto saudades dela…

Sinto ódio de mim, por sentir que a estou perdendo pela segunda vez. Os anos se passam e, a cada ano, esqueço-me um pouco do seu jeito… Dos seus gestos… Do seu olhar carinhoso… Da sua maneira inigualável de ser.

Eu que não conhecia os mistérios dos homens, mas conhecia muito bem meu amigo, ou pensava que conhecia, não sabia quem era a pessoa à qual o texto se referia. Formulei algumas teorias, no entanto, nenhuma delas me convenceu. Poderia se tratar de um texto fictício… Afinal, Nikolai era escritor e estava trabalhando em seu novo livro.

Não era hora de formular conjeturas… Não a esse respeito, pois Nikolai não havia retornado ao quarto. Eu simplesmente não sabia o que fazer. Dentro de mim, um grande ímpeto heroico me ordenava sair procurando por ele, todavia o cansaço e principalmente o medo de me confrontar com aqueles homens convenceram-me de que a melhor coisa seria esperar.

Enquanto esperava por notícias e principalmente pela volta de Nikolai, veio à minha memória lembranças de nossas longas conversas a respeito de Anna, Vladimir e principalmente do pequenino Dimitry…

CAPÍTULO 1 – Publicado em 28/09/2017

Ele sempre me falava a respeito de Anna. Sobrancelhas finas e separadas proporcionalmente ao afilado nariz davam um aspecto puro e ingênuo àquela bela mulher. Olhos claros e cílios alongados só não eram mais belos que os lábios, capazes de enlouquecer uma reles alma com um único beijo. Longos cabelos loiros, pele branca e suave como de uma adolescente na puberdade. Seios pequenos e encantadores erguiam-se lentamente com os suspiros de amor dados por ela. Pernas ligeiramente grossas iam ao encontro de rígidos quadris, tão admiráveis quanto seus delicados pés. Mãos macias, como seda chinesa, que se tocavam, tateando todo o belo corpo, como se para constatar que todos aqueles atributos faziam parte de si. Era essa a descrição mais próxima de Anna que Nikolai fazia para mim.

Encontravam-se secretamente em uma pequena hospedaria próximo à Rua das Prostitutas, lugar onde não levantariam muitas suspeitas. Não se viam com muita frequência, entretanto, sempre que o marido de Anna viajava, era para lá que iam.

O escritor Nikolai adorava relatar os momentos mais íntimos entre eles. Entre uma risada e outra, não me poupava detalhes. Podia visualizá-los naquela pequena cama de solteiro, com lençóis limpos e um pequeno travesseiro de penas de ganso, trocando confidências e juras de amor.

Ficava excitado quando se lembrava das noites frias de inverno, sendo aquecido por sua amada, debaixo de uma coberta feita de pele de urso.

Certa noite, enquanto a neve caía lentamente cobrindo as ruas da cidade, toda a hospedaria foi acordada por gritos que ecoavam dentro do quarto do casal. Eram gritos misturados, entrecortados por gemidos e suspiros. Estavam fortemente abraçados. Nus, completamente nus. Coberta jogada ao lado da cama… Batimentos cardíacos acelerados… Respirações ofegantes… Um estranho e forte arrepio invadia os corpos dos amantes levando-os à felicidade plena. Tomados pelo suor, pareciam eternamente uma só carne. Um sorriso fácil se instalara nos rostos de Anna e Nikolai, que já não pensavam em mais nada, senão na experiência que acabavam de ter. Era uma novidade, uma agradável novidade que gostariam que se repetisse por toda a vida. Depois de alguns minutos que pareciam eternas horas, começaram a questionar como poderiam ter ficado tanto tempo privado de sensações tão prazerosas, inexplicáveis sensações que eram bem-vindas.

Após Nikolai ter urinado na latrina, tentou novamente sentir o gozo efervescente que havia sentido há pouco, mas não foi possível. Apesar de terem se amado, Anna já não o desejava com a mesma intensidade, estava satisfeita, realizada… Talvez cansada. Quem sabe? Queria dormir e acabou adormecendo. Ele foi obrigado a se contentar com as descobertas daquele dia, entretanto, estava ávido por uma nova experiência.

O sono não chegava. Ainda não havia pregado os olhos. Olhava para o lado e espantava-se com o sono de Anna. Tão profundo quanto os sentimentos que ele alimentava ou pensava ter por ela. Amava-a realmente ou ainda estava sob o efeito da recente descoberta? Questionou-se profundamente.

