Acompanhe o romance ‘Labirintos: a eterna busca do ser’!

Acompanhe o romance ‘Labirintos: a eterna busca do ser’!

Imagem: reprodução da Internet

O Itaperuna News, apostando no bom gosto de seu público leitor, passa a divulgar com exclusividade o livro ‘Labirintos: a eterna busca do ser’, do escritor e jornalista Eusébio Dornellas. Indo na contramão dos textos rápidos e sucintos, o site reserva este espaço para contar histórias e prestigiar os amantes da leitura. Os capítulos serão postados durante as próximas semanas. Tenham uma boa leitura!

SINOPSE

O famoso poeta russo, Nikolai Andreiev, tem a sua vida contada por um misterioso narrador, que utiliza a linha temporal para expor as mazelas humanas, através da saga do poeta no decorrer de longos anos. Amor e ódio, morte e vida, fome, luxúria, a criação do universo, são alguns motivos de discussões entre narrador e personagem. O desnudamento do ser humano é provocado por um viés imaginário que reflete o corre-corre do mundo em que vivemos. Personagem e narrador são tão inflamados em seus debates, que no vigésimo nono capítulo, um deles poderá ser assassinado pelo outro. Como se termina uma história de trinta capítulos sem o narrador ou sem o personagem principal? Talvez uma entre as dezenas de pessoas que cruzaram o caminho do escritor Nikolai, ou quem sabe uma de suas amantes, tenha essa resposta. Talvez…

CAPÍTULO 30 – (último capítulo) | Publicado em 27/12/2017

Há quarenta anos me sento em frente a estes muros e me questiono se os pulo ou não. Fico imaginando como seria a minha vida lá fora. Às vezes, um pouco curioso, todavia, na maioria das vezes, sinto medo do que eu poderia encontrar por detrás destas grossas paredes e destas imponentes grades.

A dúvida poderia me envenenar a alma. Contudo, como conheci o mundo lá fora e o conheço aqui dentro, penso ter encontrado o antídoto para esse mal.

Aqui, chamam-me de várias coisas. Louco… Velho… Poeta… Escritor… Nikolai… Russo… Nikolai Andreiev… Gosto das inúmeras maneiras como me chamam.

Tenho muitos amigos. Bem! Na verdade, meu grande amigo morreu. Bem! A verdade mesmo é que eu o matei.

Durante algum tempo tive um rato como meu único amigo. O contato com os outros internos sempre foi bastante restrito. Cada qual tem o seu próprio quarto. Geralmente nos encontramos no horário das refeições ou quando vamos tomar um pouco de Sol.

Conheci o rato depois de uma sessão de eletrochoques. Ele estava próximo ao vaso sanitário, creio que tenha vindo pelo esgoto. Era grande e estava fedendo muito. Lembro-me como se fosse hoje… Fezes! Fedia a fezes… Arrependo-me de nunca lhe ter dado um nome.

Foi o meu único e grande confidente. Como nunca confiei em padres, compartilhei grande parte da minha vida com ele. Conversávamos sobre quase tudo. Talvez por esse motivo eu o tenha matado.

Quase! Quase, nunca foi tudo. Havia muitas coisas que o pobre rato não sabia a meu respeito. A começar pelo meu verdadeiro nome. Chamo-me André da Silva Nícolas.

Tenho setenta e quatro anos e estou vivendo neste manicômio há exatos quarenta anos. Quando me trouxeram para cá, houve quem dissesse que eu não teria mais jeito. Para falar a verdade, creio que não fosse necessário que eu viesse para cá.

Foram tantos os tratamentos a base de eletrochoques e outras brutalidades a que fui submetido que não sei como consegui sobreviver. Ainda dizem que eu é que sou louco! Como uma pessoa que é considerada louca pode se recuperar à base de pancada? Digam-me! Por favor! Eu não sou louco! Nunca fui…

Eu tinha trinta e quatro anos quando tudo aconteceu. Mas, antes disso, eu havia trabalhado desde os dezesseis anos de idade para fazer fortuna. Queria ser um homem importante, de posses e conseguir um bom casamento.

Trabalhei duro nas lavouras de café de um homem, chamado Dr. Ítalo Di Louse pai da bela Nádia, a mulher da minha vida.

Não sei se cheguei a conhecer os meus pais. Este é um período da minha vida que por mais que eu me esforce, não consigo lembrar.

Eu morava em uma das senzalas abandonadas juntamente com alguns negros descendentes de escravos e alguns imigrantes. Todos nós recebíamos salários e estávamos contentes com o trabalho que tínhamos.

Aprendi a ler e a escrever na escolinha que existia na fazenda. Rapidamente me interessei pelos livros, principalmente pela literatura russa. Havia um italiano na fazenda que adorava os escritores russos e me dava verdadeiras aulas sempre que me emprestava seus livros.

Entre uma e outra colheita de café, as coisas iam melhorando. O patrão estava ficando mais rico, nós não podíamos nos queixar, também estávamos conseguindo juntar algum dinheiro. Eu já tinha até roupa nova para ir à missa!

Sempre que tinha uma folga, vestia-me com minha melhor roupa e ia em direção ao casarão na expectativa de ver a bela Nádia. Sentia que às vezes, ela correspondia aos meus olhares, todavia a distância entre a senzala e a casa grande eram suficientes para que eu me acovardasse.

Ela era uma belíssima mulher. Longos cabelos loiros, pele branca, sobrancelhas finas e separadas proporcionalmente ao afilado nariz, seios pequenos e encantadores, olhos claros e cílios alongados… Era uma jóia! Uma preciosa jóia guardada a sete chaves.

Eu trabalhava de sol a sol juntando todo o dinheiro que ganhava na expectativa de um dia criar coragem e pedir a mão de Nádia em casamento.

Os rapazes de minha idade gozavam a vida desfrutando de todos os prazeres que o mundo pode oferecer. Freqüentadores assíduos do bordel de Dona Katarina insistiam diariamente para que eu fosse conhecer o tão afamado lugar do prazer.

Nunca desejei conhecer um bordel. Não queria me contaminar com aquele desconhecido universo. Preferia me guardar para a linda Nádia. Entregar-me-ia somente aos seus braços; neles, de certo, eu seria feliz.

Fui alvo de chacotas por todos. Todavia, tinha plena convicção de meus desejos. Não me deixaria abalar por meia dúzia de invejosos. Invejosos, sim! Tenho certeza de que me invejavam… Tinham inveja do amor que nutria por Nádia.

Eu não era possuidor de uma beleza descomunal, tinha no lado esquerdo da face uma pequena falha na composição óssea. Nada que comprometesse os traços do meu rosto. Alguns amigos, de forma maldosa, diziam que eu era filho de bruxa. Nunca dei muita importância a determinadas brincadeiras, a única coisa de que eu não gostava era ser apontado pelos outros. Eu não era nenhum coitadinho…

Houve um tempo em que o Dr. Ítalo me mandou para uma fazenda de um amigo dele, na região Norte do país.

Era uma viagem longa e bastante penosa. Pela primeira vez na vida passei fome. Tive que comer algumas migalhas que sobraram dos mantimentos que levei para a jornada… Às vezes, encontrava uma alma caridosa que se compadecia e me dava um prato de comida.

No entanto, o que mais me entristecia era a distância de Nádia. Sentia saudades e me questionava se ela sofria pelos mesmos sentimentos que eu…

Fiquei um bom tempo longe. Quase explodi de tanta alegria quando recebi ordens para retornar. Estavam precisando dos meus serviços urgentemente e eu não me agüentava mais de saudades.

No caminho de volta, conheci uma trupe que se apresentava por todo o Brasil. Eram atores fabulosos que trabalhavam duramente por amor à arte. O que ganhavam dava somente para se sustentarem. Aprendi muitas coisas com aquelas pessoas. Lições para uma vida inteira.

A primeira coisa que fiz assim que cheguei foi pegar minha roupa nova, que já não era mais nova, vesti-me e fui em direção ao casarão para ver minha amada. Ela estava sentada na rede e quando me viu, acenou.

Meu coração acelerou. Ela havia acenado para mim. Eu correspondi ao aceno e rapidamente fui para o meu canto confabular comigo mesmo o que poderia significar aquele singelo sinal.

Naquele dia não consegui sequer comer. Pensava somente no aceno que ela havia feito. Por certo, estaria com saudades. Ou quem sabe, ela já soubesse do amor que eu sentia por ela… Eu estava muito feliz e já me dava por contente diante daquela demonstração de carinho.

Fiquei algumas semanas sem passar em frente ao casarão. O trabalho consumia grande parte do meu tempo, de forma que meu contato visual com minha amada Nádia dava-se raramente quando a moça passeava com o pai.

Dona Maria Adelaide, mãe de Nádia, era falecida. Morreu quando a garota tinha um ano de idade. Diziam que ela morreu devido à tuberculose. Diziam tantas coisas a respeito de Dona Maria…

Coitada! Seus ossos deveriam se revirar no túmulo a cada frase que diziam a seu respeito.

Os que a conheceram bem, falavam que ela era mulher da vida. Comentaram que quando o Dr. Ítalo a conheceu, ela já estava perdida e que mesmo depois do casamento, continuava a se comportar como uma meretriz.

Nunca ninguém soube explicar por que um homem tão tradicional como o Dr. Di Louse sujeitou-se a uma série de escândalos.

Alguns anos se passaram e eu já tinha juntado um bom dinheiro. Nada que me encorajasse a pedir a mão de Nádia em casamento, mas algo que me possibilitava a ter o meu próprio pedaço de terra.

Nessa época, os bailes invadiam os casarões de todos os fazendeiros da região. Os salões viviam repletos. Rapazes disputavam a preferência das moças por uma simples valsa. Todos se divertiam a valer nestas reuniões familiares.

Bem! Nem todos tinham acesso a essas reuniões. Eu, por exemplo, nunca participei de uma festa. Até aí, nenhuma novidade. Mas, qual era o motivo que impedia a jovem Nádia de conviver em sociedade?

Nunca soube ao certo. O que mais se ouvia é que o Dr. Ítalo não queria ver a sua filha de namorico com qualquer um. Diziam que ele era muito ciumento. Dispensou ótimos partidos alegando que sua filha ainda era muito jovem para se casar.

A pobre moça não saia mais de casa. Eu, que trabalhava na fazenda, quase não a via. As raras vezes em que a via, notava uma profunda tristeza em seu olhar. Pensava em me aproximar, mas logo desistia assim que ela punha os olhos em cima de mim.

O Dr. Ítalo a tratava com demasiado carinho. Notava-se que era um pai muito afetuoso. Adorava presentear a filha com flores, bombons e jóias… Brilhantes! Para ser mais preciso.

Por várias vezes, quando eu a espiava, via o seu pai presenteando-a. Não entendia muito bem por que ela somente abaixava a cabeça quando recebia os presentes. Creio que nem mesmo agradecesse as gentilezas de seu pai.

Uma noite, subi em uma grande árvore para espiar o que se passava dentro do casarão. Vi Nádia deitada em sua cama dormindo como um anjo e no corredor, seu pai andava de um lado para o outro como se tencionasse acordá-la.

Não cheguei a ver o desfecho da cena, pois estava muito cansado e precisava acordar bem cedinho para poder trabalhar.

Sonhava com o dia de pedir a mão da moça em casamento e me desesperava, ao saber que mais um pretendente havia sido escorraçado da presença do Dr. Ítalo Di Louse.

Se todos aqueles pretendentes abastados e bonitos foram desaprovados pelo Dr. Di Louse, o que seria de mim?

Os anos foram passando rapidamente e ninguém conseguia entender o porquê da bela Nádia ainda estar solteira. Não lhe faltavam pretendentes, não lhe faltavam dotes, não lhe faltava beleza, não lhe faltava nada.

 O intransigente Dr. Ítalo Di Louse não consentia a mão da filha a ninguém. Absolutamente ninguém estava à altura de possuir sua bela filha como esposa. No fundo, eu até que gostava, pois ganhava tempo para poder juntar dinheiro e criar coragem para me declarar.

Continuava a admirá-la de longe e, a cada dia que se passava, eu a notava mais triste. Como não conseguia me aproximar, pois faltava-me mais coragem do que oportunidade, resolvi lhe escrever alguns bilhetes.

Como eu não havia pensado nisto antes? Era a minha grande chance, a oportunidade de me declarar a quem eu já estava esperando alguns anos de minha vida.

Escrevi um primeiro bilhete sem me expor muito. Foi algo bem singelo e muito simples. Nada que me comprometesse, apenas uma tentativa de aproximação. Dizia o seguinte:

Gentil Nádia,

Cada vez que meus olhos pousam diante de sua face tristonha, sinto-me culpado por não confortar o seu coração e lhe alegrar o espírito. Que o bondoso Deus faça resplandecer a Sua glória sobre o seu rosto e que em breve eu possa ver um sorriso em seus lábios.

De um grande amigo…

A resposta dela, não muito diferente da minha no quesito simplicidade, dizia o seguinte:

Gentil Amigo,

Creio que nem o bondoso Deus possa trazer de volta o sorriso aos meus lábios. Para ser sincera, não me lembro qual a última vez que sorri. Talvez, só as criancinhas tenham motivos para sorrirem.

Atenciosamente,

Nádia.

Não sei ao certo qual foi o impacto que o meu bilhete causou. Não entendia o que ela queria dizer. Todavia, sua tristeza não cessava. Eu não sabia se deveria parar de escrever ou se continuava a me aproximar daquele ser quase inatingível.

Os empregados que trabalhavam dentro do casarão comentavam que o Dr. Ítalo e Nádia quase não se falavam. Ela se limitava a responder às perguntas do pai com um discreto aceno de cabeça.

Eu achava tudo muito estranho. Apesar de pouco se falarem, o Dr. Di Louse insistia em presenteá-la. Ela mal olhava os presentes, parecia não dar importância aos agrados que seu pai lhe fazia.

Sempre que tinha a oportunidade de espiá-la, eu o fazia. Subia na árvore que me possibilitava uma ampla visão do interior do casarão. Por várias vezes pude contemplar o Dr. Ítalo caminhando pelo corredor em frente ao quarto de Nádia. Seus passos eram agitados, nervosos… Fumava pelo corredor e sempre bebia umas doses de cachaça.

Ficava tanto tempo naquele local que eu acabava desistindo de espiar. O sono sempre me vencia e eu descia para ir dormir no meu cantinho. Nunca soube o porquê de ele sempre caminhar na porta do quarto de Nádia, já que o seu quarto ficava do outro lado da casa.

Escrevi um outro bilhete à Nádia que dizia o seguinte:

Caríssima Nádia,

Hoje posso me dar por contente. Depois de um longo período sem vê-la, pude finalmente contemplar um sorriso em sua bela face. É certo que esta magia durou alguns segundos, mas foi o suficiente para alegrar minh´alma.

De um grande amigo…

Tive a felicidade de vê-la assim que saí da lavoura. Ela estava cuidando das flores do jardim e quando surgiu um pequeno beija-flor, a encantadora moça sorriu. Eu acenei para ela, todavia, foi em vão o meu cumprimento. Ela sequer havia notado a minha presença.

Já estava me acostumando com a condição de “invisível”. Não era só ela que não me enxergava, a maioria das pessoas ignoravam minha presença. Não acredito que isso acontecia propositadamente, entretanto, acontecia com freqüência.

Já havia desistido de esperar a resposta de meu segundo bilhete. Tinham se passado alguns dias e finalmente pude me alegrar assim que o bilhete chegou às minhas mãos. Dizia o seguinte:

Caro Amigo,

Não sei por que insiste em me ver sorrir! Não tenho motivos para isto… Tive a minh´alma arrancada de meu corpo e chicoteada pelo demônio… Não sou digna ao menos de um sorriso. Estou fadada à tristeza eterna! Diga-me: por que se importa comigo? Quem é você para se sentir feliz com um pequeno esboço de meu sorriso? Aconselho-o a me esquecer para que eu possa sofrer em paz…

Atenciosamente,

Nádia.

Preferiria nunca ter lido aquele bilhete. Não entendia com clareza o que significavam todas aquelas palavras, no entanto, sentia-me ainda mais desencorajado a prosseguir com a minha tentativa de aproximação.

Eu era um covarde! Nunca me atrevi a atitudes mais ousadas. Nunca saberei se acertaria se tivesse me arriscado. Sempre pensei muito bem em todos os passos que dava antes de executá-los. Ter sido metódico nunca me ajudou muito…

Sentia uma grande necessidade de me deitar com uma mulher. Meu corpo me exigia isso. Não era capricho da luxúria e sim uma necessidade física. Os homens que trabalhavam na lavoura acabaram me convencendo a ir ao bordel.

Quando coloquei os pés naquele lugar senti que seria a primeira e última vez. Houve um grande alvoroço com a minha chegada na casa. Todas as mulheres queriam me iniciar. Houve até quem apostasse em qual das moças iria me seduzir. Até que não me assustei com toda algazarra feita em torno de mim. No fundo, acho que gostei. Só que uma coisa era bem mais forte do que meus desejos e minhas vontades… Nádia!

Eu não pensava em outra mulher que não fosse ela. Depois de ter tomado algumas doses de cachaça e ter ficado totalmente bêbado, acabei dormindo na primeira cama que me deixaram. Mais uma vez, fui motivo de piadas…

Não entendia por que as pessoas não me entendiam… Era tão difícil de compreender que eu amava uma mulher e só me deitaria com ela. Por mais que desejasse conhecer os segredos do amor, não faria nenhum sentido se não fosse com Nádia.

Era cada vez mais raro me encontrar com Nádia. Havia muito tempo que não trocávamos bilhetes e a única forma de vê-la era subindo na árvore.

Certa noite, vi o Dr. Ítalo discutindo arduamente com a filha. Não dava para ouvir o motivo da discussão. Estavam no quarto de Nádia. Em um determinado momento, ele a segurou fortemente pelo braço e a esbofeteou, jogando-a em cima da cama.

Senti tanto ódio que na vã tentativa de ajudá-la, acabei caindo e me machucando seriamente. Fraturei o tornozelo e luxei os pulsos. Não sei como se deu o desfecho daquela briga entre pai e filha.

Os empregados já não comentavam mais nada. Estavam todos com medo. Via nos olhos deles o temor. Percebi que eles sabiam de alguma coisa, mas ninguém ousava comentar.

As coisas estavam bem diferentes. Dr. Ítalo Di Louse andava bastante agressivo. Não só com os empregados, mas com todos que lidavam com ele no dia-a-dia. O problema não poderia ser dinheiro, pois a cada ano que passava eram colhidas mais sacas de café. Ele já estava muito rico…

O último pretendente de Nádia, foi um tal de Otávio Albuquerque, o Querquinho, filho do comandante Barroso.

O comandante Barroso era um homem muito respeitado. Honesto, íntegro, trabalhador e muito amável com as pessoas, conquistava rapidamente a todos que o conheciam. Possuía muitas terras e era considerado um dos homens mais ricos de todo o país. O filho, no entanto, não possuía as qualidades do pai.

Querquinho era um azarado jogador de pôquer. Vivia gastando o dinheiro do pai em apostas no bordel de Dona Katarina. Possuía todas as mulheres que estavam a sua volta pelo simples prazer de se auto-afirmar. Jamais se apaixonou, mas estava prestes a pedir a mão de Nádia em casamento por um único motivo: dinheiro!

No dia em que o comandante esteve na fazenda, juntamente com o filho para pedirem a mão da moça em casamento, corri para o meu quarto e juntei todas as minhas economias com o firme propósito de impedir que o Dr. Ítalo consentisse a mão da filha.

Eu estava desesperado. Meu dinheiro não era suficiente para me dar uma melhor condição de me apresentar como candidato a noivo. Ainda que fosse suficiente, eu era um simples empregado, isto era um fator negativo.

Mesmo com todas as adversidades que me eram peculiares, corri em direção ao casarão para evitar o noivado de Querquinho e Nádia.

Não foi preciso que eu interviesse. Mais uma vez o Dr. Ítalo havia negado a mão da filha.

Cheguei a tempo de evitar uma tragédia, pois o Dr. Di Louse havia sacado uma arma para matar o filho do comandante Barroso. O rapaz, inconformado com o veto de seu pedido, disse que o Dr. Ítalo estava guardando a filha para si mesmo.

Se eu tivesse me atrasado um minuto, o rapaz fatalmente teria levado um tiro. O comandante, apesar de ter saído da fazenda aborrecido com toda a confusão ocasionada, sempre me foi muito grato. Dizia que eu havia agido como um verdadeiro homem de bem.

Não tive mais notícias de Querquinho e seu pai. Eles nunca mais voltaram à fazenda. Tinham outras propriedades e, por certo, estariam morando em outra região.

Nádia estava doente. Não queria se alimentar. Parecia preferir a morte. O médico que cuidava de sua saúde insistia para que ela reagisse. Ela não demonstrava interesse em continuar vivendo.

O Dr. Ítalo sofria muito com o estado de saúde de Nádia. Disse ao médico que pagaria o que fosse necessário para que a filha se recuperasse. O médico dizia que a melhora de Nádia dependia mais dela do que dos esforços dele.

Depois de alguns meses, a moça melhorou. Ainda estava abatida e tristonha, todavia não corria risco de perder a vida. Resolvi voltar a me corresponder com ela. Ainda não queria dizer quem era, mas lhe escrevi o seguinte:

 Cara Nádia,

Obrigado por estar viva. Temi que não sobrevivesse a esta enfermidade. Pedi ao Deus dos céus e da Terra que a protegesse e que todo o mal que a rodeasse fosse atirado nas profundezas do Inferno.

Não faça muito esforço! Desejo vê-la totalmente recuperada…

De um grande amigo que lhe quer muito bem…

Cada palavra que escrevia era um alento ao meu coração. Era uma esperança que se renovava. Era uma forma de prosseguir… Eu vivia… Eu estava vivendo… Eu sobrevivia pelo amor daquela mulher.

Pensava dia e noite em me declarar. Poderia até mesmo fugir com ela. Bastaria eu me declarar. Era tão simples de se fazer. Eu precisava dar somente alguns passos e ir ao seu encontro quando ela estivesse passeando pelo jardim. Não sabia o que me impedia… A rejeição era algo que me assustava.

Nunca soube da minha verdadeira história, mas trago comigo, algumas teorias. E a teoria mais forte é a da rejeição. Penso que quando nasci, por ter alguns traços diferentes na face, fui rejeitado pela minha mãe.

Talvez eu esteja enganado, porém, é algo que sinto fortemente em meu peito. Creio que tudo poderia acontecer em minha vida, menos ser rejeitado pela mulher que sempre amei.

Continuei escrevendo para Nádia. Ela me falava sobre uma vida maldita que levava, sobre a infelicidade a que estava destinada a sofrer pelo resto de sua vida… Queixava-se das atitudes de seu pai. Em alguns de seus bilhetes, percebi que ela o odiava.

Acostumamo-nos a trocar bilhetes e com o passar do tempo, ela não se importava mais em saber quem os escrevia. Contava-me suas dores e aflições e eu tentava reanimá-la para uma nova vida.

O tempo havia se passado rapidamente. Ela não dava pista de que sabia quem era o autor dos bilhetes. Também não demonstrava maiores afeições por mim. Não creio que me amava, talvez sequer tenha olhado para mim com os mesmos olhos que eu a olhava… Mesmo assim, decidi lhe escrever:

Nádia, meu grande amor!

O tempo não foi capaz de nos unir, também não foi o motivo de nossa eterna separação… Busquei durante toda a minha vida ser amado. Era a única coisa que eu desejava… Queria ser amado por você.

Buscava a razão da minha existência em pequenos gestos seus… Tudo em você é motivo de vida em mim…

O coração que pulsa dentro do seu peito é o mesmo que faz o meu sangue circular quando contemplo o seu lindo rosto.

Seus olhos é que direcionam o meu conturbado caminho… São as suas mãos que sinto sobre as minhas quando estou escrevendo palavras de amor.

A minha alma e o meu espírito se aquietam com a sua suave respiração… Eu… Você… Não existe separação! Somos um todo indiviso…

Espero que não seja tarde para que eu possa declamar todo o amor que sinto por você… Estarei te esperando dentro de uma hora próximo ao pomar central.

De quem te amou por toda a vida,

André da Silva Nícolas.

Era tarde demais! Eu já tinha trinta e quatro anos, mas não foi por causa da minha idade, que fiz esta exclamação.

Dizem que fiquei no pomar central da fazenda durante três dias e três noites. Eu não me lembro claramente destes fatos. Dizem também que chorei copiosamente durante esse tempo.

Falaram-me sobre a tragédia que havia acontecido no casarão. Nádia não chegou a ler o meu último bilhete. Eu estava chocado com os fatos. Transtornado, preferiram me internar neste maldito manicômio.

Não tenho muita certeza… Não me lembro… Não sei muito bem… Mas, dizem que Nádia foi encontrada morta. Estava próxima ao jardim caída em meio ao canteiro de rosas. Seus pulsos estavam cortados e em suas mãos, dois enormes espinhos eram cúmplices da tragédia… Os espinhos da própria flor.

O Dr. Ítalo se culpava diante do cadáver da moça e pedia que ela lhe perdoasse. Não creio que isto seja possível… Também nunca soube que fim o Dr. Ítalo Di Louse teve.

O que sei é que não sou louco! O que sei é que estou aqui! Nunca fui um escritor lido e respeitado…. Escrever foi uma questão de sobrevivência… Se eu não escrevesse, por certo teria enlouquecido.

Eu sou um rato… Sou Nikolai S. Andreiev… Sou Anna e Katerinne… Sou o vendedor de sapatos Vladimir Svalonilov… Sou as prostitutas Yelenna, Martinna, Valeska e Yellenova… Sou os vizinhos Anastácia e Petrovic…

Durante anos, passei para o papel todas as perspectivas de vida que tive lá fora, mescladas às experiências que vivi aqui dentro. Nada fugiu ao meu olhar. Observei cada interno nestas quatro décadas. Observei o mundo lá fora com o olhar de quem não é compreendido por estar aqui dentro. Mas, eu sei o que se passa neste momento por trás destes muros. Eu sei! Você sabe?

Questiono-me sobre a eterna busca do ser nestes labirintos em que me encontro e me esbarro em uma profunda indagação: em que lado do muro se encontra a verdadeira loucura? Responda-me, se puder…

FIM

CAPÍTULO 29 – Publicado em 19/12/2017

Eram exatamente cinco horas da manhã. Nikolai ainda estava dormindo e eu continuava lendo todas aquelas anotações que estavam em seu compartimento secreto.

Percebi que, por várias vezes, meu amigo se referiu sobre a eterna busca do ser. Grande parte de seus textos eram complexos, todavia algumas anotações deixavam claras a eterna procura do escritor por algo que fugia ao meu entendimento.

O que exatamente seria essa busca? O que seria a eterna busca do ser? Eu entendia, mas não compreendia aquele jogo de palavras. Nikolai S. Andreiev, escritor e poeta russo, confundia-me a cada frase, a cada parágrafo, a cada folha lida.

Enquanto ele dormia tranquilamente, eu continuava bisbilhotando seus textos. Houve um texto que me chamou a atenção. Não que eu tivesse encontrado respostas sobre a eterna busca do ser, apenas era um texto que eu havia lido na noite anterior.

Quando li pela primeira vez, pensei se tratar de um texto fictício ou coisa parecida. Relendo o texto e o encontrando escrito em várias folhas diferentes, percebi que algo de especial poderia ser revelado. O texto dizia o seguinte:

Depois da morte? Bem, não sei! Pra gente que fica, parece o fim; parece que tudo vai acabar, quando na verdade fica tudo igual…

As folhas secas da figueira continuam a cair; o choro dos recém-nascidos está cada vez mais alto; o Sol continuará a nascer pontualmente às 5h 59min nas manhãs de primavera; a lua estará sempre formosa contemplando os casais apaixonados; a semente não deixará de germinar porque alguém morreu.

O que fica são saudades de que, através dos anos, talvez não haja sequer resquícios. O sopro de vida é tão complexo que, a partir do momento em que a essência da vida abandona a matéria, tudo se torna podre. Transforma-se em resto… Até o cheiro cadavérico torna-se insuportável… Não importa quem seja a pessoa, fede. Simplesmente fede!

Dez, vinte, trinta, cem anos… Com quantos anos se é arrebatado pela morte? Não há diferença! Acontece! O ritual é sempre o mesmo… A negra sombra, com sua foice amolada, vem ceifar mais um escolhido, não se sabe se a mando de Deus ou do diabo, só se sabe que, quando ela vem, sempre alguém é obrigado a ir…

A dor da perda não tem fim. Pelo menos, é o que se pensa. Deseja-se também morrer, como se houvesse a certeza de que se encontraria com aquele que se foi.

Deseja-se fazer voltar o tempo para modificar algo que porventura estivesse equivocado… Ou até mesmo, para salvar a vida de uma pessoa. Fazer voltar o tempo!? Puro engano… Dois ou mais enganos… O tempo, assim como a morte, são supremos em aspectos incompreensíveis ao homem. Não há como mudá-los. Eu, pelo menos, não conheço.

Sinto saudades dela…

Sinto ódio de mim, por sentir que a estou perdendo pela segunda vez. Os anos se passam e, a cada ano, esqueço-me um pouco do seu jeito… Dos seus gestos… Do seu olhar carinhoso… Da sua maneira inigualável de ser.

Fim.

Estava curioso por saber quem seria ela. Quem era a mulher à qual o texto se referia? Acaso seria a mãe de Nikolai? Uma irmã? Quem seria?

Esperançoso, continuei folheando na expectativa de me deparar com algum nome que pudesse ser daquela misteriosa mulher que havia morrido e deixado o coração do poeta despedaçado.

– O que pensas que está fazendo? – perguntou Nikolai furioso.

Eu não havia me dado conta de que meu amigo havia acordado. Quando ele me viu mexendo em suas anotações, levantou-se rapidamente da cama e as tomou de mim.

– Mas… Foi você mesmo que pediu que eu lesse pra você! – tentei me justificar.

– Eu?! Não me lembro.

– Como não se lembra? Você pediu que eu pegasse suas anotações em baixo da cama, em um compartimento secreto…

– Você descobriu o meu esconderijo? – questionou-me furiosamente o escritor.

– Foi você mesmo que me pediu que pegasse suas anotações. Pediu para que eu lesse sobre nosso vizinho Petrovic…

– Eu não te pedi nada!

Nikolai estava aos berros dizendo que não havia me pedido nada. Insistia em dizer que eu estava espionando o seu trabalho. Em determinados momentos, gritava com tanta intensidade que a veia de seu pescoço dava a impressão que se romperia.

– Não precisa gritar! Acalme-se! Por favor! – pedia inutilmente a Nikolai.

– Eu não estou gritando…

– Imagina se estivesse…

– Detesto quando você age com ironia.

– Eu não estou sendo irônico, Nikolai!

– Ah! Cala essa boca!

Diante daquela exclamação, acabei ficando em silêncio. Pela primeira vez discutíamos de forma mais áspera. Nunca havíamos chegado a tal ponto. Isso me entristecia profundamente. Não queria brigar com meu amigo.

No entanto, ele insistia em acusações infundadas. Insultava-me como se eu fosse um cão sarnento. Parecia ter-se esquecido de todos os momentos que passamos juntos. Parecia ter se esquecido de que eu era o seu melhor amigo.

– Não sei como pude confiar em você! – disse-me Nikolai.

Ele caminhava pelo quarto folheando as anotações como se estivesse conferindo para ver se não faltava nada. Perguntava-me se eu havia descoberto alguma coisa sobre Nádia e não acreditava na resposta que eu lhe dava.

– Fale! O que você descobriu a respeito de Nádia?

– Eu não descobri nada… Já disse que não sei de nada…

– Diga logo, seu, mentiroso!

– Você está me sufocando…

– Fale! Fale, se não eu te mato! Desgraçado!

Eu estava sendo asfixiado pelo meu grande amigo. Não podia acreditar naquela situação. Era pior do que qualquer pesadelo. Esforçava-me por lembrar de alguma anotação que se referisse a Nádia para que ele pudesse me deixar em paz, mas não conseguia nada.

Tinha a impressão de que o tempo havia paralisado. Percebi que ele poderia tirar minha vida quando bem entendesse. Estava indefeso na mão daquele homem que já não mais me tratava como o seu grande e único amigo.

Senti uma forte dor nas costas quando ele me jogou contra a parede. Pensei que estivesse morto, no entanto, pude ouvir claramente a sua potente voz me insultando.

– Rato desgraçado! Rato filho-da-puta! Rato dos diabos… Nunca deveria ter confiado em um rato!

Não entendia por que ele me tratava daquela maneira. Sempre fui um rato e isto nunca foi motivo para que ele me agredisse. Ao contrário, dizia que preferia confiar em mim – um simples rato – a confiar no ser humano.

Como era difícil para mim – um irracional – ser agredido daquela forma por um homem, um ser racional, um indivíduo que pensa, que sabe se expressar, um ser capaz de mudar o curso da história… O homem!

Ratos! Ou melhor, rato! Nikolai agia como um rato. Covardemente me encurralava dizendo toda a sorte de impropérios como se eu fosse o culpado pela morte de Nádia.

Enquanto apanhava, descobri que o texto se referia a Nádia. Ela, pelo visto, teria sido uma pessoa muito importante na vida do escritor.

Nikolai insistia em suas acusações. Estava transtornado. Totalmente fora de si, gritava o nome de sua amada com tanta força como se a invocasse. Desistiu por alguns minutos de me perseguir e se pôs a rasgar algumas das folhas que estavam em suas mãos. Lágrimas rolavam-lhe pelo rosto como se estivesse relembrando alguns momentos ao lado dela.

– Por quê? Por quê? Por que, meu Deus?! Por quê? – dizia Nikolai.

Eu estava com medo. Pensei em aproveitar o momento em que ele estava distraído para poder fugir. A porta estava fechada e eu não conseguiria passar por baixo. Acabei desistindo. Tinha que encarar os fatos como um homem, digo, como um rato.

– Você é o culpado de tudo! Você é culpado por eu estar assim… – dizia-me Nikolai apontando o dedo indicador.

Eu não conseguia entender que culpa tinha. Não conseguia assimilar o que havia feito de errado para receber aquele indesejado tratamento.

Sempre pensei na existência humana como IRMÃOS RATOS um pouco mais desenvolvidos. Às vezes pensava na palavra rato como algo pejorativo, entretanto, com o passar dos anos e tendo o privilégio de estudar o comportamento humano, percebi que pejorativo são as atitudes de muitos homens que não são dignos de nem mesmo serem chamados de ratos.

Estava certo de que havia outras coisas no coração do homem que o deixavam bem piores que nós, ratos e ratas… Coisas estas que os próprios homens preferem não enxergar.

Via nos olhos de Nikolai um rancor, um ódio como eu jamais havia presenciado antes. Pressentia que toda aquela fúria poderia cair em cima de mim. Afinal, quem se importa com os ratos?

– Você tem que morrer… – disse Nikolai.

– Mas… Por quê?

– Não interessa… Você tem que morrer…

– Não me mate… Por favor!

– Cale a boca!

– Por favor! Eu te imploro! Não me mate…

– Eu não tenho escolha… Preciso te matar.

Eu novamente me encontrava nas mãos de Nikolai. Meu amigo Nikolai S. Andreiev. O escritor e poeta russo que dividiu o mesmo quarto comigo. O homem que compartilhou grande parte de suas histórias e que agora, estava prestes a se tornar o meu algoz.

Talvez eu estivesse preste a me calar. Sentia uma grande mágoa, uma terrível dor que se apoderava de meu pequenino e frágil corpo. Estava sendo traído pelo homem a quem me dedicava fielmente, inclusive em contar a história de sua vida, que poderia encerrar-se com a minha morte…

Quem, além de mim, contaria a história de Nikolai? Quem manteria a fidelidade dos fatos? Talvez eu fosse o único interessado em contar a sua história… Eu não poderia morrer! Se eu morresse, a história não teria fim…

A decisão era dele. Eu não queria morrer. Desejava continuar contando a história do escritor em meio aos labirintos, em sua eterna busca do ser…

– Não me mate! Por favor! Deixe-me pelo menos terminar de contar tudo o que sei! – implorava para que ele desistisse de seu intento.

– Eu tenho… Eu preciso… Eu tenho que te matar. – dizia Nikolai enquanto me sufocava.

– Não me…

CAPÍTULO 28 – Publicado em 09/12/2017

Vladimir por várias vezes pensou em ir ao prostíbulo procurar Katerinne. Não sabia o que dizer em relação ao pedido de casamento feito pela prostituta. No entanto, tinha um enorme desejo de vê-la novamente.

Não se importava mais com o rumo que a ex-mulher havia tomado, mas ir ao prostíbulo de Katerinne era algo que o incomodava bastante. O cheiro fétido de sexo que impregnava o ambiente trazia à sua memória desagradáveis recordações.

O tempo realmente havia sido um generoso remédio para o vendedor de sapatos: havia se esquecido de Anna. As lembranças que tinha de seu relacionamento é que eram assustadoras. Não queria que nada daquilo se repetisse novamente.

Katerinne esperou durante um bom tempo que Vladimir fosse ao seu encontro. Como isto não acontecia, ela mesma foi ao encontro dele. Não se importava como seria recebida, estava disposta a lutar até o fim pelo amor daquele simplório homem.

Dessa vez, Katerinne bateu à porta de Vladimir durante a madrugada. Não foram necessárias mais do que duas batidas. Rapidamente ele abriu a porta e a convidou para entrar.

A princípio, pouco se falaram. Abraçados, sentiam o calor um do outro e perceberam como era bom compartilharem um simples abraço.

Estavam com saudades. Sabiam perfeitamente que um precisava do outro para poder continuar a viver. Por mais que Vladimir relutasse consigo mesmo, percebeu que poderia ser feliz ao lado de Katerinne. Ter sido uma prostituta ou ser uma prostituta já não tinha mais tanto peso diante daquele caloroso abraço.

– Você me perdoa? – perguntou Vladimir.

– De quê? – questionou Katerinne surpresa.

– De não ter ido ao seu encontro…

Ele confessou a Katerinne que desde o dia em que ela o pedira em casamento não pensava mais em outra coisa.

Por várias vezes, Vladimir esteve na porta do prostíbulo e não entrou. Por mais que seu coração o mandasse ir ao encontro dela, ele acabava desistindo no meio do caminho.

Talvez lhe faltasse a certeza de que não se decepcionaria com Katerinne da mesma forma com que se decepcionou com Anna. A convicção de que o outro ser humano não falhará é bastante complexa. É algo que não se tem como prever.

Creio que o fato de Katerinne ter insistido no relacionamento com Vladimir tenha sido um fator preponderante para que o vendedor de sapatos se desse uma nova oportunidade de ser feliz ao lado de uma outra mulher.

Eles ficaram alguns meses como um casal de adolescentes. Encontravam-se escondido. Estavam curtindo um namoro como nunca tinham tido. Tudo era novo, tudo era mágico para o casal que estava disposto a viver junto pelo resto de suas vidas.

Katerinne estava disposta a se mudar para uma outra cidade e começar uma vida nova. Longe de todos que a conheciam como a grande prostituta. Imaginava que, longe da cidade em que viveu durante toda a vida, tudo pudesse ser mais fácil, principalmente para Vladimir, que não teria que olhar nos olhos das pessoas como se todos o acusassem por estar vivendo com uma prostituta.

Vladimir, ao contrário do que Katerinne estava imaginando, não pensava em se mudar para outro lugar. Procurava curtir os momentos felizes ao lado da mulher que estava conhecendo e amando.

Não se incomodava mais com o passado. Nem mesmo Nikolai, o escritor que ele passou a odiar, poderia tirar a tranqüilidade em que estava vivendo. Vladimir se realizava nos braços daquela experiente mulher.

Depois que transcorreram exatos dois meses, Vladimir falou ao filho sobre o relacionamento com Katerinne. Dimitry não estava surpreso, já desconfiava do romance de seu pai.

Não foi contra a atitude do pai, tampouco demonstrou maiores interesses por aquela que poderia vir a ser sua madrasta. Dimitry estava mais preocupado consigo do que com a vida de seus pais. Nem Vladimir, nem Anna! Pensava nele e em sua francesinha.

Não demorou muito e Katerinne se mudou definitivamente para a casa de Vladimir. Era tudo o que ela sempre sonhou. Orgulhava-se por ter uma família, agora poderia dizer que realmente tinha um lar.

Cuidava de seu companheiro com toda a dedicação esperada de uma mulher apaixonada. Preocupava-se com o garoto Dimitry como se fosse seu filho. Esforçava-se por cuidar do garoto que, a princípio, mantinha distância.

Mesmo tendo saído do prostíbulo, Katerinne ainda recebia dividendos do negócio. Como não encontrou quem tivesse dinheiro suficiente para lhe comprar o estabelecimento, ela propôs uma sociedade a sua mais antiga funcionária.

Valeska ficou encarregada de continuar o negócio. Ela receberia quarenta por cento do lucro líquido do prostíbulo e o restante seria pago à Katerinne, que estava muito feliz por não mais precisar voltar àquele local.

As mulheres que trabalhavam para Katerinne não se sentiram muito à vontade com a mudança; acostumadas às antigas regras, algumas delas preferiram ir embora. Anna foi uma delas. Ganhou o mundo e não mais se souberam notícias. Muitos disseram que antes de partir, havia prometido só retornar depois de se tornar a prostituta mais rica de toda a Rússia. E disse também que os homens implorariam para beijar os seus pés.

Com o passar do tempo, as coisas foram se arrumando novamente. O prostíbulo comandado por Valeska não deixava a desejar aos padrões apresentados por Katerinne. Uma das grandes facilidades de se comandar uma casa como a de Valeska e Katerinne é que o cliente se deixa “enfeitiçar” tanto pelos olhos como pela boca… O homem se torna uma presa fácil diante de belas mulheres e excelentes bebidas.

Vladimir continuou fazendo o que mais gostava de fazer. Mesmo sendo suficiente o dinheiro que Katerinne ganhava, ele não deixou de vender sapatos. Não abria mão de ter o seu próprio dinheiro.

Katerinne e Vladimir se entendiam tão bem que pareciam ter nascido um para o outro. Era difícil de acreditar que os dois haviam passado por tantos desencontros impostos pela vida e que somente agora estavam juntos.

Felizes, passaram por algumas dificuldades como todo e qualquer casal passa, mas superaram, juntos, todos os obstáculos que surgiram no caminho.

 Uma das dificuldades foi o relacionamento entre Dimitry e Desiré. Levou algum tempo para que Desiré recebesse o pequenino Dimitry. Estava envergonhada por ter sido estuprada e preferia se manter afastada de todos do sexo oposto.

Nesse período de afastamento, Dimitry não se concentrava em mais nada. Não era mais o aluno de boas notas da escola, não mais se interessava em cuidar de seu cavalo, mantinha distância dos amigos que havia levado tanto tempo para conquistar e raramente falava com o pai e com Katerinne. Passava horas trancado em seu quarto pensando em sua francesinha.

Com um aspecto ainda mais terrível, pois estava se alimentando muito mal, Dimitry se imaginava ao lado de sua amada, caminhando pelas ruas de Paris. Dizia para si mesmo que se mudaria para França com Desiré e se tornaria um artista. Um talentoso pintor.

Mesmo relutante consigo mesma, Desiré acabou recebendo Dimitry por saber que ele ia todos os dias ao prostíbulo saber notícias suas.

Ela chorou quando o garoto entrou no quarto com uma flor na mão.

– É para mim? – perguntou Desiré.

– Claro que sim! Uma singela flor para a mais linda de todas as flores… – disse Dimitry.

Enquanto conversavam, choravam juntos. Ela por ter se deitado com um homem na expectativa de esquecê-lo, justo o homem que a estuprou. Ele se lamentava por não ter ido ao encontro e se justificava sobre o que havia acontecido na noite do estupro.

Desiré, apesar dos sentimentos que nutria pelo garoto Dimitry, precisava se recuperar do trauma que havia sofrido. Ele, mesmo ciente do fato, queria tê-la em seus braços para sempre. Dimitry estava disposto a viver com Desiré e ela não descartou esta possibilidade.

Assim que a francesinha se recuperou, mudou-se para Paris juntamente com Dimitry. Esperava levar um outro tipo de vida ao lado do homem que havia elegido para ser seu companheiro.

Todavia, as coisas não andaram muito bem para o casal. A figura assustadora de Dimitry não agradou aos franceses. Ele estava revivendo todas as dificuldades que havia passado em seu país de origem. Não se tornou um pintor, embora tenha se transformado em artista de rua.

Apresentava-se em praças públicas como uma aberração para ganhar algum dinheiro, enquanto Desiré trabalhava na única coisa que sabia fazer, pois todas as outras portas de emprego lhe foram fechadas.

Vivendo em um quartinho sujo de cortiço, não demorou muito para que os defeitos físicos de Dimitry se multiplicassem aos olhos de Desiré e, em contrapartida, a profissão de Desiré se tornasse inaceitavelmente suja aos olhos de Dimitry.

Começaram a perceber que foram precipitados quando se juntaram e foram para a França. Como as brigas aumentavam a cada dia e já não mais havia entendimento entre o casal, cada um foi para um lado diferente.

Desiré logo se arranjou em uma casa de prostituição e Dimitry trabalhou um longo tempo em um modesto circo se apresentando como O PEQUENO HOMEM SEM ROSTO.

Dimitry acabou se cansando da vida que estava levando. Não suportava mais a idéia de ser apresentado como um bicho. Uma espécie de ser, deformado, que se assemelhava a um homem.

Voltou à Rússia e encontrou seu pai de braços abertos esperando-o. Vladimir, Dimitry e Katerinne estavam juntos novamente. A francesinha ficou em Paris e sempre que podia, escrevia para Dimitry. Apesar de não terem se acertado quando estavam morando juntos, havia ao menos, uma bonita amizade que aflorou depois da separação.

Os anos foram se passando e muitas coisas foram se modificando. O tempo, inimigo implacável da vida, foi passando e com ele, muitos morreram. Outras pessoas foram embora da cidade e a grande maioria envelheceu.

CAPÍTULO 27 – Publicado em 02/12/2017

Nikolai se lembrava diariamente da discussão que havia travado com Anna. Ainda não entendia por que ele tinha ido procurá-la. Nunca a amou. Somente a desejava e agora, nem isto. Não conseguia entender o amor daquela mulher. Não aceitava a forma como ela o amava e ao mesmo tempo carregava tanto ódio no coração em relação ao próprio filho.

Queria se esquecer do mundo que havia criado juntamente com Anna no quartinho da pensão. Tudo o que aconteceu entre eles caracterizava-se como uma fuga. Fugiram de tudo e de todos e não encontraram nada. Anna estava fadada à prostituição eterna e Nikolai…

Havia algum tempo que Nikolai estava recluso em sua casa. Não saía nem mesmo para ir ao prostíbulo de Katerinne. Estava irreconhecível. Não era mais aquele homem que se preocupava com a aparência. Completamente barbudo, com as roupas sujas e sem tomar banho, passava mais de quatorze horas lendo e escrevendo.

Vivia somente para a literatura. Trabalhava todos os dias sem descanso. Nem mesmo as mulheres que sempre exerceram fascínio sobre a vida do escritor tinham vez. Justo ele, que poderia se deitar com a mulher que desejasse, não mais se interessava por nenhuma.

Algumas delas bateram na porta de sua casa, todavia o mais que conseguiram, foram alguns minutos de atenção por parte do escritor.

Nikolai havia perdido o interesse não só pelas mulheres, como também pelos amigos. Não conseguia estabelecer um diálogo a um nível razoável de compreensão entre ambas as partes. Filosofava sobre questões complexas de modo que ninguém conseguia acompanhar o seu raciocínio.

Com o passar do tempo, a bebida foi ganhando mais força na vida do escritor. Era impossível ver Nikolai sem um copo de bebida na mão. Acordava com uma garrafa de vodka à cabeceira da cama e dormia geralmente sob o efeito da bebida.

Isolou-se. Sua solidão era tamanha que nem mesmo saía de casa para comprar alimentos. Uma vizinha, a quem ele costumava chamar de Velha, era quem o alimentava.

Todos os dias, ela batia à porta do escritor para lhe deixar um prato de comida. Ele não abria de imediato. Esperava alguns minutos e assim que tinha certeza de que não havia mais ninguém em frente à porta, abria um pouquinho, de maneira que pudesse pegar o prato.

Nikolai alimentava-se como um animal aprisionado. Todavia, essa era a única maneira de evitar a sua morte por falta de alimentação, já que ele mesmo estava se impondo este tipo de tratamento.

Durante muito tempo, algumas pessoas curiosas formularam hipóteses sobre o estilo de vida que o escritor havia adotado. Muitos pensaram que Nikolai estivesse escrevendo a sua grande obra, já que trabalhava arduamente e não mostrava seus manuscritos a ninguém. Outros preferiam pensar que o escritor e poeta Nikolai S. Andreiev estava completamente louco.

Certa vez, o escritor precisou comprar material para continuar o seu trabalho e saiu de casa. Como um mendigo, caminhou pelas vielas da cidade sem ser reconhecido.

Viu alguns de seus amigos, mas preferiu não se identificar. Percebeu nos olhos de todos a repugnância que sentiam diante de sua deplorável imagem. As pessoas o julgavam pela aparência. Sentiu-se como se não fosse um ser humano, talvez um cão leproso obtivesse um pouco mais de atenção por parte de seus amigos.

Teve um leve desejo de ir ao prostíbulo, talvez lá fosse aceito. Mas, cortou caminho para não cair em tentação. Apesar da sua aparente falta de interesse pelas mulheres, às vezes, o escritor sentia falta, e muita falta, das inúmeras aventuras que tivera.

Caminhou durante horas por quase toda a cidade. Observou as pessoas, o estilo de vida que estavam levando, suas roupas, seus desejos, seus sonhos, suas ambições… Observou o dia-a-dia de que sempre fazia a mesma coisa. Eram cúmplices dos ponteiros do relógio que, por mais que girassem, sempre estavam no mesmo lugar ao nascer do Sol.

O Sol havia se posto na linha do horizonte e Nikolai decidiu voltar para casa. Não estava se sentindo muito bem.

Ele era um grande pensador. Sendo o grande homem que era, percebeu que não valia a pena viver em uma sociedade nojenta e asquerosa como a de sua época.

Homens visando ao bem próprio… A ganância sufocando todo e qualquer tipo de valor… A corrupção em vários setores dos poderes representativos do povo… A injustiça massacrando aqueles que precisavam urgentemente de justiça… A impunidade que afagava as cabeças daqueles que deveriam ter seus pescoços degolados por uma lâmina afiada… A miséria que assolava o país… A justa distribuição de renda que nunca foi realizada… A passividade de muitos em relação aos mandos e desmandos de poucos…

Tudo isso entristecia o coração do escritor. Em alguns momentos o suicídio havia passado pela sua cabeça, já que ele fazia parte daquela sociedade hipócrita e nojenta.

Tinha plena convicção de que contribuíra para que as coisas fossem daquele jeito. Não que tivesse intenção. Todavia, suas atitudes e comportamento, durante algumas fases de sua vida, misturavam-se com toda aquela sujeira.

Nikolai havia sido arrogante, presunçoso, injusto, egoísta e… Levava uma vida condizente com os padrões da sociedade. Arrependido, desejava profundamente expiar suas culpas. Não sabia como conseguiria fazer isto, talvez escrevesse um manifesto. Não tinha certeza de como iria proceder, embora tudo levasse a crer, que fosse através da literatura que ele tentava se redimir com a sociedade.

A solidão era uma excelente conselheira. Nikolai repensava toda a sua vida diante de uma nova perspectiva que poderia surgir, a partir do momento em que ele encontrasse a saída dos labirintos que o aprisionavam.

CAPÍTULO 26 – Publicado em 25/11/2017

Um lenço vermelho de seda chinesa amarrado em uma das janelas do segundo andar do prostíbulo, foi o sinal que Dimitry combinou com Desiré, para que ele provasse aos colegas que havia cumprido a aposta.

A francesinha recusou o dinheiro do garoto. Não quis receber o pagamento pelo serviço que havia prestado. Todavia, impôs uma condição: exigiu que ele voltasse todos os sábados, no final do expediente.

Dimitry, a princípio, pensou que não estivesse entendendo muito bem o que a mulher estava lhe dizendo. Depois que ela lhe explicou, pela segunda vez, o garoto sentiu uma felicidade inexplicável. Aproximou-se dela para poder lhe dar um beijo, mas ela lhe virou a face. Pediu que ele fosse embora e voltasse na semana seguinte.

Ele obedeceu. Saiu sem entender o motivo da recusa do beijo, embora tenha se lembrado que em momento algum, durante a relação com a francesinha, eles haviam se beijado.

Ela ficou o resto da manhã abraçada em seu travesseiro, sentindo o cheiro do garoto Dimitry impregnado no lençol da cama, perguntando-se o que estava acontecendo, o que era aquilo que estava sentindo.

Os garotos quando encontraram com Dimitry quiseram saber de todos os detalhes da noite. O pequenino tropeçava nas próprias palavras. Queria descrever todas as sensações que tivera ao mesmo tempo e acabou não conseguindo.

Um dos meninos não acreditou no que Dimitry estava contando. Foi preciso que ele visse o lenço vermelho amarrado na janela para que passasse a dar credibilidade às palavras do garoto.

Aquela semana foi especial para o pequeno Dimitry. Todos os outros garotos queriam estar perto dele, queriam ouvi-lo, queriam compartilhar de sua história. Era uma experiência única que nenhum outro garoto de seu convívio havia passado. Ele era único. Diferente! Agora, diferente em um sentido prazeroso.

Sentia-se bem. Estava completamente à vontade com os amigos. Sentia-se um verdadeiro homem. Não era mais um garoto, ele já conhecia os prazeres do sexo. Era um homem capaz de proporcionar prazer a uma mulher.

Como o sexo lhe fizera bem! Não via a hora de se encontrar novamente com Desiré para que pudesse repetir a maravilhosa noite nos braços da francesinha que havia lhe apresentado um mundo novo.

Desiré passou toda a semana pensando no garoto de face assustadora. Esforçava-se para se esquecer daquele rosto, mas não conseguia. A todo o momento, deparava-se pensando em Dimitry.

Estava totalmente envolvida, embora não quisesse admitir. Evitou, durante toda a semana, ter relação com outros homens. Disse à Katerinne que estava enferma e que preferia não trabalhar, pois poderia deixar os clientes do prostíbulo doentes.

Os dias da semana se passaram lentamente para a francesinha que aguardava ansiosamente o reencontro com o garoto. Seu corpo estremecia ao se lembrar da única vez em que estiveram juntos. Estava disposta a se entregar novamente aos braços do garoto, sem se preocupar com todos os questionamentos que ela mesma fazia.

Sábado… O expediente na casa de Katerinne estava se encerrando. Desiré, perfumada e arrumada como se fosse trabalhar, não desceu. Aguardava em seu quarto a visita do garoto que não aparecia.

Com os olhos grudados no relógio, sentia uma enorme agonia a cada volta do ponteiro. Seu coração disparava cada vez que alguém abria a porta. Eram sempre as mesmas pessoas; as mulheres que trabalhavam no prostíbulo, alguns homens bêbados que erravam o caminho para outros quartos… Todos! Menos Dimitry, o garoto que era aguardado com grande expectativa.

Vladimir havia voltado de viagem naquele sábado. Dimitry bem que tentou ir ao encontro de Desiré, mas não conseguiu. Seu pai acabou adormecendo na sala e o garoto ficou impossibilitado de passar pelo pai sem despertar a atenção.

Pensou em pular a janela, todavia desistiu de tamanha façanha. Sua pequena estatura não era condizente com a altura proposta. Com certeza, fraturaria alguns ossos na queda.

Era um jovem potro no cio preso em um curral. Seus sentidos, mais que aguçados, exigiam-lhe que ele saísse daquela prisão e fosse ao encontro da bela francesa. Todavia, sabia que sua atitude não seria agradável aos olhos do pai, já que estava proibido de ir ao prostíbulo visitar a própria mãe.

Acabou desistindo de ir se encontrar com Desiré e passou a noite toda se masturbando.

Assim que Desiré percebeu que Dimitry não mais apareceria, decidiu descer até o salão para beber um pouco de vodka. Havia poucas pessoas, dentre elas, um belo homem chamado Victor.

Ele rapidamente se ofereceu a pagar uma bebida para a insinuante francesinha. Havia acabado de chegar à casa de Katerinne e se lamentava porque estava na hora do fechamento do estabelecimento.

Desiré não sabia muito bem o que estava fazendo. Decepcionada por não ter tido uma noite ao lado de Dimitry, convidou Victor a subir até seu quarto. Pensava em pôr um ponto final na rápida história que havia tido com aquele diferente garoto.

Incomodada nos braços de um homem estranho, esforçava-se em visualizar a face marcada de Dimitry. Não adiantava. Não era ele. Aquele homem não tinha o cheiro, não tinha a pele, não tinha o corpo de Dimitry… Aquele homem não era o garoto… Não era o pequenino Dimitry… Estava apaixonada.

Antes que ele chegasse a um orgasmo, pois ela não estava sentindo nenhum prazer, Desiré se levantou da cama e se cobriu sem dar melhores explicações. Apenas pediu a Victor que a desculpasse e que fosse embora.

Ele não lhe obedeceu, sequer deu ouvidos ao que a moça estava dizendo. Agarrou-a de forma violenta e a jogou novamente em cima da cama. Os gritos dela foram abafados com um travesseiro, enquanto ele a estuprava.

Ela tentou lutar contra Victor, embora tenha sido inútil. A força dele era superior e o desejo que o dominava deixava-o semelhante a um animal irracional. Não se importou em momento algum em respeitar aquela mulher… Aliás, respeito era uma palavra que, decerto, ele não conhecia.

Desfalecida, Desiré não sentiu as pancadas que havia levado no rosto. A brutalidade com que foi tratada deixou vários hematomas por todo o corpo. Era injustificável a atitude que aquele homem teve para com uma mulher que ele havia acabado de conhecer. Um louco! Somente um louco poderia cometer tamanha agressão.

O dia já estava claro quando Desiré foi encontrada por Martinna. A mulher se assustou ao ver o estado em que a francesinha se encontrava. Houve um tremendo alvoroço no prostíbulo de Katerinne e imediatamente providenciaram cuidados médicos para a jovem prostituta.

Tentaram organizar uma comitiva para encontrar o homem que havia feito aquilo, mas não conseguiram. Segundo algumas informações, Victor era um viajante que estava somente de passagem pela cidade, ninguém o conhecia.

Providenciaram um cerco pelas estradas de acesso à cidade, todavia foi vã a tentativa. O homem havia fugido sem deixar pistas. Seus rastros foram encobertos por uma maldade incomensurável.

Não demorou muito e toda a cidade ficou sabendo do que havia acontecido no prostíbulo de Katerinne. Algumas mulheres diziam que o fato acontecido provinha da parte de Deus… Que deveria ser castigo do Criador dos céus e da terra. Outros, diziam que o demônio havia visitado o próprio lar, deleitando-se com tudo aquilo que lhe pertencia.

Houve, também, pessoas que se compadeceram da dor sofrida por Desiré. Na verdade, era uma pequena minoria, contudo, eram pessoas que se importavam definitivamente com o sofrimento de um ser humano… Pessoas que se importavam… Importavam-se… Com os outros… Importavam-se com o próximo. Pessoas que se importavam com outras pessoas!

Dimitry chorou amargamente quando soube do fato. Culpou-se por não ter ido ao encontro como havia combinado. Precisava de notícias e não esperou que o pai saísse de casa para ir ao prostíbulo.

– Aonde você vai? – perguntou Vladimir ao filho.

O pequenino Dimitry ouviu a pergunta do pai próximo à porta e não se deu nem ao trabalho de responder. Bateu a porta e foi rapidamente para a casa de Katerinne em busca de notícias.

A primeira pessoa com quem Dimitry encontrou assim que chegou ao prostíbulo foi com sua mãe. Havia algum tempo que ele e Anna não se encontravam. Os dois se assustaram com o reencontro repentino.

– Que faz aqui? – perguntou Anna ao filho.

– Vim saber como está a moça… Desiré. – respondeu timidamente Dimitry.

– Ah! É! É verdade! Você andou comendo a francesinha, não foi? Ela é mesmo uma idiota… Agora anda fazendo caridade. Era só o que faltava. Abrir as pernas pra uma coisa como você…

– Como é que soube?

– As coisas que acontecem aqui… Bem! Tudo o que se passa aqui dentro, acaba sendo de conhecimento de todos. Inclusive o que aconteceu entre vocês, seu filho do demo…

– Por que você me odeia tanto? Qual foi o mal que eu te fiz? Será que não basta eu ter que carregar todas estas imperfeições para o resto da vida? Será que tenho que ouvir todas as suas agressões sempre que eu me encontrar com você?

– Só há um jeito para isso… Um, não! Dois!

– E qual é? – questionou Dimitry.

– Ou você evita se encontrar comigo, ou você… Ou você faz um favor pra nós dois e… Morre!

Uma sonora gargalhada ecoou pelo prostíbulo. Era Anna que saía da presença do filho depois de ignorá-lo mais uma vez.

Dimitry não se abateu com a atitude da mãe, mesmo tendo plena certeza de que nunca seria aceito por ela. Estava decidido que não mais tentaria entender os motivos de sua mãe.

Anna não se importava nem um pouco com a vida do filho. Nem ela mesma saberia explicar de onde vinha este sentimento de repúdio pelo garoto. Queria continuar levando sua vida como se nunca houvesse tido um filho chamado Dimitry.

Agora, o pequenino Dimitry só se importava em saber notícias de Desiré. Conversou com Katerinne que o tranqüilizou sobre o estado de saúde da francesinha. Em algumas horas ela acordaria e ele poderia entrar no quarto por alguns minutinhos para vê-la.

Enquanto esperava para ter uma palavra com Desiré, Dimitry pensava em como seria sua vida daquele momento em diante.

Estava apaixonado pela francesinha. Tinha certeza de seus sentimentos, embora não soubesse o que se passava no coração da moça. Isso era o que mais o assustava.

As incertezas o torturavam a todo instante. Havia inúmeras perguntas sem respostas.

CAPÍTULO 25 – Publicado em 21/11/2017

Eram três horas da manhã e eu ainda não havia conseguido dormir. Lembrava-me de muitas histórias sobre o escritor Nikolai Andreiev. Achava fascinante a forma como ele relatava os acontecimentos de sua vida para mim. Poderia ficar horas a fio, ouvindo-o e não me cansaria.

Esperava que ele pudesse aparecer de uma hora para outra, como na noite anterior. Não demorou muito para que isso acontecesse.

Exatamente às três horas e vinte e cinco minutos, meu amigo Nikolai retornou ao quarto. Cabelos molhados… Passos lentos… A boca, entreaberta, salivava constantemente… Olhar vago que percorria todas as dimensões do quarto como se tudo aquilo não fizesse parte de sua realidade, ou quem sabe se para constatar que toda a sujeira do quarto ainda permanecia inamovível, já que ele pegava parte do lixo e observava com os olhos questionadores.

Haviam passado exatas vinte e quatro horas e a cena se repetia novamente. O silêncio que havia se apossado do ambiente praticamente me obrigava a ficar quieto. Seus olhos me diziam muitas coisas e mais uma vez, percebi que ele queria ficar sozinho.

Desta vez, decidi não sair do quarto. Fiquei parado, esperando que ele me dissesse o que havia acontecido. Queria ouvir da sua boca qual o motivo que levava aqueles homens a agirem daquela maneira. Precisava de algumas respostas, afinal, não era ele mesmo que dizia que eu era um grande amigo?

Ele não me disse nada. Sentou-se na cama, limpou a saliva que invadia seus lábios e tentou escrever. Em pouco tempo deixou as folhas caírem no chão desistindo de fazer o que mais gostava. As mãos não obedeciam aos seus comandos.

Deitou-se. Todavia não dormiu. Seus olhos estavam o tempo todo abertos. Totalmente vigilantes. Talvez estivesse com medo de que os homens que o haviam levado retornassem mais uma vez.

Uma mosca sobrevoou sua cabeça, deixando-o bastante irritado. Como não tinha forças para levantar os braços e matá-la, esperou que ela se aproximasse de sua boca. Assim que ela estava em frente aos seus lábios, ele abocanhou o inseto, livrando-se definitivamente daquele inconveniente intruso.

A princípio, assustei-me com aquela cena, entretanto logo me esqueci do que havia acontecido devido à cantoria que se instalou em nosso quarto. Cantoria sim! Nikolai cantava antigas canções, dizendo ser de sua infância e adolescência. Sorria como uma ingênua criança.

Talvez eu não soubesse muita coisa a respeito dele como supunha. Com certeza, houve momentos importantes e felizes que eu desconhecia por completo. Acreditava que todas aquelas músicas fizessem parte de um passado feliz.

Mistério! Ele era um homem de muitos mistérios. Arriscar-me-ia a dizer que Nikolai Andreiev era um homem indecifrável. O seu silêncio, às vezes, era insuportável aos meus ouvidos.

Observei-o durante alguns minutos com a esperança que ele mudasse de idéia e pusesse a conversar comigo. Estava ansioso e pronto para ampará-lo, caso precisasse de meus cuidados.