Durante a madrugada, Nikolai tentou transpassar para seu bloco de anotações tudo o que já havia vivenciado, principalmente ao lado de Anna. Todos os sentimentos, as sensações, as dúvidas e perspectivas de vida ao lado de uma mulher casada… Seus sonhos, seu futuro como escritor, as tolices do dia-a-dia… Enfim, tudo de que pudesse se lembrar estava sendo registrado. Não sabia muito bem o que desejava com todas aquelas anotações. Anotava… Simplesmente anotava.

Pouco antes de amanhecer, Anna se levantou para ir embora. O jovem escritor, distraído com seu trabalho, não havia percebido que sua amada despertara. Ela o abraçou fortemente, obrigando-o a se levantar da cadeira em que estava. Desejaram-se novamente, mas Anna já havia ficado longas horas fora de casa. O pequeno Dimitry, filho de Anna, poderia ter acordado durante a noite e notado a ausência da mãe. Ela se foi prometendo que o veria o mais breve possível.

Nikolai não falava muito sobre o filho de Anna. Foram três ou quatro vezes que me lembro de ter ouvido de seus lábios relatos sobre o pobre Dimitry. Falava sobre o garoto com a voz trêmula, os olhos molhados por lágrimas que insistiam em rolar sobre o rosto magro, de aparência calma e às vezes faminta. Entretanto, sua aparência famigerada era por algo a mais do que simples alimentos… Nikolai queria respostas…

Dimitry havia nascido com algumas anomalias. O lado esquerdo de sua face apresentava uma falha na composição óssea, parecendo ter somente pele e carne, formando um afundamento na face. Também sofria de ananismo. Com a idade de 16 anos, aparentava ter somente a metade.

Os médicos não sabiam explicar por que o garoto havia nascido daquele jeito. Algumas pessoas diziam que era fruto do demônio, outros preferiam não dizer nada, sequer olhavam para o inocente menino. Houve até quem dissesse que Dimitry era filhote de bruxa…

Nikolai não acreditava nas bobagens ditas pelo povo. Ansiava por descobrir a causa ou causas que levaram à deformação do filho de sua amada, não por simples curiosidade, mas com intuito de ajudá-lo. Era uma das poucas pessoas que se aproximavam do garoto.

Anna sentia vergonha do filho. Sempre respondia por monossílabos quando o amante lhe perguntava sobre o menino que nunca era visto com ela. Diferentemente de seu marido, que sempre que podia, estava ao lado de Dimitry, por onde quer que ele fosse.

Aliás, quando Nikolai viu o pequenino Dimitry pela primeira vez, ele estava no mercado central, com o seu pai, Vladimir, um respeitado vendedor de sapatos, que não media esforços para dar um pouco de alegria ao seu sofrido filho.

O próprio Dimitry parecia não se importar com sua baixa estatura ou sua terrível aparência. Estava sempre de bom humor. Seu pai dizia nunca tê-lo ouvido reclamar de absolutamente nada. Era até curioso: quando as pessoas falavam alguma coisa sobre ele ou simplesmente o olhavam com repugnância, mantinha-se mais tranquilo do que a normalidade, parecendo adivinhar todos os pensamentos que o rodeavam e sorria. Sorria como se conhecesse todas as respostas do mundo, principalmente as respostas sobre sua vida.

Aquela força de vida era algo que mexia com o entendimento de Nikolai. Por mais que conversasse com o garoto, não encontrava motivos para crer que fosse realmente feliz. A felicidade seria algo inalcançável para Dimitry na concepção do escritor.

Anna não admirava em nada a vontade de viver do filho. A simples presença do garoto a incomodava. Preferia vê-lo em um caixão a ter que conviver com uma figura tão repugnante saída de seu ventre.

Sentia-se amaldiçoada e acabou amaldiçoando o dia do nascimento do filho e pediu aos céus que nunca mais concebesse. Coincidência ou não, Anna havia sido atendida. Não podia mais dar a luz, teria que se contentar com seu único filho, seu rejeitado filho.

Nikolai percebia e não entendia por que Anna agia daquela maneira com o pequeno Dimitry. Estava com uma mulher que não tinha amor para com o próprio filho. O verdadeiro sentido da palavra amor era uma incógnita para o escritor.

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