Nada acontecia. Estávamos entre quatro paredes, isolados de tudo e de todos, egoisticamente com nossos próprios pensamentos, nossas idéias, nossas verdades, nossas vontades, nossas vidas… Éramos incapazes de desenrolar o novelo, prender a linha em um ponto qualquer, para tentar achar a saída do labirinto.

Quando eu não mais esperava nenhuma reação por parte de meu amigo, ele pediu que eu pegasse alguns manuscritos em baixo da cama e me pusesse a ler em voz alta.

O fato é que eu não conseguia achar suas anotações. Toda aquela sujeira dificultava minhas buscas. As sacolas de plásticos, os pedaços velhos de madeira, as caixas de papelão e todo o resto impediam-me de localizar os registros que ele desejava.

– Em baixo do piso falso. – disse Nikolai quase num sussurro.

Foi neste exato momento que me dei conta de onde estavam suas anotações. Havia uma espécie de compartimento secreto que passava totalmente despercebido. Creio que pelo tamanho, pois deveria ser um pouco maior que uma caixa de sapatos e principalmente por toda a sujeira.

Havia no esconderijo mais de quinhentas páginas. A maioria das anotações feita a lápis. Entretanto, Nikolai havia me dito para procurar somente as páginas a que ele se referia aos nossos vizinhos. Estas páginas estavam marcadas de vermelho, a maioria delas com um desenho em forma de L.

Fiquei bastante contente, pois com certeza o restante da história sobre Anastácia estaria ali. Estava curioso para descobrir o que havia se passado nas quatro décadas que Nikolai havia suprimido do texto.

Depois que separei todas as folhas marcadas de vermelho, comecei a procurar por alguma anotação que falasse a respeito de Anastácia. Não encontrei absolutamente nada. Decepcionado, perguntei a Nikolai se existia algum outro documento que falasse sobre nossa vizinha.

– Leia sobre Petrovic. – disse Nikolai.

O escritor não respondeu a minha pergunta e me pediu que lesse para ele sobre o nosso vizinho do 102. Petrovic, este era o nome do gordo.

Folheei algumas páginas e rapidamente encontrei um texto que dizia o seguinte:

Um Homem Chamado Petrovic

Havia nascido em berço de ouro. Sempre teve de tudo. Tudo do bom e do melhor. Não conhecia adversidades, pois a vida sempre foi generosa com ele. Filho único, não precisava dividir as atenções com ninguém e queria sempre ser o alvo de todos os olhares.

Tinha vários criados à sua disposição e se utilizava deste privilégio para humilhar aqueles que o serviam.

Certa vez, na sua adolescência, ordenou que uma criada tirasse a blusa dele para poder passar novamente, pois ele insistia em dizer que a roupa estava amarrotada. Ela passou a mesma blusa seis vezes e ainda levou um tapa na face para que não se esquecesse da forma como ele queria as roupas.

Os pais enalteciam as atitudes do filho, mesmo quando ele estava passando por cima dos direitos das outras pessoas. Eles acreditavam que a criadagem tinha a obrigação de servi-los da melhor maneira possível independentemente do tratamento que recebessem. Os vassalos deveriam se sentir orgulhosos por receberem corretivos por parte de qualquer membro da família.

O jovem Petrovic foi crescendo sem conhecer limites. Tudo lhe era permitido. A palavra NÃO havia sido excluída de seu vocabulário.

Preguiçoso, não gostava de estudar. Passava a maior parte do tempo gastando o dinheiro que o pai lhe dava com roupas e diversões. Mesmo tendo tudo o que queria, sentia inveja dos outros garotos de sua idade.

Os pais não se preocupavam com o futuro financeiro do filho, já que o patrimônio que eles possuíam era de valor quase incalculável. Pensavam que o filho nunca precisaria de trabalhar.

Petrovic corroborava a mesma idéia e, com o passar dos anos, dedicou-se a aproveitar tudo o que a vida pudesse lhe oferecer. Experimentou coisas boas e muitas coisas ruins.

Com a morte dos pais, ele teve que assumir os negócios da família. Nunca pisou na sede das empresas de seu pai, simplesmente ordenou que transferissem o escritório central para a casa em que morava.

Diariamente dava festas em sua casa. Era comum Petrovic ser visto com uma garrafa de vinho em uma das mãos e uma coxa de peru assado na outra. Nunca souberam explicar por que ele gostava tanto destas iguarias.

Também eram comum as mulheres o rodearem. Mulheres interessantes, interessadas em sua fortuna. Petrovic não era um homem bonito, tão pouco atraente. Tinha uma barriga proeminente que o deixava totalmente deselegante. Não havia roupa que lhe caísse bem.

A casa vivia cheia de supostos amigos e convidados que se deliciavam de tudo o que o anfitrião lhes oferecia. Pessoas sem personalidade que se sujeitavam a todos os caprichos de Petrovic, somente para tirarem algum proveito. Estavam dispostos aos maiores absurdos, somente para chamar a atenção do afortunado unigênito.

Eram festas e mais festas… Mulheres de todos os tipos e índoles diferentes… Comidas as mais variadas… Bebidas nacionais e importadas que atendessem a todos os gostos… Tudo em grande quantidade de forma que sempre houve grandes desperdícios.

Petrovic jamais doou um quilo de carne para um asilo ou orfanato. Preferia deixar quilos de comida apodrecerem a dar uma simples ordem a um de seus empregados para distribuírem a comida.

Os empregados da empresa, por mais que se esforçassem em chamar a atenção do novo chefe para uma tomada de posição perante os negócios, eram sempre ignorados. Terminavam suas frustradas tentativas de reuniões bebendo champanhe e fornicando com as mulheres de Petrovic.

Ele não se importava. Eram tantas as mulheres que até sentia prazer em vê-las nos braços de outros homens. Creio que ele jamais tenha amado alguém em toda a vida. Mesmo tendo todas aquelas mulheres à sua volta, era um homem solitário. Às vezes, confessava de si para si toda a infelicidade que sentia e não sabia explicar de onde vinha esta sensação, já que possuía tudo o que qualquer ser humano gostaria de ter.

Amante da fortuna apostava enormes quantias nos mais variados jogos de azar que se possa imaginar. Acreditava que multiplicaria seu patrimônio através das frustradas tentativas nos jogos em que participava.

Adorava utilizar a frase “Você sabe com quem está falando” perante as autoridades da época, com o intuito de intimidá-las e de se livrar das inúmeras bobagens que cometia.

Durante muito tempo Petrovic se satisfez com os sete pecados capitais de forma tão intensa que não se deu conta dos anos que se passaram.

Velho e doente, ainda não tinha percebido por que todas as pessoas que freqüentavam sua casa haviam desaparecido. Sentia falta das festas que durante anos embalaram sua vida e agora… Restavam alguns copos quebrados espalhados pela casa, algumas sobras que apodreciam pelos cantos, por que não existiam mais os empregados para limpar… Restava o som do violino que alegrava as noites de verão presenciando o estalar das taças de champanhe que brindavam à fortuna interminável do anfitrião, mas, somente na confusa cabeça de Petrovic.

Ele não tinha mais nada. Aliás, havia algo que ele possuía e ninguém sabe explicar o porquê. Era a amizade incondicional de uma mulher chamada Yvanova.

Ela era a única pessoa que durante o período em que ele ainda não havia perdido a mansão em que vivia, levava comida para que Petrovic não morresse de fome.

Yvanova era a mulher que havia sido humilhada várias vezes por Petrovic. A mesma mulher que ele um dia havia feito passar sua roupa seis vezes e ao invés de agradecer-lhe, esbofeteou-a.

Ela jamais guardou rancor do homem que lhe bateu na face, ao contrário, simbolicamente lhe dava a outra face, quando o alimentava e cuidava das feridas que começavam a surgir em Petrovic.

Fim.

Assim que terminei de ler o trecho sobre Petrovic, olhei para Nikolai e ele já estava dormindo. Provavelmente havia pegado no sono durante minha leitura.

Havia outras anotações que se referiam a Petrovic, no entanto, não complementavam o que eu havia acabado de ler. Creio que somente Nikolai conseguiria mesclar as anotações de maneira que todo o seu trabalho pudesse fazer sentido.

Sentido! Era o que eu sempre buscava quando me deparava com as anotações de meu amigo. Confesso que era uma tarefa árdua tentar desvendar os significados que estavam nas entrelinhas do trabalho de Nikolai S. Andreiev.

Como eu estava de posse de todo aquele material e Nikolai se encontrava dormindo, decidi ler mais algumas anotações. Leria até encontrar algumas respostas sobre a eterna busca do ser, ou até que meu amigo acordasse…

CAPÍTULO 24 – Publicado em 17/11/2017

O vendedor de sapatos, Vladimir Svalonilov, lutava dia e noite contra dois “demônios” que insistiam em atormentá-lo: Katerinne e Anna. Estavam sempre em seus pensamentos, em seus sonhos, em sua vida… Constantemente a imagem das mulheres passava diante de seus olhos.

Travava uma batalha consigo mesmo para se esquecer de que havia sido casado com a prostituta Anna e se esforçava para se lembrar da noite que havia passado com a prostituta Katerinne, embora afirmasse para si mesmo que não mais se envolveria com nenhuma mulher, principalmente uma prostituta.

Katerinne já não era mais a mesma. Estava mais calma, às vezes, parecia distante de tudo e de todos. Carregava na face um sorriso estampado, como outrora, no tempo em que dormia com Nikolai.

Era evidente o estado de felicidade em que se encontrava. Todos queriam saber o que estava acontecendo, porém, ela não pronunciava uma única palavra a respeito do que estava passando em sua vida.

Evitava as noites agitadas, que ela mesma proporcionava em sua casa aos diversos clientes que possuía. Descia somente para dar algumas ordens e verificar se tudo estava de acordo com sua vontade. Depois, voltava para seu quarto e só aparecia na manhã seguinte.

Ela evitava o contato com todos aqueles homens. Parecia ter perdido o interesse pela profissão. Justo ela, que sempre desempenhou bem sua função. Uma mulher respeitada por todos como uma grande prostituta.

Pode parecer engraçado, mas não é! Katerinne era uma mulher forte e muito respeitada. O fato de ela ser a dona de um prostíbulo não a descaracterizava como uma personalidade de respeito na cidade. Pelo menos em relação aos homens que, literalmente, comiam em sua mão.

Foi em uma manhã de quarta-feira que Katerinne saiu de casa sem que ninguém percebesse. Caminhou em direção à casa de Vladimir e ficou espiando a movimentação por detrás de um tronco de árvore que estava caído.

O tempo estava nublado. O frio já se fazia presente. Talvez por esses motivos, as vielas estivessem vazias. Quase não se viam as pessoas transitarem por aquele local.

Dimitry, devido às horas, deveria estar no colégio. Vladimir provavelmente se encontrava sozinho em casa.

Katerinne sentia um grande impulso que a direcionava a bater na porta do vendedor de sapatos. Entretanto, algo lhe dizia que não era sensato fazer o que seu coração lhe ordenava.

Caminhou em direção à porta da casa e parou. Levantou a mão direita com o intuito de bater e logo desistiu. Deu um passo para trás, ainda sem se virar, e fitou durante alguns segundos a porta da casa daquele homem por quem tinha se apaixonado perdidamente.

Os segundos se transformaram em minutos e ela continuava na mesma posição. Parecia uma estátua. Limitava-se a mexer somente os olhos. O frio aumentava e ela já pensava em voltar para sua casa quando a porta se abriu.

– O que faz aqui? Não fique aí fora! Deste jeito, você vai acabar contraindo pneumonia. – disse Vladimir.

E pegando nos braços de Katerinne, conduziu-a para dentro da casa. A princípio estranhou muitíssimo a visita inesperada daquela mulher, todavia, percebeu que teria a oportunidade de esclarecer tudo o que havia acontecido entre eles.

Ele preparou um chá e acendeu a lareira para que ela pudesse se aquecer. Katerinne se sentia protegida naquela humilde casa. Era tudo o que ela sempre tinha sonhado viver, só lhe faltava coragem para começar a dizer o que pretendia com aquela visita.

Antes que ela terminasse de tomar o chá, Vladimir não se conteve e pediu que lhe contasse os detalhes da noite em que estiveram juntos na casa dela. Katerinne simplesmente sorriu.

– Do que é que você está rindo? – perguntou curiosamente Vladimir.

– Dos detalhes…

Ela já estava mais à vontade e respondeu a ele a verdade sobre aquela noite. Disse que nada tinha acontecido entre eles. Que apesar de estarem nus e de terem dormido abraçados, nada havia acontecido. Ele não estava acreditando que no momento em que iam se amar, ele acabou dormindo, vencido pela bebida.

– Não pode ser! – exclamou Vladimir.

Ele se sentiu envergonhado. Não sabia exatamente explicar por que estava se sentido assim, o fato é que ele se incomodou muito por não ter tido nenhuma relação com Katerinne.

Ela ficou confusa. Estava alegre por sentir que Vladimir a desejava, embora tenha se entristecido ao imaginar que a atitude dele pudesse ser um simples ato machista.

Vladimir, percebendo que poderia estar sendo grosseiro perante Katerinne, pediu desculpas.

A mulher, ainda sem dizer o motivo que a tinha levado à casa dele, acenou negativamente com a cabeça e disse que não havia nenhum problema. Os dois se olharam nos olhos de relance por alguns segundos.

Vladimir resolveu quebrar o silêncio perguntando o que ela queria. Katerinne que havia decorado palavra por palavra o que dizer ao vendedor de sapatos, acabou se engasgando e começou a gaguejar.

– Eu não estou entendendo nada. – disse Vladimir.

Ela respirou fundo, aproximou-se dele e o beijou. Vladimir queria se afastar, não suportava a idéia de um outro relacionamento. Não poderia ter seus lábios tocados pelos impuros lábios de uma meretriz.

Todavia, seus desejos falaram mais alto que sua aparente vontade e seus princípios. Entregou-se aos braços daquela mulher com tanta ânsia, que se sentiu um prostituto.

Vladimir era um prostituto. Um prostituto que se alegrava nos braços de uma mulher, em que ele atiraria não só a primeira pedra, mas todas as pedras, caso tivesse oportunidade para isso.

Jamais havia passado por momentos tão agradáveis como aqueles, nos braços de Katerinne. Não assimilava todas as sensações vivenciadas. Confundia-se em meio a pernas, boca, seios, braços, mãos e carícias envolventes daquela mulher.

– Eu quero me casar com você! – disse Katerinne ainda nos braços de Vladimir.

Tudo havia terminado com aquela simples frase. Parecia que todo o mundo havia desabado em cima do casal. Vladimir não suportava o peso daquelas palavras, tamanho era o impacto com que as recebia.

Ele a empurrou com violência para o outro lado da cama. Todos os momentos agradáveis que haviam passado juntos tinham se dissipado por aquela única frase.

– A gente pode mudar para uma outra cidade. Não precisamos mais viver aqui… Podemos começar uma vida nova. Eu, você e seu filho. – continuou Katerinne.

Ele estava atordoado com tudo o que tinha acabado de acontecer. O sexo… O pedido de casamento… Uma prostituta… Era difícil de ele absorver todos aqueles acontecimentos de um momento para o outro.

Katerinne se reaproximava com beijos e carícias. Declarava-se ao homem a quem dizia estar apaixonada. Estava disposta a mudar de vida. Venderia o prostíbulo e viveria em qualquer parte da Rússia em que ele desejasse morar.

O vendedor de sapatos se perdia em meio às próprias palavras. Falava em princípios, em moralidade, em seu fracassado relacionamento com Anna dizendo não mais querer sofrer tudo o que ele já havia sofrido.

Ela jurava amor eterno. Dizia que seria fiel, pois não havia encontrado homem tão distinto como ele. Vladimir estufava o peito quando recebia elogios, embora soubesse que não fosse digno de alguns.

O próprio preconceito que nutria em relação a Katerinne deixava claro que ele possuía suas fraquezas… Suas limitações. Não sabia se seria capaz de conviver ao lado de uma prostituta, ou melhor, ao lado de uma ex-prostituta. Sabia que esta dúvida sempre estaria incutida em sua cabeça.

Viver ao lado daquela mulher seria ter sempre um fantasma o assombrando a todo instante. Vladimir precisava se esquecer de alguns acontecimentos que marcaram sua vida e a de outras pessoas que estavam próximas dele.

Não assumia! Não era capaz de admitir, mas o nome de Nikolai Andreiev ainda o incomodava. Dizia que tudo já havia sido superado, entretanto era visível o seu desprezo em relação a tudo que lembrasse o escritor.

Vladimir sabia que Katerinne havia sido amante de Nikolai e este fato era um complicador a mais, para que aceitasse o pedido de casamento.

Katerinne, percebendo que ele estava confuso, incapaz de responder ao que ela havia lhe proposto, vestiu-se e antes de ir embora, disse que já havia vivido um amor, também não correspondido, como o dele. Mesmo assim, estava disposta a se dar uma chance. Queria amar novamente e queria ser amada por ele.

– Quando tiver uma resposta para mim, você sabe onde me encontrar – disse Katerinne próxima à porta.

Vladimir ficou pensativo por alguns minutos. Como não poderia ficar o dia todo em casa, saiu para vender alguns pares de sapatos. Talvez o exercício de sua profissão acalentasse o seu espírito e o ajudasse a dar respostas imposta pelo coração.

CAPÍTULO 23 – Publicado em 13/11/2017

Nikolai terminou o romance TRAIÇÃO E MORTE NO COVIL DA PROSTITUTA em tempo recorde. Foram exatos quarenta e três dias. Talvez o fato de ele ter ficado recluso em sua casa por um mês, devido à visita de Vladimir Svalonilov tenha contribuído para tão rápida conclusão.

Desde que o marido traído tinha saído da casa do escritor, carregando armas e dizendo que não gostaria de encontrá-lo novamente, Nikolai evitava sair de sua residência.

Estava com medo. Temia encontrar-se com o vendedor de sapatos pelas ruas da cidade, portanto, empenhou-se no trabalho e procurou se esquecer das ameaças que havia sofrido.

Durante todo o tempo em que trabalhava pensava nas mulheres que já havia tido, embora uma mulher em especial viesse com mais freqüência à sua mente; Anna…

Havia duas forças que regiam a vida daquela mulher. O bem e o mal se fundiam de uma forma tão complexa que ninguém era capaz de discernir o verdadeiro ser de Anna.

Vivia em labirintos. Caminhava pelos extremos da vida. Era incapaz de amar o próprio filho, todavia se entregava a paixões desenfreadas e desmedidas como foi o relacionamento com o escritor.

Desejava a liberdade. Queria ser livre, enquanto mantinha o filho dentro de casa, escondido de uma sociedade podre e narcisista, que poderia se assustar com a fisionomia do pequenino Dimitry.

Pensava em voar… Ir para bem longe do marido e do filho. Somente assim seria feliz. Não se importava se para isto outras pessoas se tornassem infelizes. Não fazia diferença se os outros sofressem por sua causa.

Essa era a mulher que intrigou o escritor Nikolai durante todo o tempo em que estava sozinho. Uma mulher que pensava somente em si e que não era tão diferente dele, ao contrário do que ele imaginava.

Repensou seu relacionamento com Anna e por inúmeras vezes chegou a uma mesma conclusão: eles haviam criado um mundo só para si, onde tudo era permitido, menos a realidade. O escritor se assustou quando percebeu que também vivia em labirintos.

Apavorou-se mais ainda quando refletiu por alguns minutos e teve plena convicção de que todas as pessoas que conhecia também viviam em labirintos. Cada um no seu. Todos confusos e procurando saídas. Existiam labirintos pessoais… Coletivos… E o mais interessante é que se entrelaçavam uns com os outros formando um grande e complexo emaranhado de labirintos.

Nikolai precisava respirar. Não queria mais acender seus intermináveis cigarros e ter que conversar consigo mesmo. Precisava sair de sua casa ou enlouqueceria… Desejava beber vodka com os amigos, conversar sobre o seu mais novo livro… Queria se encontrar com Anna ou quem sabe, ir para a cama de uma mulher qualquer.

O escritor foi recebido com uma salva de palmas pelos freqüentadores do prostíbulo. A casa estava animada e ficou ainda mais eufórica com a volta do “filho pródigo”.

Katerinne foi conversar com ele, embora não estivesse entusiasmada como das outras vezes. Nikolai notou a frieza dela, entretanto não deu muita importância. Conversaram durante algum tempo até que Nikolai perguntou de que se tratava a fila formada no lado esquerdo próximo à escada.

– Acho que você não vai querer saber! – disse Katerinne seriamente.

– Como não? Se estou perguntando é por que tenho curiosidade em saber do que se trata. – respondeu o escritor.

– Anna! Trata-se de Anna. Sua ex-amante… Agora! Amante do povo…

O escritor perdeu todo e qualquer contato com o mundo exterior. Estava em êxtase. Olhava fixamente para os rostos de todas as pessoas que estavam na fila esperando uma oportunidade para possuírem a bela… A maléfica… A ardente… A fria Anna.

A alma havia se ausentado daquele corpo por alguns instantes e ele não pôde ouvir mais nada do que Katerinne lhe falava.

Instintivamente pegou o copo e de uma só tragada, engoliu a vodka que lhe desceu amargamente. Levantou-se e ficou em pé, na fila, atrás da última pessoa que lá se encontrava.

Não tinha noção do tempo. Poderia se deduzir que a cada passo dado adiante, correspondesse a uma hora, já que para atender a todos que procuravam pelos seus serviços, a prostituta reservava somente uma hora para cada cavalheiro.

O dia estava quase clareando quando Nikolai se deparou com a porta do quarto fechada. Pôde ouvir tudo o que se passava lá dentro entre Anna e um cliente qualquer que ele sequer imaginava quem pudesse ser.

Sua alma tinha voltado ao corpo e ele não sabia por que estava naquela fila, vendo todos aqueles homens possuírem a mulher que até pouco tempo pertencia somente a ele.

Assim que a porta se abriu, ele viu um homem magro, de meia idade, arrumando os suspensórios e deixando algumas moedas em cima da cama de Anna. O homem olhou para ele, sorriu e lhe disse que valia a pena pagar todo aquele dinheiro.

Nikolai nada respondeu. Esperou que o esquelético homem saísse do quarto e fechou a porta.

Anna, com os olhos interrogativos, nada disse. Esperava que o escritor lhe falasse algo. Talvez desejasse ouvir palavras de arrependimento ou até mesmo uma proposta de reconciliação. Era difícil saber ao certo o que se passava em sua cabeça. O fato é que ela estava decidida a não dizer nada enquanto ele não se pronunciasse.

O escritor caminhava vagarosamente pelo quarto observando todos os objetos que faziam parte daquele ambiente. Seu olhar era minucioso, nada passava despercebido aos seus olhos. O cheiro de sexo, que impregnava o recinto, vinha ao encontro de suas narinas, provocando náuseas.

Ela continuava na mesma posição desde que ele havia entrado no quarto. Sentada na cama, recostada à cabeceira com uma pequena almofada entre as pernas. Acompanhava cada passo, cada gesto, cada suspiro dado pelo homem a quem dizia estar disposta vender a alma ao diabo.

Sem nada dizer, Nikolai se pôs a tirar as roupas. Peça por peça. Vagarosamente se despia sem desviar o olhar dos olhos da mulher desejada. Anna continuava esperando que ele lhe dissesse algo, mas foi em vão sua espera.

– O que pensa que está fazendo? – perguntou Anna.

– Me despindo. Não está vendo? – respondeu instintivamente o escritor.

– É claro que estou vendo! Não sou cega! Sou prostituta…

– E por que você acha que estou nu? Há algum tempo venho esperando por este momento…

– E vai continuar esperando mais um bom tempo…

– Qual é o preço?

– Você não pode pagar…

– Diga! Vamos, Anna! Diga!

– Já disse que você não pode pagar!

– Claro que posso! Se qualquer um desses beberrões que passaram a noite com você puderam, é claro que eu posso também…

O escritor foi em direção ao paletó que estava jogado no chão e pegou um saquinho de moedas. Abriu, contou para ver quanto tinha e jogou umas quinze moedas em cima da cama.

– Acho que isso é mais do que qualquer um destes ratos te deu hoje à noite. – disse o escritor.

– Filho-da-puta! Você sabe que os sentimentos que nutria por você não acabaram da noite para o dia. Eu deitaria com você de graça se me tratasse com respeito. Mas você… Você… Realmente não vale a pena!

– Respeito?! Como posso tratar uma mulher como você? Você era somente minha! Agora, é da cidade inteira.

– Seu louco machista! Se eu me encontro hoje nesta situação é por sua causa…

– Minha causa!? Eu mandei que voltasse pra casa… Pro seu marido… Pro seu filho… Lembra?

– E como eu poderia me esquecer? Fui muito ingênua ao pensar que poderia construir uma vida ao seu lado…

– O ingênuo da história sou eu, que fui me envolver com uma mulher que não tem amor pelo próprio filho…

– Deixe o garoto de lado…

– Está vendo? Você nem mesmo gosta de falar a respeito do menino.

– Não mude de assunto! Estávamos falando sobre a gente.

– Eu estou falando sobre amor… Você sabe por acaso o que isto significa?

– E você, escritor? Sabe? Ou só conhece o amor das historinhas que escreve? Não sei por que estou perdendo o meu tempo discutindo com você… Não foi você mesmo que disse que tudo o que houve entre a gente foi simplesmente sexo?

– Foi! Somente sexo…

– E então? O que faz aqui? O que quer de mim? Sexo? Somente sexo?

– Talvez!

– Talvez?

– É… A princípio foi o que realmente desejava… Agora…

– Agora?

– Agora… Não sei!

– Nikolai! Vá embora! Não quero vê-lo novamente…

O escritor rapidamente se vestiu e saiu do quarto de Anna sem melhores explicações. Estava confuso com a discussão que havia travado com a ex-amante e se questionava a respeito do que tinha acontecido.

Quais eram os sentimentos que o levaram a ficar frente a frente com Anna? Tinha convicção de que não a amava, no entanto, um sentimento de posse o dominava a ponto de sentir ciúmes e a gerar situações no mínimo inimagináveis.

Sabia, também, que o desejo de tê-la em seus braços novamente, era algo avassalador. Todavia, preferia humilhá-la a optar por uma tentativa de reconquista. Eram sentimentos e desejos que fugiam ao seu controle.

Anna percebeu que ainda amava o escritor. Por mais que negasse para si mesma este fato, estava claro que seu coração ainda lhe pertencia. Estava decidida a não mais vê-lo. Não se deitaria com ele nem por todo o dinheiro do mundo.

 Ele ainda não entendia perfeitamente o que o levara a procurar por aquela mulher incapaz de amar. Era a impressão que guardava de Anna.

CAPÍTULO 22 – Publicado em 09/11/2017

O pequenino Dimitry perguntava de si para si o motivo de tantas mudanças em tão pouco tempo. As pessoas já não o apontavam como de costume, conviviam com ele como se nunca houvesse acontecido nada e ele fosse totalmente normal.

Não havia mais nenhum tipo de agressão, ao contrário, algumas pessoas se aproximavam dele para conhecê-lo melhor. Poderia dizer que já tinha alguns amigos, amigos de verdade.

Desejava ajudar o pai a vender sapatos, todavia Vladimir foi contra. Queria que o filho se dedicasse aos estudos para quem sabe, no futuro, ter uma vida melhor. Sonhava em ver o filho se transformar em um professor.

Desde que a mãe decidiu sair de casa, Dimitry se incumbiu de realizar todas as tarefas do lar. Ele arrumava a casa, cozinhava e até mesmo lavava suas roupas e as de seu pai. Não gostava muito de passá-las: era comum vê-lo com as roupas amassadas. Dizia ter medo de se queimar com as brasas do carvão.

Dedicava parte de seu tempo a cuidar do cavalo. Zoitiewsk, que significa O QUE SURGE PARA UMA NOVA VIDA, foi o nome que Dimitry escolheu para o seu animal. Acreditava que sua vida havia tomado um novo rumo a partir do momento em que tinha colocado os olhos no cavalo fujão da esposa do diretor Boris.

Sentia falta da mãe. Apesar de não se lembrar de momentos agradáveis ao lado dela, deseja tê-la presente em seu lar. Esperou durante algum tempo que ela fosse visitá-lo, mas isso nunca aconteceu.

Jamais recebeu uma carta, nem mesmo um recado da parte dela. Ele, todavia, estava proibido de ir ao prostíbulo. Seu pai não queria que freqüentasse lugares promíscuos como aquele em que sua mãe estava vivendo.

Não querendo desapontar o pai e procurando entender os motivos da proibição que o impediam de ver a mãe, Dimitry passou a viver sua própria vida sem se preocupar com os problemas que tinha e a fazer novas descobertas.

Certa vez, quando caminhava sozinho pela floresta, ouviu alguns estranhos ruídos atrás de um eucalipto. Teve receio de encontrar algum animal da floresta, mas logo conseguiu identificar que o barulho era provocado por uma pessoa.

Na ponta dos pés, ele deu a volta pelo outro lado da trilha e procurou uma posição em que não pudesse ser visto. A princípio, de nada adiantou. Ele mesmo sequer conseguia identificar quem estava por detrás daquela árvore.

Depois de alguns minutos tentando ver o que estava se passando naquele local, o garoto quase caiu para trás. Tinha acabado de ver uma garota nua. Era a primeira vez que via uma pessoa do sexo oposto totalmente sem roupa. O inocente garoto não sabia o que homens e mulheres tinham de diferente. A única diferença que conhecia se resumia aos seios que as mulheres possuem e os homens não.

Rapidamente, sem fazer nenhum ruído, tirou suas roupas e ficou se comparando com a garota que estava a alguns metros de distância.

Ela necessitava urinar e assim que a menina se agachou, Dimitry, como se olhasse para um espelho, também se agachou. Mais surpreso ainda ficou quando a garota começou a urinar. Não acreditava no que estava vendo. Estava boquiaberto ao descobrir as diferenças que tinha em relação à garota.

Impressionado com a menina, acabou esbarrando em um galho de árvore despertando a atenção dela, que rapidamente se vestiu e pôs-se a procurar por alguém.

Ela não encontrou ninguém. Assim que Dimitry viu que seria descoberto, saiu correndo nu pela floresta. Depois de percorrer quase um quilômetro é que pôde parar, respirar e colocar de volta suas roupas.

Os dias foram se passando e a imagem da garota não saía de sua memória. Voltou mais quatro vezes ao local e nem sinal da menina. Nunca a tinha visto na cidade, achou estranho o fato de ela não estudar na escola.

Talvez fosse filha de algum viajante que estivesse de passagem pela cidade, haja vista o acesso à floresta ser paralelo ao da estrada principal que levava à cidade. Poderia ser também filha de algum novo morador que, mais cedo ou mais tarde, iria matricular a filha na escola.

Dimitry começou a olhar as outras meninas de maneira diferente. Às vezes pensava que somente aquela garota fosse daquele jeito, mas não foi difícil perceber que todas eram iguais, ou melhor, todas eram diferentes dele.

Sempre que o garoto pensava na desconhecida menina, sentia algumas sensações mas não sabia ao certo do que se tratava. Tinha vergonha das transformações pelas quais estava passando e não falava com ninguém a respeito do que acontecia com ele.

Pensou que seu órgão genital tivesse alguma anomalia. Achava muito estranho a forma que seu pênis assumia quando se lembrava da garota nua. Ou até mesmo, no intervalo da escola, quando se juntava com as outras meninas, às vezes tinha que sair de perto para que ninguém percebesse o grande volume que se formava dentro de suas calças.

Sentia medo. Pensava que pudesse estar doente. Tinha que conversar com alguém a respeito de tudo aquilo, entretanto, temia ser novamente rejeitado por mais um possível defeito físico.

Embora se preocupasse com as transformações pelas quais estava passando, Dimitry começou a sentir prazer quando tocava em seu órgão genital. Não demorou muito para que começasse a se masturbar, mesmo não sabendo o que estava fazendo.

Achava engraçado ao ver o esperma sair de seu pênis como se estivesse saltando de um trampolim. Escondido, em seu quarto, brincava medindo a distância para ver qual esperma cairia mais longe.

O prazer já o havia dominado e não mais se preocupava com uma possível doença. Sentia tanto prazer ao se masturbar que tinha plena convicção de que tudo aquilo que estava sentindo, de forma alguma, poderia ser algum tipo de anomalia ou doença congênita.

Dimitry se sentia melhor. Buscava respostas para suas perguntas. Estava atento a tudo que se passava ao seu redor. Mesmo sem mencionar os últimos fatos de sua vida a ninguém, ouviu de alguns garotos coisas parecidas com tudo aquilo que estava vivenciando.

Conversando com outros garotos, começou a descobrir o sexo. Alguns garotos levavam para escola desenhos feitos – traços mal desenhados – por eles mesmos, de supostas mulheres nuas.

Era o assunto da maioria dos garotos. Nessa época, as meninas já estavam excluídas do grupo dos meninos. Eles só tinham olhos para as mulheres do prostíbulo de Katerinne.

Dimitry sentia ciúmes quando alguém fazia piadas em relação a sua mãe. Não gostava nem um pouco. Interrompia a conversa e pedia que mudassem de assunto. Não demorava muito e o foco da conversa voltava a ser o prostíbulo.

Alguns garotos garantiram que já tinham ido até a casa e que tinha sido expulsos de lá. Segundo eles, as mulheres riram e disseram que eles não tinham idade nem falo suficiente para satisfazê-las.

Mediante essa afirmativa, um dos garotos sugeriu que fizessem uma aposta para ver quem tinha o maior órgão genital. Todos aceitaram a aposta, só faltava decidir qual seria o prêmio.

Confabularam entre si e decidiram que o ganhador receberia dinheiro dos demais durante todo o mês, até que juntassem o suficiente, para que o vencedor pudesse ter uma noite com uma das mulheres de Katerinne.

Assim que terminou a aula, os garotos foram em direção a uma mina de carvão que estava abandonada; lá, ficariam mais a vontade.

Eram aproximadamente oito meninos. Como ninguém queria começar a mostrar o pênis, ficou estabelecido que o mais alto fosse o primeiro. Rapidamente, os garotos lado a lado, formaram uma fila do maior ao menor.

Dimitry foi o último. Ele estava com vergonha dos demais garotos. Sentiu que mais uma vez pudesse ser rejeitado pelos outros.

Depois que todos eles haviam abaixado as calças, Dimitry desistiu de participar da aposta. Estava muito constrangido e quis ir embora. Os outros garotos não deixaram. Começaram a rir do pequenino Dimitry dizendo que tudo nele deveria ser pequenino.

Eles insistiram. Não queriam deixar o garoto em paz enquanto ele não participasse da aposta. Dimitry para se livrar de tudo aquilo acabou consentindo.

– Oh!!! – exclamaram os garotos.

O eco havia prolongado a exclamação dos meninos quando viram o tamanho do falo de Dimitry. Estavam impressionados, já que os pênis deles sequer se aproximavam da metade do tamanho do órgão genital de Dimitry.

O pequenino temeu ser rejeitado pelos outros meninos. Não imaginava que os outros o ovacionassem, como fizeram. Começou a se sentir melhor por ter um membro viril maior do que o comum. Depois de alguns minutos de conversa, estava orgulhoso disso. Todos os garotos disseram que queriam ser como ele. Era a primeira vez que alguém dizia ter vontade de ser como ele.

Estava decidido, não havia dúvidas. Dimitry era o vencedor da aposta. Os outros garotos iriam juntar todo o dinheiro que conseguissem para pagar ao grande ganhador.

Ao final do mês, os garotos se reuniram na mina abandonada para a entrega do prêmio. Dimitry estava confuso. Contente por estar com todas aquelas moedas e temeroso, por não saber o que fazer.

Todos opinaram… Deram conselhos… Houve até quem sugerisse que ele treinasse na areia. Segundo o “especialista” em sexo, era tudo bem simples. Ele deveria fazer uma estátua feminina de areia, com todos os detalhes pertinentes a uma linda mulher, depois… Bem, o resto, creio que qualquer leitor mais atento saberá como se daria a conclusão do treinamento sugerido.

O pequenino Dimitry estava sendo pressionado. Os garotos cobravam todos os dias na escola uma atitude da parte dele. Ele teria que ir ao prostíbulo de Katerinne e ainda deveria provar que havia consumado o fato.

Não queria desobedecer ao pai, embora estivesse curioso para saber como seria estar com uma prostituta na cama. Teria que ignorar as ordens do pai e vencer sua timidez para conseguir o que tanto almejava.

Havia outra coisa que o garoto precisava superar: o medo da rejeição. Mesmo com todo aquele dinheiro, temia ser rejeitado, até mesmo por uma prostituta. Embora soubesse do carinho que algumas mulheres do prostíbulo tinham por ele, não acreditava que houvesse alguma capaz de se deitar com ele.

Foi em um sábado. Dimitry tinha que ao menos tentar. Seu pai havia viajado e ele se encontrava sozinho. Alguns de seus companheiros o levaram até à porta do prostíbulo e o deixaram lá.

Uma música lenta era executada pelo pianista. O garoto caminhava com uma boina na cabeça e com a mão sobre a face tentava esconder as imperfeições do rosto.

Havia muitas pessoas e praticamente todos estavam bebendo. A presença do pequenino não havia sido notada. O desejo, a ânsia pela diversão e principalmente a bebida cegavam os que estavam no salão de modo que não percebessem aquela estranha figura deslocada.

Ele procurou ficar em um cantinho do salão próximo à escada. Não sabia bem o que fazer. Não sabia o que dizer quando estivesse diante de uma mulher. Ficou observando como os outros homens agiam, mas preferiu não imitá-los. Achava-os grossos, incessíveis, incapazes de tratar bem a uma mulher.

Ficou quase duas horas parado no mesmo lugar sem despertar a atenção de ninguém. Cansou-se. Resolveu aproximar-se do balcão para pedir algo para beber. De cabeça baixa pediu uma dose de vodka e deixou cair uma moeda em cima do balcão para pagar a bebida.

Quando se afastou do balcão, ele esbarrou em uma mulher e acabou se molhando com a vodka. Ela se desculpou e quando olhou nos olhos do garoto e viu sua face, assustou-se.

Em um primeiro momento, achou estranha aquela fisionomia, embora tenha insistido com o garoto para que a acompanhasse até o seu quarto.

Queria secar as roupas dele. Dimitry, constrangido com a situação, disse que estava tudo bem. Não se importava de ficar molhado. A Francesinha, como era conhecida por todos no prostíbulo, insistiu em que ele trocasse de roupas, para que ela pudesse secá-las. Sendo assim, ele aceitou…

– Está com vergonha? – perguntou a Francesinha.

Dimitry acenou positivamente a cabeça.

– Não fique. Não farei nada demais. Somente secarei suas roupas. Não estou nem te olhando. Pode ficar bem à vontade.

O garoto escondido atrás de um biombo, pensava que a grande oportunidade de se deitar com uma prostituta estava bem ali, diante de seus olhos e ele não conseguia dizer o que queria.

Em alguns instantes pensou em agarrá-la a força, mas isto não combinava com sua personalidade. Queria conquistá-la, seduzi-la, embora não soubesse como agir. Imaginava-se um galanteador, dizendo coisas belas e interessantes àquela mulher. Pensava que ela pudesse desejá-lo, todavia bastava se lembrar de sua aparência para ter certeza de que isso era praticamente impossível.

Enquanto várias coisas passavam pela cabeça do pequenino Dimitry, a moça questionava o que aquela pobre criatura estaria fazendo ali. A princípio, recusava-se em pensar que o garoto estivesse em busca de prazer. Achava-o sensível, desprotegido. Enigmático, talvez! Pensava que aquele local não era para ele.

Apesar do rápido contato que tivera com o garoto, havia percebido grandes diferenças entre ele e os demais homens que freqüentavam o prostíbulo. Desiré, este era o verdadeiro nome da francesa que estava secando as roupas do pequenino Dimitry, sentia-se bem ao lado do menino.

Ainda não havia completado um mês que a francesinha Desiré estava morando na casa de Katerinne. Havia quem afirmasse com toda a certeza que a jovem era de Paris.

De estatura mediana, pele bem clara contrastando com um par de olhos amendoados, cabelos loiros encaracolados nas pontas, lábios finos adequados às sobrancelhas, também finas e um corpo esculturalmente magro caracterizavam-na como uma encantadora mulher.

Possuía uma beleza discreta. Às vezes passava despercebida pela maioria dos homens, todavia os que a notavam, encantavam-se para todo o sempre.

– Qual é o seu nome? – perguntou ao tímido garoto quebrando o silêncio.

– Dimitry. E o seu?

– Desiré. Me chamo Desiré.

– E o que você está fazendo aqui? Posso saber, Dimitry?

A francesinha foi direto ao assunto. Estava curiosa para saber quais eram as reais intenções de Dimitry e ele logo confessou sobre a aposta que havia feito com os colegas.

A mulher pediu para que ele saísse de trás do biombo. Queria lhe entregar as roupas e convencê-lo de que ele ainda não tinha condições de manter relações sexuais com uma mulher.

Dimitry insistiu dizendo que tinha dinheiro e que precisava concluir a aposta perante seus amigos. Implorou para que ela o ajudasse. Estava disposto a arrumar mais dinheiro se fosse preciso.

– Vamos! Saia daí! Não estou interessada em seu dinheiro. – afirmou a moça.

Por alguns segundos o pequenino Dimitry havia se esquecido de que estava nu e saiu de trás do biombo. Somente se deu conta de sua total nudez quando percebeu que a francesinha estava estupefata olhando em direção às pernas dele.

Ela jamais havia visto um homem com um pênis daquele… Estava assustada, mas ao mesmo tempo, fascinada.

Rapidamente o garoto se vestiu. Por mais que desejasse estar com aquela mulher na cama, sentia vergonha de sua nudez. Não estava habituado aquele tipo de situação, era compreensível que se cobrisse.

– Por favor, deixe-me ver! – disse Desiré.

Dimitry não estava entendendo. Não havia captado o que a mulher estava querendo dele. Via nos olhos dela um brilho jamais visto em outra pessoa. Ela gesticulava ansiosamente com as mãos como se tencionasse tocá-lo. Ele caminhava vagarosamente para trás enquanto ela avançava em sua direção.

– Por favor! Deixe-me ver! Tire as calças! – ordenou Desiré ao garoto.

O garoto sentiu um misto de prazer e tensão ao ouvir a voz da mulher. Não questionou. Arriou as calças e deixou que a francesa contemplasse o que tanto almejava ver.

Desiré era uma prostituta jovem, porém bastante experiente. Olhava para o pequenino Dimitry confusa. Enxergava qualidades que contrastavam com a aparência do garoto e, ao mesmo tempo, estava encantada com os atributos que ele possuía.

Sabia perfeitamente que o prazer não estava atrelado ao tamanho, tinha plena convicção disto. Entretanto, alguma coisa em seu subconsciente dizia que ela deveria se deitar com o garoto.

A princípio, pensou se tratar de um desafio. Ela estava equivocada. Hipnotizada, entregou-se aos braços de Dimitry e o iniciou na arte do amor.

CAPÍTULO 21 – Publicado em 05/11/2017

Era exatamente uma hora da manhã. Eles chegaram ao quarto na mesma hora da noite passada. Tanto eu, como o escritor, dormíamos profundamente. Estávamos na mesma cama e não suspeitávamos do que iria acontecer.

Eu acordei com o grito de Nikolai. Assustado, pulei rapidamente da cama e vi os homens que tinham levado o meu amigo. Eram os mesmos da noite anterior.

Mais uma vez, não pude fazer nada. Não houve tempo. Tudo aconteceu muito rápido. O estado alterado de consciência em que me encontrava deixaram meus reflexos lentos. Em determinados momentos, pensei estar sonhando. Todavia, não havia sido um sonho. Tudo realmente tinha acontecido. Os truculentos homens o haviam dominado e utilizando de uma violência desmedida, retiraram-no do quarto, desaparecendo pelo corredor.

O morador do 102, como na última noite, abriu sua porta e dessa vez, não a fechou rapidamente. Ficou me olhando como se eu fosse um grande covarde.

Como eu não estava disposto a ficar olhando para aquela cara gorda e pálida, preferi voltar para a cama. Esperaria que Nikolai voltasse. Se ele havia voltado na noite anterior, estava certo de que retornaria novamente.

Escutei alguns passos lentos e arrastados pelo corredor. Corri e olhei por baixo da porta. Era o nosso vizinho, o gordo do 102, que estava andando pelo corredor. Fiquei curioso em saber o que ele pretendia andando de um lado para o outro. Como era tarde, preferi voltar para o meu canto ao invés de bisbilhotá-lo.

Eu estava um pouco preocupado, afinal, aquilo não era maneira de se tirar alguém da cama. Todavia, não senti a sensação ruim da última vez. Alguma coisa me dava a certeza de que ele voltaria.

Ouvia claramente os passos do gordo pelo corredor como se fosse um soldado em seu posto de vigilância. Confesso que a curiosidade me impulsionava a verificar o que se passava com ele. Em alguns momentos, pensei que ele quisesse me dar alguma informação sobre o que teria acontecido com Nikolai, mas se fosse realmente isso, ele já o teria feito.

Preferi não mais escutar seus passos, desviando minha atenção em outra coisa. Procurei ler alguns manuscritos de Nikolai até que ele retornasse ao nosso lar.

Andei por alguns minutos em meio a toda sujeira que reinava no quarto procurando algo que fosse interessante. Enquanto lia algumas anotações, imaginava como tínhamos nos acostumados a viver com todo aquele lixo.

As caixas de papelão, as sacolas plásticas, as latas velhas… As pedras… Tudo aquilo fazia parte do nosso universo. Todo aquele entulho que estava espalhado pelos cantos do quarto, representava de certa maneira, a nossa vida.

Tudo era normal. Não havia nenhum tipo de anormalidade em nossas vidas. O cheiro nauseabundo que impregnava todo o ambiente, estava arraigado em nossas narinas, de modo que não mais nos importunava.

Confesso que, para mim, não era difícil viver em meio à sujeira e ao fétido lugar em que estávamos. Já havia passado por situações bem mais difíceis e… Realmente, aquele não era o pior lugar em que já tinha morado.

Lembrei-me do texto que falava sobre o lado obscuro de Anastácia. O desejo de continuar lendo a história fez com que eu me esquecesse dos problemas e decidi procurar por qualquer anotação que me desse uma pista sobre o caso.

Depois de muito procurar, de ter revirado praticamente toda a tralha de Nikolai, encontrei mais algumas páginas que se referiam a Anastácia. Diziam o seguinte:

Assim que Anastácia terminou de descascar as batatas, limpou a faca, ainda um pouco ensangüentada, na beirada do vestido que havia acabado de colocar e… Comeu-as. Cruas! Simplesmente cruas.

Deliciava-se com as batatas, com o sangue, com o cenário que ela mesma tinha montado em seu solitário palco. Sorria como se houvesse um público aplaudindo seu ato. Mikail saía de cena para sempre.

Tinha que se livrar do corpo o mais rápido possível, antes que o mau cheiro pudesse denunciá-la.

Não demorou muito para que arrumasse a carroça. Em pouco tempo já estava pronta para deixar a pequena cidade.

Conduzindo os cavalos por uma estreita estrada de terra batida, encontrou com algumas pessoas que a cumprimentaram. Ela, sem demonstrar nenhum espanto sorriu e acenou para todos.

Ao passar em frente a uma hospedaria, ela parou. Parou mediante ao sinal dado por um homem que estava à porta. Era Ivanovith. Havia acenado ao perceber que a mulher estava só e aparentemente ia embora.

Aproximou-se da carroça e perguntou por Mikail. Anastácia disse que estava deitado no fundo da carroça, enrolado em algumas cobertas. Morto!

Ivanovith suspeitando das palavras de Anastácia e principalmente de sua frieza, decidiu olhar e acabou confirmando o que ela havia dito. Assustou-se ao ver o corpo, mas decidiu ajudá-la a se livrar do morto.

Subiu na carroça e foram para os limites da cidade. Durante o pequeno percurso que fizeram, ela pediu para que ele fugisse com ela. Rapidamente Ivanovith se negou e disse que não era louco para fugir com uma mulher que teve coragem para matar um homem.

Anastácia não insistiu. Sabia perfeitamente que teria que continuar a escrever a sua história sozinha. Perguntou a ele o porquê da ajuda e ele apenas respondeu que era pela tarde maravilhosa que ela tinha proporcionado. Ela o chamou de louco.

Quando estavam prestes a atravessar uma ponte de madeira que cruzava um rio, Anastácia decidiu que não iria enterrar o corpo de Mikail, iria afundá-lo.

Ivanovith gostou da idéia e os dois começaram a preparar o corpo para ser atirado no rio.

Construíram uma espécie de maca, com algumas tábuas que foram arrancadas da carroça e amarraram o corpo em cima desta maca. Conseguiram grandes e pesadas pedras que estavam na beira da estrada e amarraram por cima do corpo de Mikail. Deram várias voltas com a corda para que o corpo ficasse bem amarrado.

Anastácia pegou uma máscara que tinha a feição de um sorriso e colocou na face do defunto. Estava tudo pronto. Só faltava arremessar o corpo na água.

Ela pediu que Ivanovith pronunciasse algumas palavras, mas ele se recusou. Estava aflito. Já haviam ficado tempo demais naquele local. Queria se livrar do corpo e sair da estrada. Temia ser visto por alguém.

Não se disseram nada. Empurraram a maca da ponte e em questão de segundos, já não mais se podia ver o corpo de Mikail.

Ivanovith desejou sorte à louca mulher. Anastácia o beijou e disse que carregariam um segredo juntos para o resto de suas vidas. Ele voltou para cidade com um estranho aperto no coração. Ela cruzou a ponte sem olhar para trás.

Quarenta anos depois…

Fim

Quarenta anos depois? Não podia acreditar naquela frase. Quarenta anos depois! O que teria levado Nikolai há suprimir tanto tempo? Por que ele não mencionaria quatro décadas sobre a vida de Anastácia? Ou será que estas décadas estariam escritas em um outro lugar?

Formulei algumas hipóteses sobre o que o escritor pretendia e resolvi procurar por algo que me esclarecesse melhor seu intento.

Estava certo de que conseguiria encontrar algo que me revelasse o que aconteceu com Anastácia assim que ela cruzou aquela ponte sem sequer olhar para trás.

Meu amigo Nikolai gostava de deixar algumas coisas suspensas no ar. Não sei se porque algumas colocações davam margem para uma quantidade variada de interpretações ou se ele, simplesmente, sentia prazer em aguçar a curiosidade do leitor.

Bem! A minha, pelo menos, estava aguçadíssima. Li praticamente todas as anotações que estavam ao meu alcance e não encontrei mais nada sobre a vida de nossa vizinha Anastácia.

Resolvi refletir um pouco sobre todos aqueles acontecimentos da noite e pensei muito na história de Mikail, Ivanovith e principalmente, Anastácia.

“Realidade? Ou pura ficção? O que se passa na cabeça de Nikolai? E os outros? Personagens de uma história sem nexo? Ou… Nexo de histórias de pessoas que se fundem? Egoísmo, traição… Miséria! Miséria de espírito… Miséria de pão… A humanidade e suas migalhas… Migalhas que retardarão o apodrecimento da carne… Uma esmola pelo amor de Deus! Um corpo fétido que mergulha em seu estado de decomposição procurando por algo que faça sentido… Se é que há sentido em alguma coisa! Peso na consciência? Uma pluma ou sua consciência? Duas plumas? Talvez a leveza de uma ‘consciência pluma’ permita que se deite em paz… Talvez haja, ou não, demônios de prontidão para derrotar consciências que aparentam ser plumas, embora saibamos ou suponhamos que não as são… Viver! Com quê? Para quê? Pra morrer?”.

Enquanto filosofava comigo mesmo, percebi que a única coisa de que eu realmente tinha certeza era que todos morreríamos.

Fiquei durante algum tempo pensando na morte e confesso que em determinados momentos me assustei. Por que? Não sei!

Voltei para a cama, para esperar meu amigo Nikolai. Deitado, lembrava-me de suas histórias…

CAPÍTULO 20 – Publicado em 01/11/2017

Assim que Vladimir saiu da casa do escritor Nikolai dizendo que sua dívida estava paga, caminhou vagarosamente até o prostíbulo de Katerinne para tentar reconquistar a esposa.

Sentia-se leve como uma pluma. Em alguns momentos pensou como seria se a única bala que ele tinha deixado no revólver tivesse sido disparada e pusesse fim à vida do escritor. Imaginou as conseqüências que acarretariam em sua vida, caso tivesse cometido um assassinato.

Ponderou consigo mesmo e percebeu que havia feito a coisa certa. Não foi preciso cometer um crime para lavar a honra e se sentir melhor. Estava satisfeito com o susto que havia dado em Nikolai.

Iria procurar viver a sua vida como se nunca houvesse um escritor entre ele e a esposa. Pensava em um recomeço. Estava pronto a recuperar o tempo perdido e a fazer de Anna a mulher mais feliz do mundo. Estava disposto a esquecer a traição da mulher.

Faltavam alguns minutos para que o espetáculo no prostíbulo se iniciasse. Puttin já havia começado a tocar, era a primeira parte do número. Cinco minutos depois, as cortinas do pequeno palco se abriram e as mulheres entraram em cena. Executavam uma coreografia desenvolvida pela própria Katerinne.

A casa estava lotada. Os homens gritavam como loucos. Pareciam que nunca tinham visto uma mulher na vida, tamanha era a algazarra que faziam. Os ébrios tentavam se aproximar do palco, mas eram retirados rapidamente por alguns fortes homens que faziam a segurança.

Vladimir, que nunca havia entrado em um prostíbulo, estava encantado com a magia do lugar. Eram muitas as mulheres, ele nunca tinha visto tantas. Ainda mais, seminuas. Era uma agradável surpresa aos olhos do simplório vendedor de sapatos.

Por alguns poucos minutos, ele tinha se esquecido do que tinha ido fazer naquele lugar. Lembrou-se de seu objetivo quando uma mulher tentou sentar em seu colo e lhe disse alguns gracejos. Ele a afastou de si dizendo que era um homem casado. A mulher nada disse, somente soltou uma estrondosa gargalhada e foi para o colo de outro homem, que não a recusou.

Ele estava um pouco nervoso. Ainda não tinha visto a esposa Anna. Não sabia ao certo o que ela estava fazendo naquele antro. Preferia crer que ela estivesse trabalhando como arrumadeira, cozinheira ou em qualquer outra função, desde que não fosse… Desde que não fosse prostituta. Não considerava plausível esta hipótese. Na sua concepção, Anna jamais chegaria a tal ponto.

Não quis esperar o final do espetáculo para procurá-la. Tomou algumas doses de vodka para se acalmar. A bebida, a princípio, não fez efeito. Perguntou a algumas pessoas que estavam por perto sobre Anna, mas ninguém lhe deu importância.

Em pouco tempo, Katerinne ficou sabendo que Vladimir estava em sua casa procurando pela esposa. Como era uma mulher experiente e não queria nenhuma confusão em seu estabelecimento, mandou que Anna ficasse escondida no próprio quarto. Pediu para que ela só saísse de lá segundo suas ordens. Anna sequer perguntou o porquê da ordem, apenas cumpriu.

Vladimir se assustou quando Katerinne se aproximou. Uma mulher bastante excêntrica. Não era a mais bonita, sem sombra de dúvidas, entretanto, era a mais sensual. Apesar de sua idade, Katerinne se mostrava bastante sensual e com um incrível poder de sedução.

Tomou o copo que estava na mão de Vladimir e de um só gole, tomou toda a vodka que continha.

– Será que você pode me dar mais um pouco? – perguntou Katerinne ao vendedor de sapatos.

– Claro! Claro que sim… – disse Vladimir olhando os fartos seios de Katerinne.

Katerinne tomou mais uma dose de vodka e começou a conversar com Vladimir sem demonstrar o que desejava dele. Conversavam sobre assuntos banais… Ela não perdia sequer uma única oportunidade para afagá-lo.

À medida que ia conquistando a confiança do vendedor de sapatos, ela lhe dava umas doses a mais de bebida. Não demorou para que a tática dela desse resultados. Vladimir já se encontrava embriagado.

Katerinne conversava face a face com o dominado homem. Passava vagarosamente os lábios na boca dele, antes de lhe dar uma outra dose de vodka. Mordia o pescoço dele, que já não sabia mais o que fazer. Deslizava as mãos pelo peito do embriagado homem, quase lhe arrancando a camisa. Ela estava fascinada com o cheiro dele, segundo ela, cheiro de homem, cheiro de macho.

Não havia mais necessidade de ela continuar com aquele jogo. Ele não estava em condições de provocar nenhum escândalo, nem pronunciava mais o nome da esposa. Estava fascinado com a mulher que passou metade da noite em sua companhia.

Ela insistia. Passava as mãos pelas pernas dele e as apertava de vez em quando. Antes que ela esperasse uma reação da parte dele, Vladimir a agarrou fortemente e a beijou. Segurou-a pelos braços e lhe deu um demorado beijo. Ela, a princípio, quis sair. Desistiu logo em seguida da idéia e o convidou para subir até o seu quarto.

Katerinne estava confusa. A princípio, não queria se deitar com aquele homem, mas no decorrer da noite, sentiu um estranho fogo lhe invadir as pernas. Seu coração acelerava mais rápido quando o beijava. Sentia o corpo arrepiar-se quando ele a segurava. Não queria acreditar que estava prestes a se deitar com um vendedor de sapatos. Não sabia o que ele tinha que a atraía tanto.

Estava excitada e decidida a passar a noite com Vladimir. Assim que se encontraram a sós no quarto, ela se despiu como se fosse a primeira vez que estivesse diante de um homem. Ele, absorto, olhava para um ponto fixo no nada.

Ela, completamente nua, pôs-se a tirar toda a roupa dele. Sofregamente, não via a hora de ser possuída por aquele homem. Ele beijava suas partes íntimas, deixando-a mais desejosa de ser amada. Entretanto, depois de alguns minutos transcorridos, Vladimir não a beijava com o mesmo fervor. Vagarosamente seu infrene desejo ia sendo dominado pelo o estado de total embriaguez.

Antes mesmo que alguma coisa ocorresse entre os dois, Vladimir acabou adormecendo. Dormiu nos braços de Katerinne que estava desconsolada. Buscava respostas consigo mesma para tentar entender o que aquele comum homem havia feito para despertar tamanho desejo em seu coração. Lembrou-se de que a única vez que tinha se sentido assim havia sido por causa de Nikolai S. Andreiev.

Ela não saiu do lado de Vladimir. Havia uma desconhecida força que não a deixava sair de perto daquele homem. Passou toda a noite abraçada a ele, pareciam íntimos, embora ela soubesse que nada havia ocorrido entre eles.

Na manhã seguinte, o vendedor de sapatos Vladimir Svalonilov assustou-se ao se deparar com aquela mulher nua, em cima de uma cama, abraçada a ele. Sua cabeça estava doendo e não se lembrava de muita coisa que havia acontecido.

Percebeu que havia dormido fora de casa e se preocupou com o filho Dimitry. Pensou em ir correndo para a casa, embora tenha desistido rapidamente da idéia. Já havia passado toda a noite fora, não adiantaria em nada sair daquele lugar sem melhores explicações. E além do mais, tinha certeza de que o filho saberia se virar sozinho.

Aos poucos foi se lembrando de que havia estado na casa do escritor Nikolai e que havia saído em busca de sua mulher Anna.

“É isso! É o prostíbulo de Katerinne!”.

Logo que Vladimir se lembrou que estava na casa de Katerinne, ela acordou e o cumprimentou com um largo sorriso nos lábios.

Ele timidamente retribuiu a saudação e perguntou a ela o que ele estava fazendo ali, na cama, nu ao lado de uma mulher nua.

– Você não faz nem idéia do que aconteceu?! – perguntou Katerinne surpresa a Vladimir.

Ele acenou negativamente com a cabeça. Disse que estava procurando a esposa Anna e que se lembrava de ter tomado algumas doses de vodka na companhia de uma mulher.

– Katerinne! Isso! Katerinne, a dona da casa. – disse Vladimir um pouco mais entusiasmado por se lembrar do nome da mulher que estava com ele na noite passada.

– Sou eu… Katerinne… Sou eu, lembra?

– Você?! Tem cert…

– Qual o problema? Será que estou tão diferente assim? Nunca viu uma mulher quando acorda, não? – questionou Katerinne.

Vladimir se desculpou dizendo que ela estava ótima. Ele é que havia bebido muito na noite passada e não se lembrava de muitas coisas, inclusive da fisionomia dela.

Antes de conversarem sobre o que tinham feito à noite, Vladimir ouviu algumas pessoas passando em frente à porta e identificou a voz de Anna. Gritou-a, chamando pelo nome e correu em direção à porta.

Esqueceu-se de que estava totalmente nu e quando abriu a porta se deparou frente a frente com a esposa Anna e outras duas mulheres.

– Eu não falei pra você sair do quarto somente quando eu mandasse? – disse furiosamente Katerinne à Anna.

– Então foi por isso! Foi por isso que me isolou naquele quarto, não foi?! – questionou Anna deixando revelar um ar de ciúmes.

– Anna! Não é nada disso que você está pensando… Eu nem sei como vim parar aqui! – justificou Vladimir.

– Você não precisa me explicar nada! Pode ficar com a sua puta…

– Olha como fala comigo, menina! É por causa dessa puta aqui que você não está passando fome. – disse Katerinne à Anna e logo em seguida, ordenou que os dois saíssem de sua presença.

Katerinne achou melhor que eles conversassem de uma vez. Àquela hora, não poderiam lhe causar nenhum problema. Seu sexto sentido lhe dizia que não haveria nenhuma chance da reconciliação do casal. Estava torcendo por isso. Não sabia explicar se pelos lucros que Anna lhe daria ou pelo fato de Vladimir se tornar desimpedido. Talvez fosse pelos dois motivos.

Ainda pensava em se deitar com ele. Independentemente do que acontecesse entre ele e a mulher, Katerinne o procuraria. Nem que para isso tivesse que comprar todos os sapatos do humilde vendedor.

Quando Vladimir se encontrou a sós com Anna, disse que na noite anterior havia conversado com Nikolai. Narrou detalhadamente a conversa que teve com o escritor e contou que havia entrado no prostíbulo somente com a intenção de levá-la de volta para casa.

– Você deveria ter matado o desgraçado! – disse Anna ao marido.

Vladimir rebateu a frase dizendo que não era necessário. Segundo ele, a morte do escritor não iria alterar em nada os fatos. Ela sorriu ironicamente dizendo que ele não tinha sangue nas veias.

– Se fosse um homem de verdade, você o teria matado. – complementou Anna.

Ele se sentiu humilhado com as palavras da esposa, contudo preferiu não mais falar sobre Nikolai.

Anna insistiu no ataque dizendo que ele ganharia muito mais lavando a honra com o sangue do escritor do que se deitando com uma puta velha como Katerinne. Não havia necessidade de ele provar nada a ninguém. Vladimir notou que ela se referia à outra com ciúmes.

Afirmou que nunca tinha estado com outra mulher na cama que não fosse ela. Tudo não havia passado de um mal entendido. Ele estava ali somente para perdoar-lhe e levá-la de volta para casa.

Ela se enfureceu quando ouviu a palavra perdão. Disse que não precisava de perdão. Estava satisfeita onde estava e não mais voltaria para casa. Não queria passar o resto de sua vida tendo que cuidar de um homem fracassado e de uma criatura horrível a qual teria que chamar de filho.

Anna havia se encontrado. Via na prostituição uma oportunidade que a vida nunca lhe havia proporcionado. Tinha os olhos vendados, não enxergava a verdadeira realidade de uma prostituta.

Vladimir, de joelhos, pedia insistentemente que ela fosse embora com ele. Se ela preferisse, não ficariam mais na cidade, iriam para outro lugar. Estava disposto a acompanhá-la para onde ela quisesse.

Não queria aceitar a rejeição. Anna sorria e lhe dizia que ele poderia voltar para vê-la trabalhando, entretanto, ele só se deitaria com a puta da Katerinne. A não ser que tivesse com muito dinheiro. Sob esta condição, talvez ela se deitasse com ele.

Vladimir, irado, disse que não se deitaria com nenhuma prostituta. Lamentou-se profundamente pela decisão tomada por Anna. Falou sobre Dimitry, dizendo que caso ela desejasse ver o filho, as portas estariam sempre abertas para que pudesse visitar o garoto.

Saiu do prostíbulo disposto a não voltar mais. Seu coração estava em pedaços por causa de um amor não correspondido. Vladimir percebeu que em seu relacionamento nunca havia tido uma troca. Não havia reciprocidade. Não existia cumplicidade. Era uma relação unilateral, na qual somente ele estava disposto a dar.

Seria impossível uma relação nesses moldes dar certo. Pensava em como tinha sido ludibriado durante tanto tempo por uma mulher que não tinha um pingo de amor em seu coração. Uma víbora que, de tanto veneno, não havia armazenado sequer uma dose de amor para o próprio filho.

Talvez um dia, ela provasse do próprio veneno. Se já não estivesse provando. Por mais que aparentasse toda aquela soberba, Anna estava sofrendo a rejeição de seu grande amor. Era difícil chegar a todas essas conclusões, entretanto, era necessário.

O vendedor de sapatos Vladimir Svalonilov estava certo de que conseguiria superar sua desastrosa relação amorosa.

CAPÍTULO 19 – Publicado em 28/10/2017

Deveriam ser dez horas da noite quando retornei ao nosso quarto. Estava satisfeito com a refeição que havia acabado de fazer. Pensei em levar um pouco para Nikolai, entretanto, não o fiz. Não queria incomodá-lo. Interromper o seu trabalho àquela hora poderia significar uma terrível perda de suas idéias. Ele jamais me perdoaria…

Procurei não fazer nenhum barulho para que ele sequer notasse minha presença no local e obtive êxito.

Ele escrevia quase sem parar. O som da caneta deslizando pelo papel era como música. Uma música quase que contínua, interrompida por algumas frações de segundo quando o escritor terminava de registrar uma palavra e se iniciava a seguinte.

Imaginei que ele fosse trabalhar durante toda a noite e resolvi ir dormir. Estava enganado. Vinte minutos depois, Nikolai também foi dormir.

Estava curioso para ler o restante da história sobre Anastácia e me levantei. O sono que estava quase me dominando se dissipou diante da minha grande curiosidade e me pus a procurar em meio a toda aquela bagunça os manuscritos que se referiam a nossa vizinha.

Não encontrava o que buscava, todavia, encontrei alguns textos que não faziam muito sentido, pelo menos não na ordem em que estavam. Sabia que, por mais confuso que aparentasse ser o trabalho de Nikolai, em sua mente ele saberia montar o quebra-cabeça que todas aquelas folhas soltas representavam e sem sombra de dúvidas, comporia um belo livro.

Um dos textos dizia o seguinte:

Estava frio, muito frio, minha velha calça e meu casaco de lã já não podiam conter mais aquela temperatura. Minhas mãos pareciam estar paralisadas dentro dos bolsos; meu rosto queimava diante de tanta neve; minhas pernas, quase que imóveis, só prosseguiam porque obedeciam às ordens do coração. Não encontrava uma viva alma por aquelas estreitas ruas… Ninguém, ninguém sabia ao certo o seu paradeiro… Eu, apenas possuía um pedaço de papel rasgado com um endereço incompleto. Estava prestes a desistir, parecia que quisera realmente se esconder e se esquecer de mim.

Caminhava vagarosamente sem direção quando me deparei com um lindo jardim diante de uma enorme casa.  Extático, fiquei a contemplar a neve sobre aquelas flores que fazia com que sua fragrância aumentasse ainda mais.  As rosas conseguiam desviar minha atenção, simbolizavam perfeitamente o que sentia; tinham a beleza do amor, o cheiro do desejo e os espinhos da dor.

Sem perder tempo, comecei a auferi-las com o intuito de levá-las para o meu grande amor.  Quando me levantei com as rosas nas mãos, ouvi uma porta se abrindo, vagarosamente me virei e eis que uma linda jovem estava postada junto à porta; nunca havia visto aquela mulher em toda a minha vida. Não falava nada, somente me observava… Logo percebi que se tratava da proprietária daquele imenso jardim, certamente não aprovava minha atitude.

Não, definitivamente não era isso, seus olhos acompanhavam todos os meus movimentos, havia fogo em seu olhar; sentia o meu corpo todo arrepiado.  Frio?  Não, puro desejo que me era transmitido.  Suas mãos tocavam em seu roupão e eu podia sentir como se tocasse em meu corpo, era algo novo, mágico, inexplicável.  Cada movimento seu era um convite para que eu pudesse me aproximar.  Com as rosas nas mãos, comecei a me aproximar sempre olhando no fundo dos seus olhos, que brilhavam como as estrelas do céu.

Ao entregar-lhe as rosas, peguei em suas mãos macias e delicadas e entramos para a casa.  Uma sala enorme, com móveis antigos, mas muito bem conservados; ao fundo, uma lareira e próximo a esta, um elegante tapete de pele de urso.  Um perfeito cenário para…

Aproximando-se da lareira, minhas mãos deslizaram por seus cabelos, dirigindo-se até o rosto; quando meus dedos tocaram os lábios, ela tirou meu velho casaco e começamos a nos beijar.  Tinha os seus lábios contra os meus, queria beijá-la eternamente; levei minhas mãos até o seu roupão e desfiz o laço. Ela, imediatamente me jogou em cima do tapete e sentando sobre o meu peito começou uma série de carícias; sorri e deixei que começasse a me arranhar.

Suas unhas deixavam verdadeiras trilhas sobre os meus pêlos, arranhava e beijava todo meu corpo intensamente, até então, que levou a mão em direção a minha calça, desabotoou e lentamente começou a me despir. Deitado, ergui os braços e terminei de tirar o roupão que já estava praticamente caído.

Peguei uma das rosas e derramei gotas d´água sobre sua boca… Seus seios… Umbigo… Elas conheciam o seu corpo… Eu perseguia todas as gotas, assim como, um caçador persegue sua presa.

Pétalas de rosas eram jogadas sobre nossos corpos e o aroma perdurava por todo aquele momento prazeroso.  O fogo que aquecia aquela casa não era mais abrasador que nossos corpos.  Sorríamos…

Eu temia estar em transe… Apaixonado nos braços de uma estranha, maravilhado com aquele momento, havia me esquecido por completo de que estava procurando o meu grande amor.

Fim.

Era difícil chegar a uma conclusão razoável sobre o texto que eu havia acabado de ler. Nikolai sequer enumerava suas folhas, até hoje, não sei como ele conseguia escrever coisas interessantes e importantes para o seu povo sem um mínimo de organização.

Acabei desistindo de tentar entender o texto e continuei procurando por qualquer anotação que se referisse à vizinha do 104.

Enquanto continuava minha incessante busca, acabei descobrindo um outro texto que para mim, pouco importava. Dizia o seguinte:

Estava arrepiado, suave vento litorâneo me envolvia, como uma sereia envolve marinheiros com seu canto sobrenatural. Céu, pleno na sua cor azul, sem nenhuma nuvem, parecia um infinito espelho refletindo a imagem do imenso mar imponente.

Diante do vasto cenário azul, o Sol se destacava como autêntica estrela que é. Cada passo dado nos finos e quentes grãos de areia fazia com que eu me sentisse um verdadeiro artista que deixava sua assinatura em forma de pegadas naquele extraordinário cenário. As ondas do mar; barulho… Música… Som não encontrado em nenhuma parte do mundo. De encontro às rochas, as ondas quebravam, produzindo um som que se misturava ao cântico das várias espécies de pássaros que sobrevoavam aquela região montanhosa, formando lindas melodias.

Uma pequena embarcação, lá ao longe, na linha do horizonte, parecia uma mancha de tinta no quadro de um pintor. Embarcação?! Pequena?! A distância a transformara em pequena, mas o certo é que não se sabia o seu tamanho e nem mesmo se percebia se ela estaria indo mar a dentro ou vindo em direção à praia.

Pensei que aquela praia fosse deserta, justamente o que eu estava procurando. Precisava ficar um pouco só. Queria colocar minha vida no eixo.  Estava tão só, tão à vontade, que resolvi ficar nu. Era Adão no paraíso.

Como o calor era intenso, resolvi adentrar no mar para me refrescar. Mergulhei em suas azuladas águas que se tornavam brancas como neve em sua arrebentação. Sob a água, um deslumbrante cardume bailava juntamente com vários tipos de plantas marinhas. Verdadeira perfeição.

O fato de estar sem roupa, dava-me a sensação de fazer parte de um mundo simples e natural; identificava-me, de certa forma, com toda aquela natureza e parecia que sempre vivi assim. Sentia-me livre. Livre da poluição, livre do trabalho, livre de regras e compromissos, livre dos relacionamentos confusos, livre de tudo. Era um animal racional cercado por irracionalidades mais racionais do que eu poderia imaginar.

Terminado o mergulho, dirigi-me até a areia e sentei bem próximo do mar. As ondas vinham em minha direção e tocavam suavemente o meu corpo parecendo o toque de uma mulher.

Uma mulher fogosa, que afagava minhas pernas com unhas e dentes para demonstrar que sabe realmente o que quer… Uma onda mais forte e agressiva fez com que eu parasse de fazer comparações entre o toque da água do mar e o toque de uma mulher; fez também, com que eu percebesse, que a embarcação já não estava mais na linha do horizonte, e sim, estava ancorada próximo à praia. Havia perdido a noção de tempo e espaço.

Tratava-se de um pequeno barco de pesca. Não me interessando em saber quem estava no barco e muito menos, importando-me com a presença de quem quer que fosse, deitei-me… De bruços, tendo as ondas do mar tocando meus pés, enquanto o Sol aquecia minhas costas e nádegas.

Depois de algum tempo em que estava deitado, senti um toque. Um leve toque. Não eram as ondas do mar. Talvez… Uma mão! Sim, mãos macias como seda, mãos de mulher.

A curiosidade me deixava ainda mais excitado, queria olhar. Queria saber quem era, porém, o anonimato fazia um verdadeiro estardalhaço na minha alma. Seus dedos deslizavam sobre minhas costas, sobre minhas pernas… Misturando-se com as águas do mar. De repente, uma leve mordida em minha coxa, fez com que eu levantasse a cabeça e abrisse os olhos… Eva!!! Tocou-me e sorriu; talvez tivesse desembarcado do barco que estava próximo à praia.

Quando pensei em lhe fazer algumas perguntas, ela se deitou ao meu lado.  Passou as mãos pelo meu corpo com certa admiração que consegui captar através de seus olhos.

Permanecendo de bruços, olhava para ela, enquanto ela me tocava com os lábios. Podia sentir o gosto dos seus lábios através da minha pele. Seus lábios eram mágicos, só poderiam ser. A boca deslizava em meus ombros enquanto roçava vagarosamente suas pernas contra às minhas. Beijou o meu pescoço, subindo em cima de mim… Senti o toque dos seus seios em minhas costas enquanto ela sugava minhas forças com os dentes. Tirei-a de cima de mim com um pequeno movimento e a beijei.

Não parávamos, aquele prolongado beijo tinha um toque especial. Tinha a aprovação das ondas do mar que nos molhavam constantemente. Queria sentir o restante de seu corpo…

Parecia desfalecida tamanha a sensação de prazer que sentiu quando minha boca tocou em seu vestíbulo.

Seu sexo se misturava aos meus lábios. Lábios contra lábios. A excitação havia se generalizado, já não tínhamos controle sobre nossos corpos. Uma estranha força nos impulsionava a proporcionarmos o encontro entre nossos sexos. Nada na minha vida havia sido mais perfeito do que aquele momento.

Depois de um impreciso tempo, uma onda literalmente arrebentou em cima de mim. A maré estava subindo e eu percebi que tinha dormido e havia sonhado com uma incrível mulher.

Fim.

Estava ainda mais confuso. Realmente não fazia muito sentido. Jamais havia visto uma narrativa como essa nos livros de meu amigo Nikolai. A começar pelo lugar paradisíaco descrito no texto. Nunca ouvi nenhum relato de sua parte que se aproximasse do conteúdo narrado.

Até mesmo o estilo literário era diferente do seu. Nos dois textos. Parecia ser de outro escritor, embora a letra fosse a dele. Bem! Ele simplesmente poderia ter copiado. Mas com que finalidade? O que pretenderia com esses textos? Acaso os textos se complementariam? Quem seriam estas mulheres? Acaso estes textos fariam parte de seu novo livro?

Uma outra coisa que me impressionou foram os nomes próprios utilizados na narrativa. Adão e Eva. O que poderia significar esses nomes em um texto de Nikolai S. Andreiev?

Estaria ele fazendo referências a Adão e Eva em um paraíso como o texto de Gênesis? Haveria alguma relação entre desejo e pecado? Seria algo relacionado à concepção do ser humano? O que Nikolai estaria buscando em Adão? Ou em Eva? Quem seria o Adão e a Eva na concepção do autor? Seria, talvez, alusão a alguma pessoa especificamente? Ou seria mais um de seus textos sem maiores compromissos para com o leitor?

Ah! Sim! Creio ainda não ter mencionado sobre esse fato. Nikolai, às vezes, como forma de exercitar sua capacidade criativa, escrevia ininterruptamente sem se preocupar com o resultado final de seu trabalho. Ao final do exercício, verificava se o conteúdo registrado valia a pena ser aproveitado. Caso pudesse ser aproveitado, o texto era melhor trabalhado antes que chegasse às mãos dos leitores. Se ele não encontrasse nenhum valor, o texto iria parar no lixo.

Preferi pensar que os textos faziam parte de seus exercícios e não me preocupei em desvendá-los.

Desejava encontrar algo que fosse referente à vizinha do 104. Vasculhei uma enorme quantidade de papel e não consegui encontrar nada que se referisse ao lado obscuro de Anastácia.

Nikolai permanecia dormindo. Por certo estava muito cansado. Tive receio que acordasse e me encontrasse mexendo em suas coisas. Não ficaria nada satisfeito se me pegasse lendo suas anotações sem o seu consentimento.

Caminhei por alguns poucos metros, pisando a sujeira que tomava conta do nosso quarto e me deitei na cama, ao lado dele. Estava frio e sem dúvida nenhuma o calor de seu corpo me aqueceria.

Seu sono era tão profundo que não percebeu minha companhia ao seu lado. Eu também queria dormir, mas não conseguia. Não conseguia parar de pensar na história da nossa vizinha. Creio que minha maior curiosidade fosse referente à veracidade dos fatos que Nikolai havia narrado.

O pior de tudo é que do jeito que ele era, não era de se estranhar que não mais me deixasse ler seus originais. Às vezes, aguçava a minha curiosidade e eu só ficava sabendo o restante da história depois.

Como não havia nada que eu pudesse fazer, não naquela noite, esperei que o sono me arrebatasse, talvez dormindo, entenderia melhor os mistérios de Nikolai S. Andreiev.

Não demorou mais do que quinze minutos para que eu me encontrasse em um sono profundo. Mesmo durante meu precioso sono, Nikolai e as pessoas que cruzaram o seu caminho não me deixavam em paz. Meus sonhos eram invadidos pelo escritor e por todos os outros que marcaram sua vida…

CAPÍTULO 18 – Publicado em 25/10/2017

No dia seguinte ao término dos exames, Dimitry compareceu à escola. Estava nervoso. Não sabia como os outros garotos iriam reagir à sua presença.

Havia algumas pessoas em frente ao colégio. Alunos e pais que esperavam por uma solução definitiva diante do impasse que havia sido criado.

Quando o garoto se deu por conta, estava rodeado por curiosos. Alguém gritou dizendo para que ele tirasse a máscara. Outros riram com a brincadeira maldosa, mas ele não se deixou abater.

O diretor Boris quando viu o garoto rodeado por toda aquela gente, correu para tirá-lo de lá. Os pais aproveitaram a fato para reafirmarem suas decisões. Segundo eles, se o garoto entrasse na escola, os demais iriam sair.

– Que saiam todos, então! Que o diabo os carregue a todos para o quinto dos infernos! Acaso vocês se esqueceram de que esta é a única escola na cidade?  – interrogou furioso o diretor.

A consciência de Boris o perturbou durante toda a noite, não o deixando dormir. Narrou para a sua esposa toda a história que o pequenino Dimitry lhe havia contado.

Ela ficou emocionada ao saber que havia sido salva por uma criança tão especial e se irou, ao tomar conhecimento de que várias pessoas se manifestavam contra a entrada do garoto na escola.

Brigou com o marido por ele ter tentado impedir a entrada do menino no único estabelecimento de ensino que havia na cidade. Disse a Boris que repensasse toda a sua vida, todos os seus valores, tudo o que o garoto havia lhe dito e pusesse em uma balança o que fosse realmente importante.

A conversa que o diretor teve com a esposa, foi suficiente para que ele mudasse seu comportamento e suas atitudes com o jovem Dimitry.

Quando Dimitry entrou na sala de aula, não encontrou ninguém. Nem mesmo o professor, que já deveria estar dando aula há quinze minutos, encontrava-se no recinto. Havia mandado um recado dizendo estar febril, por isso não compareceria ao trabalho.

Aquela sala de aula não era a que Dimitry havia idealizado. Esperava qualquer tipo de coisa, menos aquilo. Uma sala repleta de cadeiras vazias… Somente ele, nem mesmo um professor… Pensou que talvez tivesse sido melhor continuar estudando em casa, ao menos lá, havia um professor.

Como não houvesse muito a fazer, o diretor Boris, resolveu fazer companhia ao pequenino. Aproveitou a oportunidade para agradecer-lhe por ter salvo a vida da esposa e dizer que ela lhe havia enviado uma pequena lembrança pelo gesto que ele havia realizado.

O coração de Dimitry pulsou mais forte. Eram palavras que não esperava ouvir. E pelo o que o diretor dizia, a pequena lembrança seria entregue ao final da aula, pois estava lá fora.

A curiosidade o invadia de tal forma que ele se questionava a respeito do encerramento da aula. Queria ver o que era e como não estava tendo aula, levantou-se para ir dar uma olhadinha no seu presente.

– Um momento! – disse o diretor.

– Mais eu só vou dar uma espiadinha… – disse o pequenino demonstrando toda a sua curiosidade.

– Após o término da aula…

– Mas não tem aula! Não tem nem professor…

– Como não! O que você pensa que sou?

Dimitry sorriu com a indagação feita por Boris. Caminhou de volta para o lugar que estava sentado e ficou atento às explicações do diretor-professor.

O diretor Boris, pela primeira vez, havia dado aula para um único aluno. Sentiu como se fosse a melhor aula da sua vida, sentia-se leve, em paz consigo mesmo. Estava certo da atitude que havia tomado. Lutaria com todas as suas forças pela permanência do garoto na escola.

Assim que o tempo se esgotou, o garoto correu para ver o presente que havia ganhado da esposa do diretor. Não acreditou quando seus olhos viram aquele lindo cavalo amarrado em uma árvore, nos fundos da escola.

– O senhor tem certeza de que realmente é para mim? – indagou incredulamente o pequenino Dimitry.

– Mas é claro! Esse potro é filho daquele mesmo cavalo fujão que ocasionou aquele acidente com minha esposa…

Boris disse que a esposa fazia questão de que ele aceitasse o presente. Não aceitaria um não como resposta. Ela sabia que o cavalo ficaria bem nas mãos de uma pessoa extremamente cuidadosa como Dimitry.

O garoto chorava de felicidade. Acariciava o belo animal… Andava de um lado para o outro como se nada daquilo estivesse acontecendo. Questionava consigo mesmo se tudo aquilo não se passasse de um simples sonho…

Voltou novamente a acariciar o animal… Tinha vontade de gritar… Queria por para fora tudo o que estava sentindo… Era até engraçado! Aquele animal fazia com que Dimitry tivesse as melhores sensações já vividas em toda a sua vida.

Agradeceu veementemente ao diretor e pediu para que ele o ajudasse a montar. Saiu galopando em direção a sua casa entrecortando o vento, que levemente soprava em todas as direções. Domava o cavalo com extrema habilidade. Era um cavaleiro, um pequeno grande cavalheiro.

Assim que o garoto se foi, o diretor Boris começou a pôr em prática o seu plano para que os outros alunos retornassem à escola. Era preciso agir rápido para que uma evasão escolar não se consolidasse.

Não foi difícil fazer a notícia circular. Em algumas horas todas as pessoas já estavam sabendo do ato heróico do pequenino Dimitry. Como a notícia corria de boca em boca, houve gradativamente, um aumento na narrativa. Pequenos detalhes ganharam proporções inenarráveis e no final das contas… Bem, no final da história, o pequeno pobre diabo havia se transformado em um mago que havia usado seus poderes para salvar a vida da esposa do diretor.

Outros, menos exagerados, passaram a enxergar um bom coração por de trás daquela horrível face. Algumas pessoas perceberam que não se deve julgar pela simples aparência. Outros, simplesmente continuavam com os mesmos pensamentos discriminatórios, condenando a diferença do garoto. Mas, como eram minoria e dependiam da escola, decidiram acabar com as manifestações contra a inclusão do pequenino Dimitry na escola.

No dia seguinte, as coisas estavam bem diferentes. Dimitry chegou cavalgando. Era o único garoto que ia para escola em seu próprio cavalo. Os demais sentiram um misto de inveja e de admiração.

A sala de aula estava repleta, com todos os alunos presentes. Dimitry estava estupefato com todos aqueles garotos reunidos. Reconheceu alguns deles… Os mesmos que o tinham agredido próximo ao açougue, entretanto, não teve medo.

Durante a aula, procurou não se distrair com alguns dos garotos que estavam conversando. Anotava quase tudo o que o professor falava, mesmo quando ele dizia que não era necessário anotar.

Somente na hora do intervalo foi que Dimitry se deu conta de que também havia garotas na escola. Elas estudavam em salas separadas.

“Como são lindas! Como são diferentes! Elas já têm…”.

Pensava nas garotas quando em questão de segundos foi rodeado por grande parte dos alunos. Meninos e meninas, curiosamente o interrogavam sobre o seu tamanho, sua aparência, a história sobre a esposa do diretor Boris, o cavalo que ele havia ganhado de presente…

A princípio, Dimitry se sentiu incomodado com todas aquelas perguntas. Principalmente sobre sua aparência, entretanto, como viu que ninguém tencionava agredi-lo, respondeu naturalmente às perguntas feitas pelos colegas.

Achava graça quando alguns garotos referiam-se aos seus “poderes”… Explicou várias vezes que não tinha feito nada demais ao salvar aquela mulher, embora alguns garotos continuassem a crer nos poderes que Dimitry não possuía.

Respondeu a todas as perguntas feitas. Mesmo às que no fundo o incomodaram. Sabia que tinha que se acostumar a encarar a tudo e a todos de cabeça erguida. Não deixaria que sua aparência falasse por si só.

Ele acabou se acostumando com tudo aquilo e até mesmo gostando. De certa forma, sua diferença estava fazendo diferença. Ele estava feliz por se aproximar das outras crianças.

É claro que havia pessoas que sequer olhavam para ele. Alguns garotos o ignoravam por completo, não estavam dispostos a se aproximar e quando a aproximação era uma tentativa da parte de Dimitry, eles se esquivavam.

O pequenino não agradava a todos e sabia perfeitamente que não conseguiria tal proeza. Dava-se por satisfeito pela reviravolta que sua vida havia tomado.

Conquistou rapidamente os professores. Não somente por se mostrar dedicado aos estudos, mas principalmente por demonstrar respeito, educação, gentileza e amabilidade para com os mestres e para com os colegas, mesmo para com aqueles que desprezavam sua cortesia.

O fato de o jovem Dimitry ter ido estudar na escola foi uma vitória não só dele e de seu pai, mas uma conquista de toda a cidade. Uma cidade que poderia se orgulhar em um futuro bem próximo por ter crianças que certamente saberiam conviver em sociedade com todo e qualquer tipo de diferença. Diferentemente da geração de seus pais.

CAPÍTULO 17 – Publicado em 23/10/2017

Depois de alguns dias somente bebendo vodka, sem colocar sequer um pouco de comida na boca, Vladimir passou mal e foi socorrido pelo filho que rapidamente trouxe um médico a casa.

O médico o examinou e deixou algumas recomendações com Dimitry, com o intuito de que seu pai se recuperasse o mais rápido possível.

Cinco dias se passaram e Vladimir já estava melhor. Voltou a se alimentar e estava com uma boa aparência. Havia refletido sobre tudo o que tinha acontecido e estava disposto a superar a traição e o abandono da esposa, pelo menos a princípio. Dizia para si mesmo que não se envolveria com mais nenhum tipo de mulher. Iria somente se dedicar ao trabalho e a cuidar do filho. Entretanto, uma coisa não saía de sua cabeça: desejava saber quem era o amante da mulher. Quando pensava nisso, o corpo esquentava todo, como se uma fogueira fosse acesa debaixo dos seus pés.

Enquanto não descobrisse quem era o homem com quem ela o havia traído, ele decerto, não sossegaria. Mil e uma coisas passavam pela sua cabeça a respeito do que faria quando estivesse de posse do nome do desgraçado.

Dimitry aconselhava ao pai para que desistisse dessa missão. Seria melhor para todos. Não queria ver o pai metido em confusão.

Era inútil qualquer conselho. Nem mesmo o filho conseguia fazer com que ele desistisse da verdade.

– O senhor deveria ir buscar minha mãe e não ficar querendo descobrir com quem ela o traiu. – disse Dimitry ao pai.

– O que é isso? Ela nunca gostou de você! Sempre o tratou como um animal… E você… Você quer que eu vá buscá-la?

– Sim! Ela é minha mãe…

– Ela é uma vagabunda que não merece ser chamada de mãe… Ela te chamava de pobre diabo.

– Eu sei, pai! Eu sei! Ela também me disse um monte de besteiras. Disse que tudo em que toco, torna-se podre! Mas… Mas aqui é o lugar dela…

– Não sei se posso fazer isso, filho! Não sei se posso…

Houve um silêncio. Os dois não pronunciaram uma só palavra. Ouvir-se-ia perfeitamente uma agulha cair no chão. Pai e filho sabiam que deveriam dar uma segunda chance a Anna.

Vladimir relutava consigo mesmo para concordar com os próprios pensamentos. Nunca poderia aceitá-la novamente em casa. Ela o havia traído! Ele que era homem, nunca havia feito tal coisa, sequer olhava para uma outra mulher. Como ela poderia ter feito aquilo? Agora, estava prestes a deixar seu amor próprio de lado e mostrar que era digno de praticar um gesto nobre perdoando à esposa.

– Não sei, não, Dimitry! Não sei se dará certo…

– Vai dar tudo certo, pai…

– Ela não merece, filho! Você sabe disso tão bem quanto eu.

– Nós também já erramos, pai! Não podemos julgá-la.

Eles nem mesmo cogitaram a possibilidade de ela querer voltar para casa.

Anna estava vivendo no prostíbulo de Katerinne. Sabia que Katerinne não gostava dela, entretanto não tinha para onde ir.

Enquanto se recuperava da desilusão sofrida com o escritor, pensava no tempo em que estava disposta a vender a alma ao diabo, se preciso fosse, para ficar ao lado de Nikolai. De certa forma, sua alma já havia sido adquirida pelo diabo. Katerinne! Com certeza ela não a deixaria ficar ali por muito tempo e lhe cobraria a estada.

Anna não tinha nenhum dinheiro. Não queria voltar para casa. Mesmo rejeitada pelo escritor, estava disposta a seguir em frente. Não sabia como, mas tinha certeza de que nunca mais colocaria os pés em casa novamente. Desejava ser livre e queria ter subsídios para poder voar, bem longe do marido e principalmente do filho.

Havia uma coisa de que Anna não sabia. Depois que Katerinne soube do rompimento entre os amantes, passou a olhá-la com outros olhos. Via uma beleza descomunal que poderia ser bastante lucrativa para seus negócios. De forma alguma desejaria o mal dela, o que ela queria, já havia sido consumado: o relacionamento de Anna com Nikolai havia se dissipado.

Anna estava desconfiada do cortês tratamento que recebia da parte de Katerinne. Ainda a olhava como uma rival e não tinha atinado sobre o local onde estava vivendo naqueles dias.

Não tardou muito para que a dona do prostíbulo falasse de suas pretensões em relação à permanência dela naquele lugar. Informou-a de todas as normas e todos os procedimentos da casa. As outras mulheres se encarregariam de instruí-la melhor caso desejasse ficar.

– Caso não queira… A saída é aquela ali. – disse Katerinne à Anna, apontando para a saída da casa.

Ela ficou. Não havia uma outra alternativa. Pensava que nada mais no mundo pudesse assustá-la ou até mesmo chocá-la. Quem já havia passado todos os tipos de sofrimento como ela, levaria tudo aquilo como se estivesse em uma festa. Talvez uma longa festa…

 As primeiras noites foram um pouco complicadas. Nada que algumas doses de vodka não resolvessem. Anna começava a despertar o desejo da maioria dos homens da cidade.

Nikolai ficou algum tempo sem aparecer no prostíbulo. Evitava ter que olhar nos olhos de Anna, embora seus instintos carnais lhe exigissem que comparecesse à casa mais famosa da Rua das Prostitutas.

Nessa época, estava escrevendo um livro intitulado: TRAIÇÃO E MORTE NO COVIL DA PROSTITUTA.

Em uma determinada noite, não muito tempo depois do rompimento com Anna, alguém bateu fortemente na porta de sua casa.

– Quem é? – perguntou Nikolai.

– Sou eu! Vladimir Svalonilov! Vendedor de sapatos, pai do pequenino Dimitry.

– Eu não quero sapatos… Vá embora!

– Eu não vim vender sapatos! Abra a porta, precisamos ter uma conversa de homem pra homem.

Temeroso, o escritor abriu um pouco a porta para ver se Vladimir estava armado. Como não viu nada, pelo menos a princípio, e pelo fato de ele estar com um semblante tranqüilo, Nikolai acabou abrindo a porta, deixando que o marido traído entrasse na casa.

Não foi difícil para Vladimir descobrir toda a verdade. Alguns dias depois que Anna saiu de casa, toda a cidade passou a comentar sobre o seu relacionamento com o escritor Nikolai S. Andreiev.

– Sente-se! – disse Nikolai.

Depois que Vladimir se acomodou em uma das cadeiras, tirou do bolso do paletó direito um pequeno revólver. Do bolso do paletó esquerdo, tirou uma faca.

Nikolai se afastou instintivamente. Com os olhos arregalados disse ao marido traído que já não tinha mais nada com Anna. Tudo não havia passado de uma simples aventura.

Como Vladimir só o olhava, Nikolai sentiu que estava perto de se encontrar com a morte. A sensação real de morte era completamente diferente de tudo o que já havia escrito. Não encontraria palavras adequadas para escrevê-las em um papel, caso tivesse a oportunidade de se fazer isto.

O coração do escritor batia em um ritmo frenético. Um estranho frio invadiu seu corpo de forma que eram visíveis alguns tremores. Não conseguia controlar a agitação de algum de seus membros perante o seu provável algoz.

– Sente-se! – ordenou Vladimir.

– Não, estou bem assim. – disse tremendo o escritor.

– Não estou pedindo… Estou mandando!

– Está bem! Cuidado com isso…

– Sabe por que estou aqui, escritor?

– Não, eu…

– Cale-se! Não diga nada! Estou aqui pra pôr um ponto final em toda essa história…

Vladimir, com as armas nas mãos, estava visivelmente alterado. Falava sobre a sua honra e sobre todas as dificuldades que havia passado na vida. Utilizava algumas poucas palavras rebuscadas do seu pobre vocabulário para impressionar o escritor e em determinados momentos, chorava.

O escritor tentava dissuadi-lo de um possível crime. Tentou falar a respeito de Anna, mas Vladimir o impediu:

– Não ouse mencionar o nome dela novamente, está me ouvindo?

Nikolai somente acenou com a cabeça. O suor lhe escorria pela testa. Suas mãos, não menos suadas, percorriam de minuto a minuto os cabelos, que em pouquíssimo tempo, também se encontravam molhados.

Vladimir colocou a faca no bolso e com a mão livre tirou um cigarro do bolso de seu surrado paletó. Antes de acendê-lo, perguntou ao escritor se ele desejava fumar.

Como Nikolai acenou de forma negativa com a cabeça, Vladimir sorriu e disse que ele deveria aceitar, pois poderia ser sua última tragada na vida.

Apressadamente, o escritor aceitou o cigarro e juntos fumaram sem nada dizerem. Vladimir buscava os olhos de Nikolai, mas ele evitava encará-lo face a face. Medo… Vergonha… Arrependimento… Talvez um pouco de cada coisa. O fato é que em meio a algumas baforadas de cigarro, o tempo parecia paralisado.

A angústia tomava conta do escritor de tal maneira que, por alguns momentos, teve vontade de arrancar o revólver das mãos de Vladimir e pôr fim à própria vida. Era terrível se deparar com a morte, sem saber se realmente a encontraria.

– Aceita um outro cigarro? – perguntou Vladimir ao escritor.

Como Nikolai nada respondeu, Vladimir deduziu que ele não mais fumaria. Tornou a pegar a faca e perguntou ao escritor como ele escreveria o próprio fim. Desejou saber se ele preferiria levar um tiro ou se uma facada no coração seria um jeito melhor para se morrer.

– Talvez uma facada no coração seja mais poético… – ironizou Vladimir.

O escritor não achou graça nas palavras. Limitava-se a olhar para baixo sem nada dizer. Via toda a sua vida passar diante de si. Temia que tudo acabasse de uma forma tão banal, como se desenhava. Seria um triste fim.

Pensou nas coisas que não pôde fazer. Nas coisas que sempre deixava para depois. Pensou que poderia ter contemplado as belezas da natureza nos momentos que teve oportunidade. Imaginou outras tantas coisas, até que bruscamente teve seus pensamentos interrompidos por Vladimir:

– Eu gostava de você! Eu gostava de você… Nikolai S. Andreiev. O grande escritor… O romancista… O poeta do povo… O escritor que “enforcou o homem de sangue azul”… O homem que escreveu para o povo… Sim! Eu gostava de você… Gostava! Está me ouvindo? Você…

Enquanto Vladimir discursava para o assustado escritor, retirou todas as balas do revólver. Logo em seguida, pegou uma única bala e a pôs na arma, girando fortemente o tambor do revólver.

Nikolai não teve nenhuma reação. Vladimir apontou a arma em direção ao escritor e apertou o gatilho.

Um leve barulho ecoou pela casa como se a arma não estivesse carregada. Havia uma única bala e para a sorte de Nikolai, esta bala não foi disparada.

– Você é um homem de muita sorte! – exclamou Vladimir e complementou – Quando eu entrei em sua casa, estava disposto a lavar minha honra com sangue. Entretanto, lembrei-me de algo que aconteceu há algum tempo. Quando meu filho Dimitry foi agredido por todos aqueles garotos, você foi o único que se importou com ele. Também agiu a favor do meu filho quando ele fez os exames para entrar na escola. Você sempre foi bom pra ele… Lembro-me perfeitamente de que eu disse que tinha uma dívida de gratidão com você…

E o vendedor de sapatos relembrando os fatos disse que a dívida estava paga. Estavam quites. Disse ainda que, quando o escritor o visse em qualquer lugar, que mudasse de rumo para não se encontrarem. Ele faria o mesmo.

Vladimir saiu da casa de Nikolai disposto a não encontrá-lo novamente. Iria atrás de sua esposa. Não somente porque o filho tinha pedido: no fundo, ele ainda a amava e estava disposto a perdoar-lhe. Restava saber se ele obteria êxito em seu intento, já que agora, Anna era a mulher mais requisitada do prostíbulo.

CAPÍTULO 16 – Publicado em 21/10/2017

Nikolai S. Andreiev. Este foi um dos nomes mais pronunciados por todo o país durante um determinado tempo. Livros como O GRANDE PEQUENINO TZAR – A LUTA PELO SOBERANO PODER e O IMPERADOR FANTOCHE, deram ao escritor notoriedade e respeito entre os intelectuais e entre grande parte da população. Entretanto, passou por uma série de transtornos em função de seu sucesso.

Esteve refugiado por quase dois anos. Nunca revelou a ninguém onde havia se escondido. Talvez temesse pela vida dos amigos, ou quem sabe, tivesse que fugir repentinamente e… Com certeza não haveria lugar mais seguro.

Deveriam ser quase sete horas da noite. Não o tinha visto desde a última vez que falamos sobre Nádia. Eu havia adormecido e quando acordei, não o encontrei mais no quarto. Nikolai ia sempre aos extremos… Ora trabalhava como um louco sem sair do quarto, ora não sossegava em lugar nenhum. Estava ficando preocupado com sua demora.

Resolvi ir procurá-lo. Não precisei ir muito longe. Encontrei-o no corredor, parado em frente à porta de um de nossos vizinhos, o 104. Ele espiava pelo buraco da fechadura.

– O que fazes aí? – perguntei.

– Psiuuuuuuu! Não faça barulho. Estou fazendo pesquisa de campo.

– Deixe disso! Venha para cá…

– Daqui a pouco… Preciso constatar algo.

Acabei voltando ao quarto esperando-o para que pudesse me esclarecer sobre o que ele estava fazendo. Quem morava no 104 era nossa vizinha, Anastácia. Uma mulher elegante de estranhas manias.

Ela não gostava muito de conversas. Jamais havia me cumprimentado. Sempre de nariz empinado, quase pisava em cima de mim. Lembro-me de tê-la visto conversando com Nikolai. Pouquíssimas vezes, é verdade, mas já haviam trocado algumas palavras.

Não demorou muito e Nikolai acabou retornando ao quarto. Pegou algumas folhas de papel e se pôs novamente a trabalhar. Enquanto trabalhava, dizia-me que há algum tempo observava nossos vizinhos com a finalidade de relatar fidedignamente a que ponto poderia chegar um ser humano.

A princípio, não compreendi muito bem o que ele realmente queria dizer. Qual seria o ponto a que um ser humano chegaria?

Nikolai não fez a mínima questão de me dar melhores esclarecimentos sobre o assunto. Disse-me que eu teria que descobrir tudo sozinho. Entretanto, forneceu-me parte de seus manuscritos – o original de seu novo livro – para que eu pudesse ter a mínima noção do que ele havia se proposto a escrever.

Confesso que a mescla de informações registradas dificultava bastante a idéia principal que ele tencionava passar para o leitor. Todavia, conversando com o autor, tudo ficou mais fácil, mesmo porque, havia fatos antigos registrados que eu já conhecia da boca do próprio escritor.

Nikolai relatava a vida presente, passada e prognosticava o futuro de seus vizinhos… Relatava fatos de seu próprio passado, evitando um pouco o presente, sem saber ao certo o que seria de seu futuro. Talvez não tivesse noção exata do queria, ou tinha uma mente que a minha não conseguia acompanhar.

Algo em particular chamou minha atenção naquelas folhas que agora estavam em meus domínios. Eram impressões sobre a vida de Anastácia. Não sei se verdadeiras ou não, diziam o seguinte:

O Lado Obscuro de Anastácia

Dizem que na infância ela assassinou sua irmãzinha por causa de um saquinho de doces. A mãe, naturalmente pobre, comprou somente um saquinho para que elas dividissem durante o intervalo da escola.

Como os doces estavam em poder de Anastácia, ela preferiu não fazer a partilha no recreio. Disse à irmã que, quando fossem para casa, distribuiria os doces igualmente entre elas.

A irmã nunca voltou para casa. Somente Anastácia retornou ao lar sofrendo fortes dores no abdômen e com diarréia. Disse aos pais que não tinha encontrado com a irmã no local combinado. A garotinha foi encontrada morta por asfixia próximo a um penhasco que ficava a menos de dois quilômetros do caminho de sua casa.

Os pais não quiseram aceitar a hipótese de que a morte teria sido provocada pela outra filha e com o passar dos anos, acabaram se mudando por não agüentarem mais as pressões sofridas pelos vizinhos e pelas autoridades.

Não demorou muito para que Anastácia ganhasse o mundo. Abandonou seus pais aos quatorze anos de idade e se juntou a uma pequena trupe que se apresentava por toda a Rússia.

Havia se tornado uma jovem bonita e bastante atraente. Interessava-se pela profissão na qual ingressara, por outro lado, não se esforçava pelo bem do grupo. Em pouco tempo, havia conquistado a antipatia dos outros atores.

Embora Anastácia não fosse simpática aos olhos da maioria, havia uma pessoa que a endeusava. Venerava-a como um ser supremo. Conseguia enxergar qualidades que ela não tinha. Chamava-se Mikail, nada mais, nada menos, que o responsável pela trupe.

Era tudo de que ela precisava. Em pouco tempo, havia se tornado amante de Mikail. Foi a gota d´água para que os problemas começassem a surgir por todos os lados.

Em alguns meses a trupe estava desfeita. Somente Mikail e Anastácia permaneceram juntos, tentando difundir a arte teatral e sobreviver com o pouquíssimo dinheiro que ganhavam.

Certa vez, quando tencionaram ir a São Petersburgo, não conseguiram ganhar nada com o pequeno espetáculo que realizavam pelas cidades por onde passavam. A única coisa que conseguiam por parte da platéia foram vaias e algumas migalhas de pão que eram atiradas no palco (a carroça em que viajavam tinha algumas adaptações que possibilitavam transformar-se num pequeno palco).

Durante algum tempo, a única coisa que tinham para comer eram as migalhas jogadas como forma de protesto. Anastácia, sem a mínima compaixão pelo companheiro, comia quase tudo enquanto ele se trocava e tirava a maquiagem em um improvisado camarim.

O desespero passou a açoitá-los dia e noite. Discutiam e praguejavam reciprocamente. Parecia que um ponto final estava se aproximando daquela conturbada história.

Cansada das migalhas de pão, Anastácia comunicou ao amante que iria se prostituir. Disse, ainda, que se ele realmente gostasse dela, deveria se tornar um proxeneta. Sabia que, juntos, as coisas poderiam acontecer com mais facilidade.

Mikail se sentiu enojado com a proposta feita por ela. Teve vontade de abandoná-la para sempre. Nunca teria coragem… Não queria ver a sua pequenina nos braços de outro homem. Justo ela, a quem ele havia iniciado na arte do amor ter que se prostituir para poder ter o que comer.

Pensou em lhe dar uma surra, mas logo desistiu. Não adiantaria de nada. Ela estava disposta a se enveredar pelos caminhos da prostituição e ele não podia fazer absolutamente nada.

Ao menos era uma saída. Ela tinha uma saída para a fome que sentiam e ele não havia atinado em nada, quer dizer, quase nada. Ele já estava pensando em praticar pequenos furtos. Coisas que não fariam mal a ninguém. Uma verdura, um legume ou uma fruta. Quem sabe, até mesmo um animalzinho de estimação que estivesse perdido…

Enquanto Mikail se decidia se iria roubar ou não e o que roubaria, lembrou-se de que poderia pedir… Esmolaria! Como essa palavra soava duro aos seus ouvidos. Nunca tinha passado por situação tão adversa como a que estava enfrentando.

Lamentou-se pelo fato de seu país não valorizar a arte e a cultura como mecanismos de transformação de um povo.

Não adiantava ficar parado sem tomar nenhuma atitude, criou coragem e saiu batendo de porta em porta pedindo que lhe fosse dado algo para comer.

Foram várias as portas batidas na cara. Nunca havia sido tão humilhado em toda a sua vida. Sentia-se um lixo travestido em forma de gente. Era um ninguém. Um ator! Um ator que não representava suas mazelas e suas aflições, e sim, vivenciava as chagas abertas em seu espírito e tentava administrar um rombo em seu estômago.

Lembrou-se dos aplausos que já havia conquistado de milhares de pessoas pela a vida afora e agora; nenhum daqueles aplausos lhe serviria para saciar a fome. Como é estranha a dor da fome! Uma dor aguda que invade todo o ventre levando a terríveis dores de cabeça… Ruídos estranhos ecoavam pela cavidade abdominal como se houvesse alguém lá dentro reclamando pelo alimento que nunca chegava… Um terrível cansaço e uma dor nos ossos que o levavam a uma fraqueza descomedida, complementavam o seu estado. A dor provocada pela fome só não era  mais estranha do que a dor da humilhação!

Mikail pôde ver a indiferença em cada olhar, em cada gesto, em cada palavra daqueles que o enxotaram das portas de suas casas.

Estava prestes a desistir quando uma senhora, notando o estado abatido em que se encontrava, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Como não tinha nada a perder, Mikail acabou dizendo que a fome o consumia e que há horas estava esmolando e nada havia conseguido.

Penalizada com a situação do ator, a senhora o levou para fazer uma refeição em sua companhia. Ela tinha uma habitação bastante simples, embora sua mesa fosse farta.

O faminto ator comeu desesperadamente tudo o que podia. Não adiantaram as palavras da senhora dizendo que os alimentos não iriam fugir da mesa. Ele parecia não escutar e comia como se pretendesse armazenar a comida no estômago como determinados animais o fazem.

Sempre que desocupava um pouco a boca, ou seja, sempre que deixava de mastigar, ele pronunciava o nome de Anastácia e pedia a senhora que o deixasse levar alguns alimentos para a sua mulher.

Justiça seja feita, a primeira coisa que Mikail quis fazer ao encontrar a caridosa senhora, foi chamar Anastácia. Só não havia ido chamá-la por dois simples motivos: primeiro, porque teria que caminhar por quase uma hora para reencontrá-la e segundo, porque teve medo de que a senhora desistisse de ajudá-lo ou simplesmente desaparecesse.

A bondosa mulher disse que ele poderia levar o quanto precisasse. Inclusive, enquanto Mikail comia, ela preparava em alguns sacos, mantimentos diversos para que ele levasse consigo, principalmente para Anastácia. Pensava em como estaria aquela pobre mulher faminta.

Saciado e satisfeito por encontrar uma alma tão generosa, Mikail se despediu e agradeceu praticamente de joelhos o acolhimento que havia recebido. Com alguns sacos dependurados nas costas, o ator saiu cantarolando ao encontro de sua amada.

Não via a hora de reencontrá-la e dizer-lhe que ainda existiam pessoas boas no mundo. Que poderiam preparar melhor o próximo espetáculo para apresentarem nas outras cidades, já que tinham mantimentos para pelo menos uma semana, caso racionassem a comida.

Ele estava contente. Era visível que uma mudança, uma transformação havia ocorrido em sua vida. Voltava a depositar sua confiança no ser humano. O encontro com aquela senhora desconhecida o havia deixado maravilhado. Foi a primeira vez que alguém realmente se importou com ele.

Saciado, satisfeitíssimo com a refeição que havia acabado de fazer, Mikail fazia planos… Tinha várias idéias que, sem dúvida nenhuma, enriqueceriam o espetáculo. Tudo dependeria da boa vontade de Anastácia.

A alguns metros de distância da carroça, Mikail viu um homem descer pelo palco, olhando para os lados como se estivesse com medo de ser visto. O ator chegou a gritar em direção ao homem, mas este, assim que ouviu o grito, tratou de fugir. Era um homem alto, com cabelos grisalhos, muito bem vestido; deveria ter uns cinqüenta e três anos de idade.

Mikail sentiu vertigem assim que entrou na carroça e se deparou com sua amada Anastácia completamente nua em cima de algumas cobertas sorrindo e dizendo que era mais fácil do que respirar… Ele sabia o que ela havia feito!

Ela tinha se encontrado com um dos homens mais ricos, digo, um dos homens com melhor situação financeira daquela pequena cidade. Chamava-se Ivanovith, dono de alguns negócios, entre eles: um açougue, uma quitanda, uma tecelagem e uma modesta hospedaria.

O comerciante Ivanovith foi quem a procurou. Ele já estava observando a situação pela qual o casal de atores passava e esperou o momento certo para tirar proveito da situação.

Levou comida para Anastácia e assim que ela terminou a refeição, ouviu claramente o que o comerciante desejava.

– É pouco! Muito pouco! Ou será que você pensa que eu só valho um prato de comida? – perguntou Anastácia ao lascivo comerciante.

– Não! Claro que não! E será que isso lhe basta?

– Por enquanto… Somente por enquanto…

E se entregou aos braços de Ivanovith por algumas moedas que sequer se dera ao trabalho de contar. Estava sentindo prazer no que fazia. Não era só o dinheiro, não era a falta de comida, não! Seu sangue pulsava com mais fervor nos braços de um desconhecido.

Ivanovith despediu-se dizendo que voltaria. Entretanto, exigia exclusividade. Ela teria que dispensar o amante Mikail para poder ficar somente com ele. Anastácia riu e brincou dizendo que ficaria com quem e com quantos quisesse. Não admitia nenhum tipo de interferência em seus atos.

Confuso, o comerciante foi embora sem entender muito bem se teria uma outra vez aquela mulher em seus braços.

Enquanto Mikail se recuperava do susto e da vertigem que teve, Anastácia escondia parte da comida que estava nos sacos que ele havia trazido. Ela tinha um baú que ficava trancado com um cadeado. Somente ela tinha a chave daquele baú. Era lá que estava escondendo os alimentos.

– O que você está fazendo? – perguntou Mikail assim que teve coragem para voltar à realidade.

– Eu?! Nada! – respondeu Anastácia.

– Como nada! Então é nesse baú que você estava escondendo a comida, não é?

– Não! Claro que não! Agora, é que eu estou armazenando o que você trouxe…

– Sua vagabunda mentirosa…

– Vagabunda, sim! Mentirosa, não! – disse Anastácia soltando uma grande gargalhada.

– Como é que você pôde se prostituir?

– Eu disse que faria, não disse?!

– Mas eu trouxe comida… E você… E aquele homem saindo daqui…

– Vocês são todos uns idiotas… Todos imbecis… Não podem ver um par de pernas que…

– Vadia! – gritou longamente o ator.

E Anastácia o esfaqueou. Quando percebeu que Mikail iria agredi-la, ela se antecipou e o matou.

Tudo aconteceu muito rápido. Somente uma facada no peito. Anastácia não sentiu nenhum tipo de remorso. Assim que o corpo desabou, ela retirou a faca ensangüentada e começou a descascar algumas batatas.

Mikail nunca a mataria. Mesmo com todo o ódio que estava sentindo, jamais teria coragem para matá-la. O máximo que faria seria lhe dar alguns bofetões e continuaria a viver ao lado dela, mesmo sabendo que ela seria de outros e por que não dizer, de todos os homens que ela desejasse.

O ator foi vítima de uma eterna personagem…

Fim.

Foi o que li nas poucas folhas que Nikolai havia me cedido. Fiquei curioso para continuar lendo sobre o lado obscuro da vizinha do 104, mas por enquanto não poderia ler mais nada.

Muitas coisas se passavam pela minha cabeça. Minha imaginação me levava para lugares que possivelmente Mikail e Anastácia teriam percorrido.

Como continuaria a história? Para onde teria ido Anastácia? O que ela teria feito com o corpo? E o comerciante Ivanovith? O que teria feito ao saber que Anastácia havia matado o homem que estava em seu caminho? O que ele queria dizer com “o ator foi vítima de uma eterna personagem”?

Todas estas perguntas perpassavam uma a uma diante de meus olhos e quando me dirigia a Nikolai na expectativa de conseguir alguma resposta ele apenas sorria. Um sorriso encantador. Tinha convicção de que conseguiria “fisgar” o leitor como me havia “fisgado”.

Deixei-o no quarto absorvido pelo seu insano trabalho e fui procurar algo para comer. No corredor, algumas luzes acesas e um silêncio acentuado davam um tom de mistério ao local que morávamos.

Enquanto caminhava, pensando em outras situações vivenciadas por Nikolai, ouvia meu amigo solitariamente repetir seus textos, buscando a tão almejada perfeição artística…

CAPÍTULO 15 – Publicado em 19/10/2017

Havia uma sensação diferente no ar. A atmosfera estava carregada. Os rostos das pessoas estavam transtornados. Ninguém arriscava sequer uma brincadeira, era visível que um profundo sentimento de tristeza tomava conta do ambiente.

Mesmo os que não o conheciam sentiram bastante a sua morte. Os curiosos vinham de todas as direções para presenciar aquela terrível cena: um cadáver estirado no chão, algumas cadeiras espalhadas pelo salão, garrafas e copos quebrados, o sangue fétido derramado junto ao corpo, compunham aquele triste episódio.

A face do morto já não continha mais nenhum tipo de expressão. Uma cor arroxeada se fazia presente na tonalidade da pele, substituindo a cor viva e clara de algumas horas atrás.

A total ausência dos sentidos o deixava parecido com um inútil boneco. Um terrível e grande brinquedo que apodreceria em pouquíssimo tempo, tornando-se inutilizado para todo o sempre.

 Cada um dos que presenciaram o assassinato tinha uma versão diferente. Entretanto, houve uma versão que se espalhou de boca em boca rapidamente e acabou ficando como a original.

Tudo tinha acontecido por causa de uma dívida de jogo. Enquanto o jovem Yennov estava sentado com uma das mulheres do prostíbulo em seu colo, um homem de aproximadamente vinte e oito anos, bem gordo, com a barba por fazer, aproximou-se vagarosamente por detrás da vítima e lhe cravou um punhal pelas costas.

Um grito ecoou fortemente pelo salão enquanto as poucas pessoas que estavam ali começaram a fugir. O assassino tirou um lenço de dentro do bolso do paletó, limpou o punhal ensangüentado e saiu andando calmamente sem que ninguém ao menos tentasse agarrá-lo. Alguns diziam que ele até acendeu um cigarro dizendo que a dívida do jogo já estava paga.

Não demorou muito tempo para que o prostíbulo de Katerinne tivesse o maior público de todos os tempos. Era estranho… Tantas pessoas diferentes em um lugar que provavelmente não estariam em outras circunstâncias… Gente que de certa forma se admirava com aquele terrível espetáculo. Gente que, apesar da tristeza e do espanto, admirava-se como se fosse uma peça de teatro.

Algumas questões pertinentes ao fato ocorrido foram suscitadas por uma série de pessoas. Questões que circularam por todo o salão. Como por exemplo: onde estaria aquele jovem, já que existia somente um corpo que dentro de algumas horas estaria entrando em decomposição? Estaria o seu “eu”, ou o seu “espírito”, ou sua “alma” lutando para voltar ao corpo inerte? Seu “eu” estaria observando toda aquela gente deslumbrada com sua morte? Acaso sua “alma” desejaria vingança? Haveria um lugar para abrigar o seu “espírito”?

Horas depois, a mãe do jovem chegou ao local em prantos, loucamente desesperada. Abaixou-se próximo ao corpo do filho e fechando as pálpebras do jovem, disse para ele não se preocupar, pois ela estava ali, ao lado dele, cuidando para que nenhum mal lhe ocorresse.

Muitas pessoas choraram ao escutar as palavras daquela pobre mãe. Outros cochichavam sobre a inocência da mulher que tentava se comunicar com aquela matéria morta. “Coisas de mãe!” – disse um ébrio.

O medo passou a assombrar a vida de alguns que ainda não tinham pensado na morte. Até mesmo os que dizem não temer nada, tampouco a morte, mudaram de pensamento na presença de um cadáver cujo destino seria uma cova.

Tudo se acabaria com uma pá de terra sobre a face. Seria o ponto final. Ou o recomeço? Quem poderia afirmar e relatar tais indagações? Somos tão banais a ponto de sermos somente casca? E se somos casca, para onde vai o conteúdo?

As pessoas presentes ficaram sem ação ao ver aquele rapaz perder a vida por causa de algumas reles moedas produzidas pelo próprio homem. Qual é o preço de uma vida? Acaso temos condições de estipular quanto vale a vida de uma pessoa? Acaso somos alguém perante algo que foge aos nossos conhecimentos e principalmente de nossos domínios? Podemos com a morte? Qual fortuna poderia combatê-la?

Eram muitos os pensamentos. Eram muitos os filósofos que tentavam encontrar respostas para todos os questionamentos suscitados pela morte do jovem Yennov.

As autoridades não demonstraram muito empenho em prender o assassino. Diziam uns que o jovem não valia muita coisa, que mais cedo ou mais tarde estaria morto. Alegavam que era um marginal a menos, um crápula que não traria mais problemas. Segundo eles, a sociedade não estava preocupada com a morte de bandidos… Ninguém se importava!

Estavam aliviados. Yennov havia cometido um assassinato quando tinha dezesseis anos. Fugia como um lobo selvagem. Nunca conseguiram apanhá-lo. As autoridades suspeitavam de que ele houvesse cometido outros crimes durante o longo tempo em que estava foragido.

Talvez alguém não mereça nenhuma consideração e respeito por ter uma vida marginal, embora esta pessoa possa ser importante para alguém ou até mesmo possa ter valores desconhecidos para a sociedade. Por mais que uma pessoa não valha nada, talvez haja alguém que necessite dela.

Yennov tinha uma mãe que precisava da companhia dele. Mesmo quando ele esteve longe, ela sabia que voltaria. Esforçou-se para que o filho se entregasse e pagasse pelos crimes cometidos. Queria-o preso, jamais morto.

O jovem marginal tinha ao menos uma pessoa que se importava com ele. Havia uma pessoa que aguardava ansiosamente por um abraço, um sorriso, um carinho ou qualquer outro pequeno gesto de sua parte.

Nunca prenderiam o assassino, isso não era importante. Quando Yennov estava vivo, não o prenderam, não o julgaram! Não houve um julgamento… Existiram vários julgamentos, ou melhor, inúmeros apontamentos por parte de pessoas que se consideravam acima do bem e do mal. Pessoas que estavam respaldadas pela razão… Todos donos da verdade.

Yennov, que não era nada perante a sociedade, continuava a nada ser. O corpo foi retirado do lugar, as pessoas voltaram para suas casas, aquele fatídico incidente iria gerar alguns comentários por mais alguns dias, no máximo alguns meses. Depois, tudo cairia no esquecimento, ninguém mais falaria no jovem assassinado na casa de Katerinne. Talvez um único coração chorasse por um período maior aquela morte. Talvez…

Katerinne manteve seu estabelecimento fechado por três dias. Houve uma grande festa após o período considerado como luto. O salão estava repleto de pessoas que comemoravam a reabertura da casa. Todos alegres, brincando uns com os outros; o pianista Puttin, como sempre, animava o ambiente e durante toda a noite, ninguém sequer mencionou o fato acontecido há alguns dias.

Tudo continuou como antes.

CAPÍTULO 14 – Publicado em 17/10/2017

Fazia algum tempo que Nikolai e Anna não se encontravam. Os vários acontecimentos em torno do pequenino Dimitry contribuíram para que os amantes se privassem de seus encontros secretos no quarto da hospedaria.

Ela esperava por uma nova viagem do marido que aconteceria em poucos dias. Estava bastante ansiosa, não via a hora de compartilhar seus desejos e perspectivas de uma mudança de vida com o amante.

Enquanto a viagem não acontecia, ela agia naturalmente em casa como se nada estivesse passando por sua cabeça. Havia melhorado um pouco o tratamento com o filho e continuou tratando o marido como sempre o fazia desde que conheceu Nikolai.

Vladimir era um homem forte. Poderia dizer-se que até mesmo bonito. Olhos claros que combinavam com sua pele. O cabelo cortado baixo, como um soldado do exército, dava um aspecto taciturno aquele bom homem.

Trabalhador ao extremo, gostava do que fazia. Sentia prazer em vender sapatos, tinha convicção de que era a melhor coisa que sabia fazer e orgulhava-se disso. Deveria ter uns trinta e oito anos. Talvez menos… Não sei ao certo. O que posso afirmar com certeza é que ele ainda lutava com todas as suas forças para sustentar sua família.

Trabalhava até mesmo no frio inverno para dar uma vida melhor a Anna e principalmente ao filho Dimitry. Creio que se tenha descuidado um pouco no que concerne às suas obrigações como marido durante algum tempo, embora por motivos compreensíveis.

Na noite anterior à sua viagem, ele, por várias vezes tentou agradar à esposa. Eram pequenas frases ditas junto ao ouvido, algumas carícias quando estavam a sós no quarto, brincadeiras inventadas repentinamente… Ela desconversava e saía de perto do marido.

Nada funcionou. Anna definitivamente evitava um contato mais íntimo com ele. Não suportava sequer a idéia de terem que se deitar na mesma cama. Estava ficando evidente que havia alguma coisa errada.

Vladimir percebeu o jeito como estava sendo tratado. Assim que Dimitry foi para o quarto dele, não pensou duas vezes. Foi até a cozinha onde Anna estava, pegou-a pelos braços e arrastando-a foi para o quarto do casal para conversarem.

– Agora você vai me dizer… O que é que está acontecendo? – disse Vladimir.

– Acontecendo o quê, homem de Deus? – perguntou Anna deixando um sorriso no ar.

– Não brinque comigo… Você não sabe do que sou capaz…

– Capaz? Capaz de quê? De vender sapatos? – ironizou Anna.

– Por que você está me tratando dessa maneira?

– E como é que eu estou te tratando?

– Não se faça de tola, Anna! Você sabe muito bem do que estou falando… Passei a noite toda tentando me aproximar de você…

– A noite toda!? – interrompeu Anna não deixando que o marido completasse a frase. – Ora, essa! Você sabe há quanto tempo você não me procura?

Houve um pequeno silêncio na discussão do casal. Vladimir não tinha resposta para a pergunta de Anna. Ele realmente não sabia quando tinha sido a última vez em que havia se deitado com a esposa.

Pensou em começar a recuperar o tempo perdido. Aproximou-se carinhosamente dela dizendo que estava pronto para amá-la novamente. Desejava-a ardentemente e queria pôr um ponto final naquela discussão.

Levou as mãos em direção ao rosto da esposa para poder beijá-la e…

– Tire suas malditas mãos de mim! – gritou Anna como se estivesse sendo agredida.

– Calma! Eu só queria te dar um beijo…

– Não ouse me tocar novamente, tá ouvindo?

Vladimir, assustado com a reação da esposa, não sabia o que dizer. Não sabia sequer o que pensar. Até que olhou dentro dos olhos dela… Percebeu que o coração dela já não lhe pertencia mais… Sentiu uma horrível sensação como se um punhal tivesse sido cravado em suas costas… Não teve dúvidas.

– Quem é ele? – perguntou Vladimir furioso.

– Ora… Ora… Ora… Você quer saber quem é ele?

– Sim! Quem é?

– E o que isso importa? Você não precisa saber quem é. Você já está sabendo demais…

– É essa a consideração que você tem por mim? Sempre dei o melhor de mim e isso não foi o suficiente? E o seu filho? Em algum momento você pensou no seu filho?

– Não me fale naquele pobre diabo! – gritou Anna furiosa.

Assim que ela acabou de pronunciar essa frase, Vladimir sentiu um estranho arrepio. Seu corpo esquentou de tal forma que as faces ficaram vermelhas, podia sentir o sangue pulsar-lhe nas veias, os braços pareciam fora de controle e ele partiu para cima da mulher, esbofeteando-a.

Eram nítidos os barulhos provocados entre o encontro das mãos de Vladimir com o corpo de Anna. Cada tapa desferido contra a mulher era como se fosse um pedaço de carne que estava sendo arrancado dele mesmo. Ele estava sentindo muito mais dor do que ela, que estava sendo surrada.

Batia continuamente e dizia para ela nunca mais se referir ao filho daquela maneira. Não tinha mais paciência para ouvir todos aqueles impropérios da boca de uma mãe desnaturada. Creio que a fúria desencadeada por Vladimir tenha sido muito mais por causa de Dimitry do que propriamente por causa do amante da mulher.

Parou somente quando perdeu as forças. Transtornado com tudo o que havia acontecido, saiu do quarto e ganhou as ruas. Não queria que o filho o visse daquele jeito. E por hora, não queria ter que olhar na cara de sua mulher. Temia cair na tentação de matá-la. Justamente ele, que não tinha coragem para fazer mal a uma simples formiga.

Ela estava com a face inchada, alguns cortes no corpo… A pele ainda vermelha devido às pancadas. Não derramou uma lágrima sequer. No fundo de seu coração passou a odiar ainda mais o filho. Questionou-se consigo mesma o porquê de o garoto ainda estar vivo. Atribuía a todas as mazelas de sua vida ao nascimento daquela criatura.

Agora, mais do que nunca, teria que deixar o marido. Não havia mais condições para que vivessem debaixo do mesmo teto. Pensou em procurar por Nikolai antes mesmo que Vladimir fosse viajar. Acabou se sentindo feliz por pensar que mesmo de uma forma drástica, de certa maneira, seu objetivo tinha dado certo.

Dimitry, que ainda não havia dormido, só não presenciou tudo o que havia acontecido porque sentiu medo. Havia se enfiado debaixo da cama e só saiu depois que a confusão cessara.

Chegando ao quarto dos pais, viu como se encontrava sua mãe. Solícito e querendo prestar socorro, tentou ajudá-la, mas foi brutalmente impedido por ela:

– Afaste-se de mim! Não me toque! Eu tenho nojo de ter concebido algo como você!

O pobre Dimitry não teve palavras perante toda a insanidade da mãe. Por mais que quisesse odiá-la, não conseguia. Tinha medo dela… Morria de medo de sofrer agressões por parte dela, contudo, não sentia ódio.

Ficou parado no quarto vendo sua mãe arrumar as coisas que lhe pertenciam dentro de uma grande mala. Assim que a mala estava pronta, ela saiu sem dizer para onde ia.

O garoto ficou contemplando durante algumas horas a porta pela qual sua mãe havia saído sem dizer quando voltava. Se é que tinha intenções de voltar…

Anna havia saído de casa disposta a encontrar seu amante. Foi até a casa dele e não o encontrou. Perguntou por algumas pessoas que estavam na rua e ninguém havia visto Nikolai.

Passou algumas vezes na hospedaria em que se encontravam na expectativa de vê-lo, contudo, ele não estava lá. E nem poderia, já que não haviam marcado um encontro. Por certo, ele deveria estar esperando que Vladimir viajasse para poder entrar em contato.

Como estava próxima à Rua das Prostitutas, acabou entrando no prostíbulo de Katerinne por pura curiosidade.

A noite estava bastante agitada. O pianista Puttin tocava sem parar, dando um ritmo todo especial à casa mais famosa da rua. Algumas pessoas acharam estranho aquela mulher toda machucada com uma enorme mala nas mãos, porém, não deixaram de fazer o que estavam fazendo para saber dela se estava precisando de ajuda.

Anna olhava para todos os lados encantada com o brilho da festa. O ambiente, a música, as pessoas felizes… Não imaginava que o prostíbulo fosse daquela maneira, tinha uma concepção totalmente diferente daquilo que seus olhos estavam contemplando.

Uma das mulheres que trabalhavam no prostíbulo (creio que tenha sido Valeska) viu o estado em que se encontrava Anna e tencionou ajudá-la. Ela estava um pouco assustada, teve receio, mas depois de alguns minutos de conversa, entregou-se aos cuidados oferecidos.

A moça havia levado Anna ao quarto que dividia com Martinna. Como tudo que acontecia no prostíbulo tinha que ser comunicado à Katerinne, não demorou muito para que ela ficasse a par da situação.

– Como se chama? – perguntou Katerinne à informante.

– Ela disse que se chama Anna…

– Anna! – replicou surpresa Katerinne.

– Sim, Anna!

– Quem a encontrou?

– Valeska… Ela já havia entrado na casa…

– Chame Valeska urgentemente…

Katerinne queria ouvir os relatos da boca da própria Valeska. Queria se certificar de que a pessoa que estava em sua casa fosse realmente a amante de Nikolai. A jovem Valeska pouco ajudou, contou tudo o que havia acontecido, disse palavra por palavra do que tinha conversado com Anna, embora não soubesse se a referida mulher tivesse alguma ligação com Nikolai.

A imagem de Anna perpassou pela memória de Katerinne. Ela já havia visto a rival algumas vezes. Agora, estavam debaixo do mesmo teto, ou melhor, estavam sob o teto de Katerinne. Bastaria uma pequena comprovação.

Ela pensou em uma forma de tirar proveito da situação. A presença de Anna naquela casa só poderia ter sido um presente dos céus. Ordenou que cuidassem bem dela, disse à Valeska para lhe dar de comer e que em alguns minutos iria até o quarto para conhecê-la…

– Você deve ser Anna… – disse Katerinne sorridentemente.

– Sim. Sou eu mesma.

– Muito prazer. Sou Katerinne. A dona de tudo isso aqui…

– O prazer é meu e… Muito obrigada por estar me ajudando.

– Ora! Não agradeça ainda… Conte-me tudo o que aconteceu com você, pode confiar, você está entre amigas.

E Anna contou quase tudo a respeito de sua vida. Fez-se de vítima quando se referiu ao marido Vladimir e quase não mencionou o nome de Dimitry. Em momento algum, disse conhecer Nikolai, o que despertou um interesse ainda maior, por parte de Katerinne, na conversa que estavam tendo.

Katerinne perguntou se ela tinha para onde ir. Ela, um pouco confusa, disse que sim, que um amigo iria ajudá-la. A prostituta, querendo aprofundar um pouco mais a conversa, disse:

– Amigo! Ou o seu homem?

– Homem! Como assim!? – exclamou Anna como se não estivesse entendendo o que Katerinne falava.

– Ora, minha filha! O seu homem… O seu macho… Aquele que te leva pra cama e faz você sorrir por um longo tempo. Aquele que faz você se esquecer de todos os problemas… Aquele que te espanca em cima de uma cama e você agradece. Vai me dizer que não tem?

– Não tenho não, senhora…

– Senhora é a puta que te pariu. – gritou Katerinne.

Anna ficou assustada. Katerinne rapidamente pediu desculpas pelas palavras ditas. Explicou que não gostava de ser chamada de senhora. Disse que quando uma mulher chega na idade a qual tinha chegado, a palavra senhora se tornava uma ofensa.

A conversa foi novamente se restabelecendo de forma que um aparente entendimento fosse sendo alicerçado de ambas as partes.

Katerinne não a questionou mais sobre o amigo que provavelmente a ajudaria e ainda disse que se precisasse ficar alguns dias em sua casa, que não haveria nenhum problema.

Anna agradeceu a hospitalidade oferecida, contudo precisava solucionar seus problemas ainda naquela noite. Esperaria somente mais alguns minutos para voltar às ruas à procura dele.

Enquanto conversavam, uma das meninas que trabalhavam para Katerinne a chamou em um canto para lhe falar em particular. Conversaram por aproximadamente três minutos. Katerinne sorriu. Acenou com a cabeça e disse em voz alta que ele poderia subir.

Voltou-se e ficou frente a frente com Anna.

– Acho melhor você se arrumar um pouco. – disse Katerinne com um estranho sorriso nos lábios.

– Por que? Não entendo…

– Seu amigo… Pedi que subisse…

– Nikolai!!!

Anna pronunciou o nome do amante assim que ele entrou no quarto onde estavam. Assustou-se ao perceber que Katerinne sabia de seu relacionamento com o escritor.

Nikolai, por sua vez, ficou ainda mais confuso. Não esperava encontrar sua amante, Anna, no prostíbulo de Katerinne, conversando com a própria.

– O que aconteceu com você? O que está fazendo aqui? – perguntou Nikolai à Anna.

– Eu é que te pergunto o que você está fazendo em um lugar como esse! – replicou Anna, demonstrando ciúmes.

– Ih! Já vi que estou sobrando. Vê se não me quebram nada, por favor! – exclamou Katerinne saindo do quarto, deixando os dois a sós.

Katerinne conhecia muito bem as mulheres. Viu claramente nos olhos de Anna o ciúme que ela tinha pelo escritor. Sentiu-se, de certa maneira, aliviada. Como sabia que não tinha o escritor somente para ela, também não queria que nenhuma outra mulher, sequer cogitasse essa possibilidade.

Nunca teve a intenção de contar, ainda que através de uma carta anônima, os passos do escritor à Anna. Entretanto, não pensou duas vezes em esclarecer os fatos, ao vê-la em sua casa e que um encontro com Nikolai seria praticamente inevitável.

Anna passou os primeiros minutos discutindo com Nikolai. Não queria aceitar que o grande amor de sua vida pudesse freqüentar lugares como aqueles. Nikolai ria cinicamente e dizia que provavelmente ela nunca tinha lido nenhum de seus livros. O prostíbulo de Katerinne era fonte de inspiração para seus trabalhos.

Assim que ela ficou um pouco mais calma, o escritor delicadamente a abraçou e pediu que ela lhe contasse tudo o que havia acontecido. Desejava saber, principalmente, o porquê de tantos ferimentos.

Ela o pôs a par de tudo o que havia ocorrido em casa com o marido. Disse também, que estava pensando em fugir de casa. Pensava em deixar toda a sua vida para trás e começar vida nova. Esperava pela viagem do marido para colocar seus planos em andamento, mas a descoberta da traição antecipou seus planos.

– Você estava planejando uma fuga sem antes me consultar? – perguntou Nikolai.

– Mas… Eu ia te contar… Não houve oportunidade…

– Você acha que eu aceitaria uma coisa dessas? Você só pode ser louca…

Anna não entendeu. Prendeu a respiração para não chorar. Toda a fantasia criada em torno do amante se desmoronava como um castelo de cartas. Nikolai deixava claro para ela que não fugiria em hipótese alguma. Tampouco assumiria um caso com ela perante toda a sociedade. Ela se sentiu usada, sentiu-se como uma prostituta.

Ele não queria ser tachado como “o homem que havia roubado a mulher do vendedor de sapatos, deixando-o com o pobre diabo nos braços”. Alegava como sendo nobres os seus motivos e aconselhou à Anna que voltasse para casa.

Nikolai reconheceu que deveria ter conversado há mais tempo com ela sobre a situação deles. Disse que, no último encontro, pensou em falar sobre o pequenino Dimitry e que desejava ver uma outra postura dela como mãe.

Ela não queria acreditar em tudo o que estava ouvindo. Não do grande amor de sua vida. Não daquele a quem ela o havia elegido como o seu protetor, o homem por quem ela venderia a alma ao diabo se preciso fosse.

Eles se entendiam tão bem… Levavam uma vida perfeita. Jamais haviam brigado… Era a primeira discussão que tinham. Ela não podia aceitar que ele desistisse do relacionamento de uma forma tão simples e natural como se nunca houvessem existido sentimentos.

– Nosso bom relacionamento sempre se resumiu em sexo… Sempre nos demos muito bem na cama… No pequeno quarto da hospedaria. Aquele era um mundo que inventamos para fugir de nossas realidades. Aquele sim, era um mundo perfeito. – disse decididamente Nikolai.

– Éramos perfeitos… – concordou Anna totalmente decepcionada.

Nikolai disse que iria acompanhá-la até a casa dela. Ela mudou de assunto dizendo que tinha sido muito ingênua em não perceber que tudo o que tinham vivido juntos não se passava de uma grande ilusão.

– Sexo! Simplesmente sexo não serve, não serviu e nunca servirá como alicerce em um relacionamento. – ponderou ela com os olhos vermelhos.

Anna começou a se sentir angustiada na medida em que percebeu sua fuga da vida real. Nunca havia encarado os fatos de frente, ao contrário do marido, que sempre lutou contra todas as adversidades. Sentiu-se como um grande rato… Um rato de esgoto, ou melhor, uma ratazana de esgoto.

No entanto, ainda sentia um grande repúdio pela figura do filho. Não sabia explicar o que era. Não se sentia mãe e não sabia por quê.

Como Nikolai não a convenceu a voltar para casa, acabou se despedindo e indo embora. Não havia muito que fazer. Pediu a Katerinne que a deixasse ficar lá por alguns dias até que ela resolvesse voltar para casa. A dona do prostíbulo afirmou o que já havia dito à Anna e ele foi embora um pouco mais tranqüilo.

Nikolai era um homem complexo demais para ser compreendido. Estava se sentindo feliz por tirar um peso de suas costas; por outro lado, sentia-se como o mais desgraçado de todos os homens, porque não iria ter a bela Anna em seus braços. Creio que, em nenhum momento, ele tenha pensado nos sentimentos dela.

Com o dia clareando, Vladimir, totalmente ébrio, voltou para casa e se deparou com o filho sentado em uma cadeira defronte à porta, esperando a volta da mãe. Abraçaram-se e choraram amargamente.

CAPÍTULO 13 – Publicado em 16/10/2017

Escutei perfeitamente as cinco badaladas que o relógio da catedral, ao longe, anunciou. Nikolai ainda permanecia sentado na sua velha cadeira de balanço, completamente absorto. Eu pensava em Anna, Dimitry, Vladimir, Katerinne, Puttin, Yelenna, Yellenova, Valeska, Martinna, Boris e tantas outras pessoas que tiveram seus caminhos cruzados com os caminhos de Nikolai.

Pensava em como cada uma dessas pessoas contribuíram, ao longo de suas vidas, na formação do escritor e principalmente na formação do homem Nikolai, já que consciente ou inconscientemente, tenham existido trocas de experiências, informações, sentimentos… O homem realmente seria uma formação do próprio meio?

Sempre que me questiono sobre o ser humano, sinto dores de cabeça. Talvez não me caiba essa difícil tarefa. Às vezes não entendo por que insisto em continuar suscitando questões que nem mesmo sei se valem a pena. Sinceramente, às vezes não sei se o ser humano vale a pena!

Enfim, não quero deixar aqui as minhas impressões. Prefiro tentar desvendar os segredos de meu amigo Nikolai, ainda que as dores de cabeça persistam, e que isso leve algum tempo. Ou até mesmo que toda essa busca consuma minha fonte de entendimento.

– O que está fazendo? – perguntou-me repentinamente Nikolai, levantando-se da cadeira de balanço.

– Nada. – respondi.

– Nada?! Nunca diga que não está fazendo nada, ainda que nada esteja fazendo…

– Mas por quê? – perguntei curioso.

– Por nada. Apenas não diga.

Colocou um disco em uma antiga vitrola, tomou-me contra o seu peito e começamos a dançar.

Como ele estava diferente! Falastrão, com a animação contagiante. Por tanto falar, acabava errando alguns passos. Desculpava-se e… Continuávamos dançando como um casal apaixonado.

Eu olhava bem dentro de seus olhos e percebia que a música, a dança e por que não dizer, minha companhia, lhe faziam bem. Alegrava-me ao contemplar a felicidade estampada em seu rosto. Vi claramente naquele dia como as pequenas coisas da vida fazem a diferença.

Ele me confidenciou algumas de suas histórias e pela primeira vez, disse-me que um dia havia amado loucamente… Nádia! Esse era o nome da mulher por quem o escritor nutria algo de especial.

Interrompemos nossa dança e nos dirigimos para a cama. Deitado ao seu lado, pus-me a escutar curiosamente tudo o que ele tinha a dizer…

Percebi que aquele nome soava diferente aos ouvidos dele. Ele repetia o nome dela várias vezes… Gritava como se a chamasse. Lágrimas escorriam pelo seu rosto sem me dizer o porquê do choro.

Notei que havia algo de estranho no ar. Um clima melancólico invadiu o ambiente, desfazendo toda a felicidade momentânea que havia acalentado nossos corações através da música.

Cada frase, palavra, cada suspiro que Nikolai proferia por causa de Nádia eram motivos suficientes para que eu procurasse respostas junto ao seu passado que me auxiliassem na montagem desse grande quebra-cabeça que se formava a cada nova descoberta.

Ao menos, agora, eu sabia que havia existido um amor verdadeiro na vida de Nikolai. Se é que se pode dizer que a palavra AMOR algum dia tenha sido desvendada pelo meu amigo. Ele mesmo, em determinadas ocasiões, dizia desconhecer o verdadeiro significado da palavra. Entretanto, de todos os casos e romances vividos por ele, a história com Nádia foi a que me pareceu mais sincera.

Amor… Nem sei por que suscitei essa dúvida em relação a Nikolai e Nádia, ou até mesmo em relação às outras mulheres com quem Nikolai já se envolveu; talvez eu não tenha esse direito, já que sei tão pouco a respeito desse nobre sentimento.

Nunca amei… Não da forma que todos conhecem. Talvez tenha amado do meu jeito, na minha insignificante maneira de ser. Talvez eu ame meu amigo Nikolai, não sei, talvez… Não consigo descrever com palavras o que realmente seria o amor. Não sei se toda a minha admiração por ele poderia ser rotulada como amor. Às vezes fico confuso com tudo que absorvo de nossas conversas.

Bem! Esqueçamos o que disse em relação ao que sei ou ao que não sei sobre amor. Minhas medíocres deduções não estão à altura de meu amigo e principalmente à altura de meus ilustres leitores, que com certeza sabem realmente o que é o amor…

Nikolai havia me dito que era amor… Eu via claramente em seus olhos um brilho diferente enquanto conversávamos sobre Nádia, então, não irei mais discutir sobre meu pouco conhecimento nesta questão.

Ele me falava sobre poesia. Sim, poesia, sim! Eram poesias todas aquelas histórias entre Nikolai e Nádia. Conversamos durante algumas horas… Ele fez algumas confissões sobre o passado ao lado de Nádia e por fim, adormeci. Depois de algum tempo, acordei e não mais o vi.

Enquanto pensava em seu paradeiro, lembrava-me de fatos que envolviam direta ou indiretamente a vida do escritor Nikolai S. Andreiev…

CAPÍTULO 12 – Publicado em 14/10/2017

O pequenino Dimitry estava disposto a estudar na escola. Até então, todo o ensinamento recebido vinha da parte do pai. Vladimir procurava instruir o filho da melhor maneira possível. Ainda não havia pensado na possibilidade de o filho freqüentar a escola como as demais crianças. Apesar de ele nunca ter escondido seu filho da sociedade, sabia perfeitamente que, quando o garoto estava em sua companhia, as demais pessoas ainda toleravam a presença do pequenino. Quando Dimitry estava sozinho, poderia esperar-se o pior.

O pai, na verdade, temia pela integridade física e moral do filho. Poderia defendê-lo se estivesse por perto, mas de longe, nada poderia fazer. Isso era o que mais o preocupava.

Anna não aprovava o desejo do filho em estudar na escola com as demais crianças. Preferia que Dimitry não pusesse mais os pés fora de casa. Dizia que ele estaria melhor estudando com o pai e não envergonhando a família.

Vladimir a repreendia severamente pelas palavras com as quais se referia ao próprio filho. Contudo, era bastante moderado e contornava a situação com muita diplomacia.

A vontade de Dimitry quase sempre prevalecia diante de seu pai. Embora soubesse das dificuldades que o garoto encontraria pela frente, permitiu que ele estudasse longe de seus cuidados.

O pequenino Dimitry já não era mais o mesmo desde a surra levada pelos garotos. Travava vários questionamentos consigo mesmo sobre todos os problemas que tinha.   Às vezes, acordava de bem com a vida. Evitava a presença da mãe e ia para o quintal brincar com alguns brinquedos de madeira feitos pelo pai. Também gostava muito de ler. Admirava os trabalhos de Nikolai e ficava envaidecido por considerá-lo um amigo.

Em outros momentos, sequer saía do quarto. Ficava deitado na cama olhando para o teto. Não fazia absolutamente nada. Apenas olhava para o espelho quase que de hora em hora para se certificar de sua aparência.

A vida do pequenino era muito difícil. Talvez ninguém saiba precisar, com palavras exatas, todo o sofrimento, todas as dúvidas, todos os questionamentos que ele travava diariamente em frente ao espelho.

Mas a decisão de ir à escola era dele próprio. Mais cedo ou mais tarde, teria que enfrentar a vida de frente, ainda que muitos lhe virassem as costas para não verem a sua face.

Dimitry encontrou dificuldades logo no início. A direção da escola não queria aceitar sua matrícula. Segundo a explicação dada a Vladimir, o garoto nunca havia estudado em uma escola, portanto não estava apto a acompanhar os demais alunos.

Vladimir contestou veementemente dizendo que seu filho era capaz de acompanhar os demais, pois ele mesmo lhe havia ensinado tudo o que aprenderia na escola.

Como a direção não queria aceitar de maneira nenhuma a matrícula de seu filho, Vladimir os desafiou a prepararem um exame para que Dimitry provasse a todos que era capaz de freqüentar a escola.

Diante desse impasse, Boris, o diretor da escola, se viu obrigado a elaborar um exame para por à prova os conhecimentos de Dimitry.

Vladimir foi para casa um pouco mais aliviado dar as novas ao filho. Sabia que teria que prepará-lo ainda melhor para os exames que aconteceriam na próxima semana.

– Uma semana! – disse Dimitry bastante confuso a seu pai.

– Sim, filho! Uma semana.

– Mas não vai dá tempo!

– Claro que vai. Você já estudou tudo o que eles vão cobrar…

– Mas são só alguns dias para revisarmos tudo o que já foi estudado em cinco anos. Eu não vou conseguir…

– Claro que vai. Você não pode desistir. Não é o que você quer?

– Eu não sei, pai… Eu não sei…

Diante da vaga resposta dada pelo filho, Vladimir se retirou do quarto. Sabia que o filho tinha que tomar suas próprias decisões. O que ele podia fazer como pai já havia sido feito; agora era esperar por uma resposta do filho.

Assim que Vladimir saiu da escola, Boris convocou uma reunião com todos os professores. Não desejava o pequenino na escola. Sabia que a presença de Dimitry seria algo no mínimo desagradável para todos.

Exigiu que os professores dificultassem ao máximo os exames de forma que o garoto não conseguisse alcançar o objetivo. Não houve objeções. Todos os professores corroboravam os pensamentos e teorias do diretor.

Mobilizaram-se rapidamente e começaram a elaborar uma longa e cansativa prova com as questões mais avançadas possíveis à série pertinente àquela em que Dimitry deveria estar.

Não demorou muito para que a notícia se espalhasse pela cidade. Alguns pais de alunos disseram que se o “pobre diabo” conseguisse passar nos exames, tirariam seus filhos da escola para não vê-los misturados.

A notícia corria à boca pequena. Nikolai ficou contente ao saber que o pequenino estava se preparando para realizar os exames e que o pai o ajudaria com os estudos.

Sentiu uma leve ponta de tristeza por saber que não veria Anna durante aquela semana. Quando soube dessas novidades, estava no prostíbulo de Katerinne. Nessa época, Katerinne deveria ter uns cinqüenta anos. Sabia de todos os passos de Nikolai, inclusive que ele era amante de Anna. Nikolai e Anna estavam juntos há pouco tempo, talvez alguns poucos meses, não sei ao certo, provavelmente Katerinne sabia até mesmo dos segundos exatos deste romance.

Ainda se considerava amante do escritor. Contentava-se em ser o caso mais longo que o escritor tivera em toda a sua vida. Procurava não esboçar mais os ciúmes que sentia, havia aprendido a lidar com eles. A única coisa que exigia de Nikolai era algumas horas de amor e um pouquinho de atenção.

O escritor atendia aos desejos de Katerinne porque gostava de tê-la na cama e por ela o ter ajudado nos momentos em que precisou. Não nutria sentimentos maiores por ela. Também não necessitava mais de seu dinheiro, já sobrevivia há algum tempo de literatura. Talvez a gratidão ainda os unisse.

Dimitry havia passado toda a semana recordando as lições com seu pai. Estava feliz… Muito feliz. Não se importava se iria passar ou não, aquela semana foi tão especial para ele que o resto não tinha tanta importância.

Pela primeira vez, ele pôde ver sua mãe demonstrar um pouco de carinho e compreensão para com ele. Anna levava bolinhos com chá para que ele e seu pai fizessem alguns intervalos durante as horas de estudo. E isso aconteceu durante toda a semana.

O desconfiado pequenino não sabia ao certo se a mudança de comportamento de sua mãe era devido à presença do pai, ou se realmente algo estava ocorrendo naquele frio coração de mãe.

Preferiu não pensar em suas dúvidas e aproveitou para curtir alguns momentos de felicidade. Por alguns instantes, sentiu-se o garoto mais feliz do mundo.

– Nossa! Como o tempo passou rápido! – disse o pequenino Dimitry.

– Amanhã é o grande dia. Não importa o que aconteça, dê o seu melhor. – disse Vladimir com um olhar confiante.

– Eu darei, pai…

– Eu me orgulho muito de você, filho! Me orgulho muito…

Com um abraço bem apertado, pai e filho se despediram durante a noite. Teriam que estar de pé bem cedo.

A cidade estava em polvorosa. Todos sabiam que Dimitry iria prestar o exame para tentar ser admitido na escola.

A chegada do garoto ao local marcado para as provas foi algo inenarrável. Cartazes agressivos e uma grande multidão gritando palavras de baixo calão assustaram o garoto. Seu pai o abraçou e o atravessou pela multidão que teve de ser controlada pelas autoridades.

A intolerância, a discriminação sobre o pequenino Dimitry era algo assustador. O garoto era tratado como uma aberração, filho do demônio. Pensavam, alguns, que o menino tivesse poderes sobrenaturais.

A ignorância se transformava em setas que vinham de todos os lados. Em meio à multidão, algumas pessoas tentavam dissuadir aquela gente. Era o escritor Nikolai e algumas prostitutas que se afeiçoaram ao pequenino desde o fato lamentável ocorrido com o garoto próximo ao açougue.

Dimitry, já dentro da escola, tentava se acalmar. Era uma forte pressão que estava sofrendo. Sentia-se odiado, rejeitado… Não sabia por que ser diferente era tão ruim assim. Ele nunca havia feito mal a ninguém. Não entendia como aquelas pessoas o apontavam, sendo que ele nunca havia estendido o dedo para apontar ninguém…

– Está pronto? Podemos começar? – perguntou o diretor Boris.

– Senhor?

– O que é? Pensa em desistir?

– Não! Não é isso. É que no ano passado, quando sua esposa…

– Minha esposa! O que tem minha esposa? – interrompeu Boris, assustado, antes que Dimitry completasse o raciocínio.

– É que no ano passado, quando sua esposa saiu para procurar o cavalo fujão que tinha ido à floresta…

E Dimitry narrou todos os fatos para o diretor Boris antes que fosse dado início aos exames.

O pequenino Dimitry costumava ir à floresta para se isolar. A companhia dos pequenos animais, dos pássaros e até mesmo dos insetos era mais agradável do que a companhia da maioria das pessoas.

Certa vez, viu um cavalo muito bonito cavalgando solto pela floresta. Não era comum ver um belo animal como aquele por aqueles lados. Estranhou, contudo deixou o pobre animal de lado.

O tempo estava começando a virar. Uma forte tempestade se anunciava sem muitas cerimônias.

Dimitry, percebendo a mudança do tempo, resolveu voltar para casa. Assim que começou a deixar a floresta, percebeu que alguém se aproximava. Escondeu-se… Não queria que ninguém o repreendesse por está ali.

Era uma bonita mulher. Jamais a havia visto pela cidade. Ela passou correndo, e não houve chance para que o pequenino lhe advertisse sobre a mudança do tempo. Preocupado, resolveu voltar para avisá-la de que poderia ser perigoso.

O vento já soprava forte e de repente, um grande galho de árvore caiu sobre a cabeça da mulher. Ela desmaiou… Estava com o rosto voltado para o solo, totalmente desacordada.

Não demorou muito para que começasse a chover. Chovia fortemente de maneira que uma grande poça d´água se formou em volta dela. Morreria afogada em questão de minutos…

Quando Dimitry se deparou com aquela cena, usou toda a força que tinha para virá-la. Não satisfeito, pois a chuva caía fortemente no rosto dela, arrastou-a por alguns metros e a encostou em uma árvore.

Como ela não acordava e ele não tinha forças suficientes para carregá-la até a cidade, decidiu ir em busca de ajuda.

Chegando próximo ao mercado central, viu um aglomerado de pessoas que procuravam por alguém. Não queria ser visto… Também não queria que descobrissem que se escondia na floresta para poder brincar. Ouviu alguém dizer que a mulher do diretor Boris havia saído para procurar o cavalo de estimação e que ainda não tinha voltado.

Dimitry não teve dúvidas. A mulher que ele havia ajudado na floresta só poderia ser a esposa do diretor.

Ele não sabia quem era Boris, nunca o tinha visto, porém, sabia onde ele morava. Teve a idéia de escrever um bilhete informando sucintamente o que havia acontecido e onde se encontrava a mulher que todos estavam procurando.

– Então foi você quem escreveu aquele bilhete salvador… – disse Boris estupefato.

O pequenino fez um sinal positivo com a cabeça e ficou esperando que o diretor lhe dissesse como ela estava, já que não soube mais notícias e também não a tinha visto mais.

O diretor não tinha palavras. Sequer agradeceu o gesto salvador que o garoto tivera na ocasião. Pigarreou duas vezes e disse que o tempo do exame já estava sendo marcado.

Com todas aquelas folhas nas mãos, Dimitry não sabia por onde começar. Em determinados momentos teve vontade de desistir, entretanto foi respondendo folha por folha, sem deixar questão em branco.

O relógio parecia correr mais que o habitual. Quatro horas depois, o diretor anunciou o término do tempo e recolheu os exames para conferência. O resultado sairia em aproximadamente uma hora após o término das provas.

Vladimir, assim que viu o filho saindo, correu e o abraçou. Com o filho nos braços, procurou se isolar da multidão que ainda se manifestava contra o ingresso do garoto na escola.

Os professores que estavam corrigindo os exames não acreditavam no que estava acontecendo. No ritmo em que as coisas estavam indo, Dimitry certamente conseguiria a tão pretendida vaga.

Um deles sugeriu que se anulassem os exames. Um outro professor achou melhor manipular os resultados, pois segundo ele, não havia necessidade de se apresentar claramente os resultados aos interessados, já que o poder de decisão estava nas mãos da escola.

Um terceiro professor disse que aquele não era um simples caso para ser tratado por eles, era um caso que deveria ser solucionado pelo Estado, já que se tratava de algo nunca vivenciado por nenhuma instituição de ensino.

O tempo estipulado pelos examinadores para o término da correção já havia sido ultrapassado. Vladimir e Dimitry estavam ansiosos pelo resultado que não vinha. Nikolai, percebendo a aflição dos dois, aproximou-se para manifestar seu apoio.

O pequenino Dimitry sorriu ao ver seu amigo escritor se aproximar. Nikolai disse que tudo daria certo. Teriam que esperar só mais um pouco e que depois comemorariam a primeira vitória do garoto. Vladimir agradeceu emocionado as palavras proferidas pelo escritor e disse:

– Tenho uma dívida eterna de gratidão com o senhor e não sei como pagá-la…

Nikolai calou-se. Talvez tenha pensado na amante. Não sabia o que dizer ao marido traído que estava bem a sua frente, relembrando o quanto ele havia sido generoso ao cuidar do filho quando estava ferido.

– Está demorando demais! Eu vou ver o que está acontecendo. – disse Nikolai secamente, procurando fugir das lembranças provocadas por Vladimir.

Dimitry foi aprovado nos exames. Já haviam passado duas horas e o resultado ainda não tinha sido divulgado. Os professores confabulavam com o diretor para saber que providência seria tomada.

Boris estava com o coração apertado. Sabia que a aprovação do menino poderia gerar um grande tumulto por parte dos manifestantes que estavam de prontidão em frente à escola. Sem levar em consideração que a todo o momento, sua consciência o cobrava por gratidão a quem salvara a vida de sua esposa.

Estavam dispostos a anular os exames. Foi o próprio Boris que sugeriu essa saída como sendo a mais sensata. Não levaram em consideração os esforços de um garoto especial que lutava pelo direito de se instruir… Não levaram em consideração a forma honrosa pela qual o garoto tinha conseguido para freqüentar as aulas… Não levaram nada em consideração.

Entretanto, Nikolai havia escutado tudo o que tinha se passado entre o diretor e os professores. E assim que ouviu a decisão que pensavam em tomar, ele acabou intervindo.

Ameaçou denunciar a todos publicamente através de um artigo que circularia em todos os jornais do país e disse que não mediria esforços para manchar a reputação de todos eles, ainda que tivesse de inventar algumas histórias… Eles sabiam que a opinião pública local estaria a favor deles, mas não tinham idéia de que forma a situação repercutiria pelo resto do país, ainda mais sendo direcionada pelo escritor Nikolai S. Andreiev. Preferiram não arriscar.

Minutos depois, Nikolai saiu com as boas novas para Dimitry e Vladimir. Rapidamente, os três deixaram a frente da escola sem nada dizer à multidão. Essa tarefa ficou a cargo do diretor Boris, que preferiu sair pelos fundos da escola sem nada dizer.

Nikolai acompanhou os dois até a porta da casa deles. Viu rapidamente a bela Anna que o cumprimentou como se não o conhecesse. Vladimir o convidou para tomar uma dose de vodka, mas ele recusou o convite dizendo que ficaria para uma próxima oportunidade.

Dimitry disse a Nikolai que queria algo dele…

– O que você quer de mim? – perguntou curiosamente o escritor.

– Quero um beijo…

Sua mãe o repreendeu. Nikolai sorriu e disse que não tinha nenhum problema. Ele se abaixou, deu um forte abraço no pequenino e beijou sua testa… Depois beijou sua face… Primeiro, o lado esquerdo… Depois, o direito… Olhou nos olhos do garoto e viu que ele sorria como se o que havia acabado de fazer fosse a coisa mais importante do mundo.

Arrisco-me a dizer que se não foi a coisa mais importante para o pequenino Dimitry, talvez tenha chegado muito perto. Ele sabia que o escritor nutria um carinho, uma afeição especial por ele. Tinha certeza de que não se tratava de pena.

CAPÍTULO 11 – Publicado em 12/10/2017

Três horas da tarde. Ainda vinham à minha memória muitas histórias, vários questionamentos, inúmeras conversas que já havia tido com Nikolai. Era uma verdadeira fonte de que manava toda a existência do escritor diante de mim.

Ele ainda dormia. Aproveitei para ler alguns trechos de seu recente trabalho e confesso que pouco entendi. Era compreensível, haja vista se tratar dos primeiros rascunhos; as idéias ainda estavam desconexas. Talvez somente ele mesmo entendesse aquele amontoado de palavras. Acabei desistindo de decifrar todas aquelas folhas.

Olhei em todas as direções do quarto e percebi algo que ele ainda não havia notado. O quarto…

Talvez seus pensamentos estivessem tão direcionados ao novo trabalho que mal havia tempo de notar as pequenas coisas que se passavam ao redor. Não que eu me incomodasse com sua dedicação ao trabalho a ponto de deixar pequenas coisas se acumularem dentro de casa… Longe de mim! Mas o quarto estava repleto de tralhas.

Ele tinha uma estranha mania de guardar algumas coisas embaixo da cama. Como não houvesse mais espaços, todos os cantinhos do ambiente foram sendo preenchidos durante algum tempo.

Eram pequenas caixas de papelão, algumas caixas de fósforos usadas, cotonetes, embalagens vazias de absorventes, sacolas plásticas de várias cores e tamanhos, sola de sapato, pequenos pedaços de madeira, pedras (grandes e pequenas), barbantes de todos os tipos, tampinhas de refrigerantes, brinquedos usados de plástico, canetas sem tinta, uma enorme quantidade de latas de vários tamanhos e cores, ferramentas velhas e enferrujadas, panelas amassadas e ou furadas, peças separadas de um antigo televisor, pedaços de uma cama que havia sido cortada em uns pequenos centímetros para facilitar o manuseio, uma grande quantidade de livros, todos eles velhos e repletos de traças, além de uma infinidade de coisas que eu levaria horas para relatar.

No princípio, quando não havia ainda tanto lixo, Nikolai havia me dito que todo aquele material era para ser aproveitado em um trabalho artístico que tencionava realizar. Nunca me revelou o que seria e muito menos quando começaria a trabalhar nesse projeto.

Agora, os espaços estavam praticamente todos ocupados. Cada cantinho com seu pedacinho disso ou daquilo outro; um objeto com uma cor clara, outra mais escura; grandes quantidades, pequenas quantidades; algumas coisas velhas, outras mais velhas ainda…

Coisa de artista… Vá-se entender! Acho que nunca lhe diria nada. Ele poderia achar que eu estivesse querendo me intrometer em sua vida e principalmente em seu trabalho. Talvez ele seja um grande artista plástico que trabalhe com materiais recicláveis e eu não conheça esse seu talento. Bem! Se for artista plástico, tomara que seja tão bom quanto o é como escritor.

 Minha amizade com ele era bastante unilateral. Nikolai se sentia muito à vontade para conversar comigo sobre todo e qualquer tipo de assunto. Principalmente sobre sua vida pessoal, suas aventuras do passado, seu presente em minha companhia e suas poucas perspectivas para o futuro, embora falasse somente no momento em que desejasse conversar. Tudo era no seu tempo. Isso me intimidava e eu não tinha a mesma liberdade para falar com ele, não conseguia me sentir à vontade, por isso, sempre preferi escutá-lo.

Talvez por agir assim, tenha sido eleito por ele como o seu melhor amigo. Estava feliz por poder ajudá-lo de alguma forma, ainda que minha contribuição fosse ínfima.

Nikolai acordou sedento. Pegou sua velha xícara de estimação, encheu-a até a borda com água e bebeu sem parar. Repetiu essa cena por mais quatro vezes, talvez o efeito do tempero extremamente salgado tenha se manifestado somente depois de algumas horas.

– Ah! Que maravilha de água! – disse Nikolai com um semblante refrescante.

– Parece que toda a comida estava salgada. Não acha? – perguntei-lhe.

– Não! Não acho! Somente a carne estava salgada.

Disse-me de uma forma seca, como se eu estivesse levantando uma hipótese absurda. Como se minhas palavras não tivessem nenhum cabimento. Preferi não dizer mais nada. Apenas me calei e fiquei observando seus passos.

Ele estava prestes a retomar o seu trabalho. Leu e releu suas últimas anotações com toda atenção que lhe era pertinente quando estava trabalhando. Assim que começou novamente a escrever, foi interrompido por um forte grito.

Assustado, olhou em direção à porta e viu que ela permanecia fechada. Aproximou vagarosamente e olhou pela fechadura para descobrir o que estava acontecendo. Não queria abrir a porta, parecia estar muito assustado com grito a ponto de sentir medo.

Mais uma vez o grito ecoava pelo corredor e dessa vez ele pôde identificar quem estava gritando. Era o seu vizinho da frente, o morador do 102.

Pensou em abrir a porta, mas o adverti sobre o que tinha se passado durante a madrugada e ele acabou desistindo.

Não houve mais gritos. O silêncio voltou a reinar absoluto de forma que Nikolai poderia voltar a trabalhar, embora tenha preferido se sentar na velha cadeira de balanço sem nada fazer.

Balançava-se… Balançava-se… Vagarosamente… Vagarosamente, balançava-se… Olhar absorto como se estivesse pensando em algo que não fosse preciso ou que não fosse possível compartilhar.

Penso que naquele exato momento ele se transportava para uma outra dimensão ou para uma outra época qualquer diferente da nossa. Era sempre a mesma sensação que eu tinha quando ele se sentava naquela cadeira de balanço.

O ranger da cadeira era algo mágico. Às vezes eu dormia ao som emitido pela cadeira. Embora estivesse muito cansado, preferi observar a fisionomia de Nikolai para ver se era possível captar alguns de seus pensamentos. Deseja saber onde o escritor estava naquele exato momento. Onde ele poderia estar naquele estado alterado de consciência?

Era impossível. Não há como penetrar nos pensamentos de um ser humano. Por mais que eu me esforçasse, nunca conseguiria desvendar o que se passava quando ele se sentava na velha cadeira.

Como não era possível desvendar, acabei me lembrando de algumas coisas que se passaram na vida de determinadas pessoas que tiveram seus caminhos cruzados com os caminhos do escritor. Para uns, trilhados pela vida; para outros, trilhados pelo destino; e, para muitos outros, somente trilhados…

CAPÍTULO 10 – Publicado em 10/10/2017

Katerinne, com o passar dos anos, assumiu seus sentimentos por Nikolai. Não havia mais como esconder. Todos sabiam quanto ela o amava. Tudo o que podia fazer pela felicidade de seu amado ela fazia. Não media esforços para que ele conseguisse alcançar seus objetivos…

Assim que se tornou amante de Katerinne, seu comportamento modificou visivelmente. Não era mais solícito com as outras moradoras do recinto, não trabalhava mais em função do prostíbulo, conversava somente o necessário e quase não saía do quarto de Katerinne.

Não sei se por ordens dela estava evitando as outras mulheres ou se estava pensando que o fato de dormir com a dona do prostíbulo o fazia melhor que os demais, a ponto de não se relacionar com os outros. Talvez não fosse nem uma coisa, nem outra. Ele poderia estar simplesmente querendo se isolar um pouco do mundo real e adentrar de cabeça em um mundo novo, totalmente imaginário como fazia em suas histórias.

O fato é que a partir dessa época, ele passou a estudar com afinco literatura. Também passou a escrever rotineiramente, até que um dia deu por si e já estava com um livro pronto.

Encontrou uma série de dificuldades para publicá-lo. Nada menos do que sete editores recusaram seu trabalho. Katerinne quando percebeu que seu amado estava frustrado por não encontrar um editor que apostasse em seu talento, decidiu bancar uma primeira e modesta tiragem.

UMA FORCA PARA O HOMEM DE SANGUE AZUL foi publicado com uma tiragem de 500 exemplares. A maior parte dos livros era vendida no prostíbulo, uma outra parte era vendida pelo próprio escritor.

Nikolai saía pelas ruas da cidade com alguns livros dentro de uma sacola oferecendo a todos que encontrava pela frente. Bem, na verdade ele oferecia àqueles que aparentavam ter um pouco de dinheiro, que pudessem ao menos comprar um livro e principalmente aos que sabiam ler.

Não demorou muito para que o livro se esgotasse. Era comum ver um amontoado de pessoas em algumas ruas e vielas com o livro na mão, discutindo uns com os outros.

Houve um aumento de fregueses no prostíbulo em função do sucesso que o livro estava fazendo. Todos queriam conhecer o escritor que colocava “o homem de sangue azul” dependurado em uma forca.

Nikolai percebeu que seu talento o levaria a alçar vôos mais altos. Estava feliz com a repercussão de seu trabalho.

Katerinne sentia-se leve… O sucesso do amado era o seu sucesso. Sentia-se maravilhada com tudo aquilo que estava acontecendo. Sabia que, se não fosse por ela, Nikolai ainda estaria limitado a contar histórias às mulheres de seu prostíbulo.

Dizia para si mesma que agora tudo estava nos eixos. Que tudo havia se encaixado perfeitamente. Ele agora teria mais um motivo para ser somente dela. Não tinha como o escritor escapar de seus domínios.

Creio que um dos grandes erros de Katerinne tenha sido a tentativa de comprar o amor de Nikolai…

Houve uma festa na casa de Katerinne para comemorar o sucesso de vendas que tinha se tornado o livro. Naquela noite, com o recinto fechado ao público, somente os moradores participaram da festa preparada com enorme zelo ao mais novo sucesso literário que começava a se despontar.

Algumas mulheres dançavam no pequeno palco enquanto uma grande quantidade de vodka era distribuída entre os demais. Nikolai estava com uma garrafa na mão e já havia bebido quase a metade dela. Seu estado de embriaguez já era visível.

Dançou junto com as mulheres que estavam no palco de forma insinuante e excitante… Suas mãos acariciavam os corpos dançantes com o desejo estampado no rosto. Seus lábios tocavam os lábios das três mulheres que estavam no palco… Sugou cada gotícula de saliva que poderia encontrar nos sedentos lábios. Mordia levemente o pescoço de Martinna, enquanto Valeska e Yellenova começaram a tirar a roupa dele.

Era o único homem que havia no recinto. Aliás, havia um segundo homem… Puttin, o pianista, era quem comandava a festa tocando ininterruptamente. Ele era dotado de um grande talento musical e por isso, todos o respeitavam.

Possuía um abdômen bastante saliente para quem media apenas um metro e sessenta. Um bigode pequeno e ralo, contrastava com a face arredondada do excelente músico. Não gostava muito de tomar banho, por isso, exagerava ao passar suas supostas colônias francesas pelo corpo.

Andava sempre muito bem trajado. Tinha o costume de trazer consigo uma cartola e uma bengala. Separava-se de seus objetos pessoais somente quando estava tocando.

Diziam as más línguas que ele nunca havia estado com uma mulher. Não sabiam se ele tinha sua vida voltada somente para a música ou se na verdade, nunca havia despertado o interesse em alguém.

Isso, na verdade, é um fato irrelevante. Nikolai era o único homem que despertava o desejo de quase todas as mulheres da casa. O seu prestígio havia contribuído grandemente para que isso ocorresse.

Yellenova, Valeska e Martinna haviam tirado toda a roupa do escritor. Nu e embriagado ele também tirou toda a roupa das três. Uma a uma… Peça por peça… Estava formada uma grande orgia. Era uma autêntica festa solene em honra de Dioniso ou Baco, como queiram, só que regrada a vodka e não a vinho.

Ele possuiu as três mulheres… Ali… No palco! Uma de cada de vez. Enquanto estava nos braços de uma, as outras aguardavam ansiosas a oportunidade de copularem com o escritor… Acariciavam-se como se fossem do sexo oposto.

Katerinne, que estava em seu quarto se arrumando para a festa, sequer imaginava o que estava se passando no salão. Ouvia as músicas, as gargalhadas, toda a anarquia que se passava, embora não suspeitasse de nada.

Ela só queria abraçar o seu amado e demonstrar toda a sua felicidade pelo sucesso repentino que ele havia alcançado. Fazia planos para depois da festa… Os dois… A sós, em seu quarto… Amar-se-iam como se fosse pela primeira vez.

Pensava em seu sofrido passado. O quanto havia sido maltratada pelos homens e que na verdade nunca havia se apaixonado por ninguém. Ele era o seu primeiro homem. Era o seu único e verdadeiro amor.

Um garoto a quem ela acolheu por piedade acabou se tornando um homem… Um grande homem. Um escritor! Ela só desejava ter o seu nome gravado no coração de Nikolai.

Ainda no palco, o escritor percebeu que outras mulheres se excitavam com a cena que havia proporcionado. Perguntou se mais alguém desejava fazer parte daquele banquete carnal e houve algumas respostas positivas.

O palco havia se transformado em uma confusão de corpos que desejam ser tocados pelo rígido membro do escritor. Não havia amor, não havia sequer paixão naquelas cenas. O que existia era tão somente uma convulsão libidinosa que havia se alastrado como uma doença contagiosa.

Assim que saiu do quarto, Katerinne presenciou tudo que se passava sob seu teto. Uma grande dor invadiu seu peito e por muito pouco não desmaiou. Sentiu-se a pior de todas as prostitutas. Não queria acreditar em tamanha traição. O que mais lhe doía não era vê-lo com as outras mulheres, sabia que mais cedo ou mais tarde isso poderia acontecer. Ela sabia que uma loba na idade dela não conseguiria segurar um carneirinho só para si.

A grande traição, a maior ofensa, o grande desprezo que sentiu pelo homem a quem amava foi de ele não ter compartilhado sua maior alegria com quem realmente merecia. Foi ela que lhe deu comida quando teve fome… Foi ela que cedeu sua cama para que ele pudesse dormir confortavelmente… Ela quem acreditou no seu talento como escritor…

Katerinne havia apostado todas as suas fichas em Nikolai e começava a presenciar as próprias perdas.

Quando o escritor percebeu que estava sendo observado por sua amante, ele parou. A música parou… Todos pararam e olharam para ele. Ele ergueu uma das mão convidando-a a fazer parte da orgia iniciada por ele. Ela acenou negativamente com a cabeça e mandou que todos continuassem.

A música reiniciou… As mulheres recomeçaram com suas carícias… Nikolai viu sua amante retornar ao quarto e… Pensou em ir atrás dela, mas foi convencido, sem palavras, a permanecer no palco. Afinal, ele era a estrela da noite.

Katerinne teve vontade de chorar. Segurou ao máximo até a primeira lágrima escorrer pela face. Caminhou em direção ao espelho que ficava no centro do quarto e ficou contemplando seu rosto durante algum tempo.

Viu como o tempo havia passado rápido. Lembrava-se de seus quinze anos como se lembrava da noite anterior. Como sua pele era sedosa… Havia um frescor que se exalava a cada sorriso dado. Seus olhos irradiavam uma energia que nem mesmo sabia de onde vinha. Perguntou-se onde teria ido parar toda aquela jovialidade.

Alguns leves sinais enrugados deixavam-lhe o rosto com um semblante circunspecto. Não acreditava no que seus olhos viam. Até a noite passada, não havia notado todos aqueles sinais. Pensou que eles pudessem ter “invadido” seu rosto da noite para o dia. Sabia que já não era a mesma, que estava envelhecendo, todavia ainda não tinha se dado conta das transformações pelas quais estava passando.

Era impossível! Difícil acreditar na realidade que estava diante de seus olhos… A idade estava começando a deixar suas marcas indeléveis pelo corpo. E o pior de tudo isso é que não se podia fazer nada. Não se luta contra o tempo e nem mesmo se consegue vencê-lo.

Katerinne ainda era uma bela mulher e nessa época deveria ter quarenta e dois anos. Estava decepcionada consigo mesma como se ela fosse culpada por todos os acontecimentos e descobertas da noite.

Desejou ir se deitar, embora não o fizesse. Não estava com sono. Acabou pegando uma escova e defronte ao espelho começou a alisar seus cabelos. Executou o mesmo movimento várias vezes até que um som diferente ecoou por todo o quarto.

Parte do espelho havia se quebrado com a forte pancada que ela deu utilizando a escova de pentear. Alguns pedaços caíram no chão revelando o reflexo de uma mulher momentaneamente perturbada. O que sobrou do espelho foi um grande trincado de cima a baixo.

Ela, com o semblante totalmente desfigurado, apanhou um pedaço do espelho que estava no chão e passou vagarosamente pelo pulso, como se estivesse tencionando sua morte.

Brincava… Passava o afiado caco pelo pulso contando em voz alta o número de vezes em que se repetia esse gesto. Depois de um impreciso tempo, direcionou o caco do espelho ao pescoço. Cantarolava e dizia para si que havia perdido literalmente a cabeça.

Algumas horas se passaram e o silêncio tomou conta do quarto de Katerinne. Meia hora depois, a festa também havia se encerrado.

No palco, várias mulheres nuas e seminuas dividiam o pequeno espaço desejando algumas horas de sono.

No balcão de madeira que havia no salão, uma porção de copos sujos presenciavam as situações a que um ser humano pode chegar.

Encostado ao piano, Puttin ressonava abraçado a uma mulher. Ela nua e ele de roupa, com uma garrafa de vodka, sua cartola e a bengala. Creio que seja um dos poucos que não tenha participado da festa de Baco, digo, de Nikolai.

Yellenova, Valeska e Martinna como tinham sido as primeiras a fazerem parte daquele bacanal, haviam ido para seus quartos antes mesmo do término da festa.

Nikolai, bêbado e cansado, tentava ir para o quarto. A escada em formato de caracol parecia ter o dobro do tamanho real. Isso dificultava o seu intento.

Rastejando como uma cobra conseguiu chegar ao quarto de sua amante que já estava dormindo. Viu o seu reflexo em um dos pedaços do espelho que estavam despedaçados pelo chão e chorou.

Não demorou muito para que avistasse o que restou do grande espelho que havia no quarto… Um trincado de cima a baixo que dividia sua face em duas, demonstrando imperfeições que aparentemente não existiam em seu rosto. Pensou que se tratava de um homem com duas caras, ratificando a impressão que tinha ao olhar aquele espelho.

Aproximou-se da cama em lágrimas e se deitou ao lado de Katerinne. Ela acordou assustada ao vê-lo na cama, tentando abraçá-la.

– O que você pensa que está fazendo? – disse Katerinne furiosa.

– Eu não sei! – respondeu confusamente Nikolai.

Acabou enxugando as lágrimas com as mãos. Ele estava transtornado. Não falava muita coisa, na verdade não falava quase nada. Apenas chorava. Convulsivamente…

Katerinne teve pena ao vê-lo naquele estado e o abraçou. Ficaram muito tempo abraçados até que a última lágrima cessou. Não havia mais lágrimas para percorrer o rosto dele.

Estavam calados. Novamente o silêncio imperava absoluto naquele quarto. Não demorou muito para que Nikolai acariciasse a face de sua amante. A princípio, ela tentou se esquivar, mas um forte arrepio que percorreu seu corpo fez com que cedesse aos carinhos e carícias iniciados pelo amado.

Não pronunciaram uma única palavra a respeito daquela noite. Na verdade, creio que a noite estava começando a partir daquele momento. Talvez fosse o marco zero.

Katerinne teve a noite que desejava compartilhar com o seu homem, embora o seu coração estivesse ferido.

Ela sabia que o amor que sentia por Nikolai não era recíproco. Todavia, contentava-se com o forte amor que sentia por ele. Havia ouvido, não se lembrava onde, que para amar não era necessário que os dois amassem. Bastava apenas um para que se consolidasse o amor. Ela o amava e isso bastava.

Aquele coração sofria calado por um amor de momentos, um amor de migalhas. Ela sabia que o seu homem, na verdade, não era seu… Talvez não fosse de ninguém, mas aceitava a situação e iria fazer o impossível para conquistá-lo.

Seu amor era incondicional. Estava disposta a ficar ao lado de Nikolai por toda a sua vida. Jamais pensou em abandoná-lo. Sabia que sempre teria problemas por causa de outras mulheres, mas isso, sem dúvida nenhuma, não seria motivo para que seu sentimento pelo ardente escritor esfriasse.

CAPÍTULO 9 – Publicado em 09/10/2017

Eram dez horas da manhã. A hora do almoço se aproximava e Nikolai ainda não havia retornado. Não costumava dar satisfações de sua vida a ninguém, principalmente a mim. Às vezes me comunicava o seu paradeiro, embora, na maioria das vezes, simplesmente saía sem dizer aonde ia.

Fui a nossa improvisada despensa ver se havia algo para comer e não encontrei nada. Meu pequeno estômago vazio produzia sons horríveis. Definitivamente precisava me alimentar.

Até mesmo os restos de queijo e azeitonas tinham desaparecido. Ficaram somente o cheiro que fizeram meu estômago “reclamar” vorazmente por comida. Lembrei-me de que eu mesmo havia me encarregado da última porção de queijo com azeitonas.

Antes que eu saísse em busca de alimentos, Nikolai havia retornado com uma farta quantidade de comida. Estava adivinhando meus pensamentos. Retirou dos bolsos de seu sobretudo, alguns embrulhos de papel contendo carne, dois ovos cozidos, um pouco de pasta à italiana além de um pequeno vidro contendo vinho.

Comemos moderadamente, embora tenhamos nos fartado. Tive vontade de beber um pouco de vinho, mas egoisticamente fui privado de saborear essa divina bebida. Não me importei, afinal sabia que uma das maiores paixões dele era o vinho.

Conversamos pouco. Coisas sem importância e sem muita utilidade. Ele não quis falar sobre o livro que estava escrevendo, contudo acabou me dado algumas pistas preciosas sobre o que seria.

Como sempre, eu apostava que seria um enorme sucesso, como toda a sua obra. Ele não levava muito em consideração meus comentários, afinal, éramos amigos e segundo ele, amigos não serviam para comentar e analisar livros escritos por outro amigo.

Fui para o meu canto e fiquei observando com que empenho ele se entregava ao trabalho. Não me admirava o porquê de ele ter sido um dos escritores mais lidos do país e ter o seu trabalho reconhecido em outros continentes.

Era um homem fenomenal. Comprometia-se ao extremo com seu trabalho. Quando desenvolvia um novo projeto, preferia não ler nenhum outro autor para não se influenciar. Desejava ser cristalino como as águas sem se deixar confundir por outras idéias, ainda que estas fossem louváveis.

Queria ser autêntico e estava conseguindo executar seu intento com êxito. Falava de questões vistas por um ângulo diferente, sempre explorava a face oposta, o lado ainda não descoberto pelos outros escritores e isso era o seu diferencial. Sua marca registrada.

Era fácil reconhecer um texto escrito por Nikolai. Seu estilo era inconfundível. Muitos escritores, jovens novatos na arte da escrita e até mesmo os velhos, quiseram imitá-lo; em vão, aproximaram-se de algumas questões suscitadas por ele, embora não da maneira contundente e ao mesmo tempo elegante que o fazia.

Acabou tomando o restante de vinho que havia sobrado da refeição enquanto escrevia. Foi uma pequena pausa e o trabalho recomeçou.

Algum tempo depois, como costumava fazer, leu suas anotações em voz alta. Repetiu um mesmo trecho por cinco vezes seguidas e acabou rasgando algumas páginas que havia escrito.

– Droga! Isso tá uma porcaria! – disse Nikolai.

Ficou algum tempo parado. Olhava para o teto… Olhava para suas folhas rasgadas… Podia escutar perfeitamente sua respiração. Não tinha a menor idéia do que ele estava pensando.

Pegou todas as páginas que havia rasgado e começou a recompô-las como um verdadeiro quebra-cabeça. Assim que tudo estava montado, pegou algumas folhas novas e começou a copiar o que estava escrito. Ao terminar de copiar o texto, refletiu por alguns instantes e sorriu.

– É isso! É isso mesmo! Não acredito que iria desperdiçar esta verdade… Só se estivesse louco! – alegrou-se Nikolai por ter conseguido recuperar as idéias originais.

Leu novamente o texto em voz alta, só que desta vez, com uma outra tonalidade na voz. Havia melhorado a pontuação e o texto havia se transformado. Fiquei surpreso ao ver como as mesmas palavras tinham significados diferentes; como as pequenas mudanças ampliavam a forma de se entender uma simples frase.

Nikolai gargalhava e olhava para mim como cúmplice de seu talento. Sabia das suas qualidades como escritor e isso o envaidecia.

Eu não disse uma única palavra. Não queria inflamar ainda mais o ego do escritor, todavia minha admiração por ele aumentava ainda mais. Era um brilhante escritor.

Apesar de sua incontestável obra, Nikolai era incompreendido por muitos. Havia pessoas que deturpavam seu trabalho. Não sei se por inveja, ignorância ou até mesmo por questões políticas; o fato é que a incompreensão vinha de várias direções… Era assustador.

Ele não gostava de falar a respeito disso. Eu evitava tocar no assunto, embora uma série de questionamentos me visitasse à noite, durante meu sagrado sono.

Nikolai continuou repetindo seu texto inúmeras vezes. Tive medo que nossos vizinhos reclamassem, pois ele estava falando um pouco alto. Depois de certo tempo, ele havia decorado o texto e agora declamava alguns trechos como se estivesse perante a mulher amada.

Sorriu para mim e voltou a trabalhar em um ritmo frenético. Tinha algumas manias estranhas que ficavam ainda mais em evidência quando trabalhava. Enquanto escrevia com a mão direita, quase que de minuto a minuto, passava a mão esquerda pelo rosto como se estivesse enxugando a face. Seus pés balançavam constantemente como se marcasse o ritmo. Talvez marcasse o compasso da escrita. Quando parava de escrever, sempre fixava o olhar em uma direção e ficava parado por algum tempo. Depois, retornava a escrever em seu ritmo habitual.

Mesmo em um clima frio como o nosso, vi por várias vezes Nikolai transpirar enquanto trabalhava. Creio que a intensidade no processo criativo era tamanha, que ele acabava expelindo não só suas idéias e seus pensamentos. Acabava se expurgando…

Trabalhou por aproximadamente uma hora. Talvez uma hora e meia, não mais do que isso. Deixou todo o material em cima da simples mesa que compunha a mobília do quarto e caminhou em direção à cama.

Sentou-se e com um olhar bastante interrogador ficou me olhando. Não sei por que, mas senti um calafrio. Tive um pouco de medo, embora soubesse que ele não desejava meu mal.

 – O que você está fazendo aí? – perguntou-me com um leve sorriso nos lábios.

– Eu… Bem! Aqui é o meu lugar. – respondi um pouco confuso.

Ele ficou me olhando por mais uns dez minutos. Eu não lhe disse nada durante esse tempo. Ele também nada havia me falado. Resolvi quebrar o silêncio e perguntei por que ele me olhava tanto.

– Nada! Não é nada. Estou somente te admirando. Gosto da sua forma de ser. Vejo muita honra em seus olhos. Há homens brilhantes que não possuem o brilho que há em seus olhos. – disse-me Nikolai.

Senti-me lisonjeado com suas palavras. Não esperava que ele se dirigisse a mim daquela forma. Suspirei emocionado e logo em seguida tive uma surpresa maior ainda.

– A partir de hoje, você vai dormir na minha cama. – bradou Nikolai como um verdadeiro general.

Eu não me cabia de tanta felicidade. Não via a hora de chegar a noite para poder dormir junto com meu melhor amigo. A atitude que estava tendo comigo era de uma enorme cumplicidade. Sem dúvida alguma era um gesto incontestável de amizade.

Assim que me comunicou a novidade, ele se deitou para poder dormir um pouco. Às vezes agia assim. Não se limitava a horários, embora fosse necessário cumprir certas normas. Acabou adormecendo no período da tarde.

Eu acabei fixando meu olhar em seu abdômen. Ele respirava… E expirava… Respirava… Expirava… Bem lentamente… Respirava… E expirava… Sua respiração era tão monótona e ritmada que acabei entrando numa espécie de transe e muitas coisas sobre Nikolai vieram a tona. Minha cabeça fervilhava de tantas imagens que me visitavam ao mesmo tempo. Foram muitas as recordações do que ele havia me confidenciado…

CAPÍTULO 8 – Publicado em 07/10/2017

Deveriam ser oito horas da manhã e eu me lembrava de outras histórias sobre meu amigo poeta…

Meu amigo Nikolai era um homem surpreendente. Escritor de imaginação fértil, às vezes me confundia. Não conseguia discernir realidade de ficção em algumas de nossas conversas.

Certa vez, contou-me que fizera uma viagem clandestinamente em um navio cargueiro pelo Mar Negro. Não me revelou como havia conseguido passar por todas aquelas fronteiras, por isso não sei ao certo… Bem! Ele…

Nikolai queria escrever um conto cuja narrativa central se passasse em Istambul. Nunca disse por que o interesse por tal localidade. Como possuía pouca informação sobre a cultura e os costumes daquele povo, resolveu se arriscar em uma aventura pelo Mar Negro.

Havia passado os primeiros dois dias na companhia dos ratos dividindo as sobras de comida com os mesmos… No terceiro dia, resolveu se apresentar ao comandante e lhe dizer toda a verdade.

Não pensou duas vezes, agiu impulsivamente. Na primeira oportunidade, foi até ao convés e imediatamente foi capturado pelos marinheiros que o levaram a presença do comandante do navio.

O primeiro desejo do comandante foi de lançá-lo ao mar, porém havia algo no clandestino que chamou a atenção do responsável pelo navio. Uma pequena cicatriz no ombro direito em formato de âncora.

Não era um formato bem definido, todavia, quando se olhava de relance, realmente lembrava uma âncora.

O fato é que o comandante tinha um filho que havia morrido há dois anos. O jovem possuía uma marca semelhante à que Nikolai carregava no ombro.

Karov, este era o nome do filho do comandante, havia morrido nos braços do próprio pai. Contraíra uma doença desconhecida que o levou com apenas dezessete anos de idade.

Antes de morrer, o rapaz havia dito ao pai que um outro filho o substituiria. O pai respondeu que ele era insubstituível e que nenhuma outra pessoa ocuparia seu lugar de filho unigênito.

Outro detalhe importante que convém ressaltar nessa história é que, além do estado de viuvez do comandante, ele já não podia mais procriar, devido à idade avançada. Nada disso era justificativa para Karov. Ele disse que o pai saberia na hora certa quem seria o enviado para acalentar o pobre coração daquele velho lobo do mar.

 A hora havia chegado. A cicatriz no braço de Nikolai era o sinal que o comandante acreditou como sendo a confirmação que seu filho havia profetizado. O velho comandante estremeceu ao ver aquela cicatriz… Quase desmaiou ao se lembrar das palavras do filho.

Aquela pequena imperfeição na pele de Nikolai acabou lhe salvando a vida. Justamente ele que já havia dito toda sorte de impropérios por causa do acidente que havia sofrido.

Em sua infância quando havia saído para pescar, acabou não se sabe como, tendo o anzol agarrado no ombro. Na ânsia de se livrar daquele objeto, acabou rasgando a pele ficando assim uma marca em seu ombro.

– Karov! – disse o comandante com uma teimosa lágrima escorrendo pela face.

Houve um enorme silêncio no convés do navio. Toda a tripulação conhecia a história do comandante, o único que não sabia o que aquele nome significava, era o clandestino.

Mais uma vez o comandante pronunciou o nome do filho, só que dessa vez, caminhando em direção a Nikolai e o abraçando.

Choraram durante alguns minutos. Sim! Choraram… Apesar de não saber o que estava se passando, Nikolai chorou ao ver que aquele velho homem chorava como uma pobre criança de colo.

O comandante o levou para a cabine principal, dando ordens aos marinheiros que preparassem roupa limpa e comida para o rapaz que não comia há dias.

Nikolai aproveitou para tomar um delicioso banho. Com as roupas que havia ganhado do comandante, parecia fazer parte da tripulação. Comeu mais do que realmente desejava, talvez estivesse com medo de sentir fome novamente. Depois que havia se fartado, ouviu toda a história do comandante.

Penalizou-se com a tragédia sofrida pelo velho, embora se sentisse uma farsa. Não queria de forma alguma se aproveitar das crenças de um pai desesperado que perdeu seu único filho fatalmente.

Explicou mais de uma vez ao comandante como havia adquirido a cicatriz, todavia o velho comandante já o havia adotado sentimentalmente como filho. Foi inútil tentar convencê-lo do contrário.

Surgia ali uma grande amizade entre duas pessoas completamente desconhecidas. Pessoas totalmente diferentes que se encontraram por uma mera obra do acaso.

Acho que Nikolai aproveitou toda a situação favorável para identificar no velho comandante a figura paterna. Como já mencionei, nunca ouvi dos lábios de Nikolai uma só palavra a respeito de seus pais. Penso que o período em que passou ao lado do velho lobo do mar tenha sido mais significativo.

À noite, Mazukiewikz (o comandante do navio) e meu amigo escritor; iam para a proa e ficavam horas a fio conversando… Fumavam… E bebiam vodka. Ficavam até a última gota de vodka, depois iam ver as estrelas. O comandante lhe dava aulas de como navegar se orientando pelas estrelas; narrava inúmeras façanhas vividas a bordo dos navios dos quais fizera parte; compartilhava seus sonhos, desejos e principalmente suas frustrações. Nikolai o ouvia e… Conversava sobre os assuntos abordados durante a noite na perspectiva de poder compreender seu interlocutor. Depois o sono aliado ao cansaço os dominavam não os dando nenhuma chance. Iam dormir…

Houve uma noite em que o céu estava encoberto. Não se podia ver uma estrela sequer. Uma forte tempestade que estava se formando acabou não se consolidando, para sorte de toda a tripulação. Nikolai e Mazukiewikz ficaram longas horas esperando poderem ver ao menos uma estrela.

Enquanto esperavam discutiam sobre a criação do universo. Para o velho lobo do mar, tudo era muito simples, obra da natureza. Tudo feito com precisão e às vezes, ao acaso mesmo, mas pela natureza. A natureza se incumbia detalhadamente das mínimas coisas. Os detalhes eram particularidades que só ela – a natureza – seria capaz de conceber, não haveria forma racional conhecida que formasse o universo… Os mares e rios… As imensas florestas… Os cumes gelados… Enfim, a natureza se fazia por si só, ao seu tempo, à sua vontade, do seu jeito… Era um navio à deriva.

O escritor achava que havia algo mais profundo, uma divindade superior capaz de transformar, criar, recriar, dar origem, dar forma… Dar vida… Não gostava de utilizar a palavra Deus e deuses, talvez pela criação sempre imposta por parte dos governantes ou realmente por não acreditar em tal existência. Referia-se a esse ser como um irmão de um universo distante e bem mais evoluído do que o nosso…

O comandante e o escritor ficaram horas discutindo sobre a razão que defendiam. Eram tão convictos em seus respectivos discursos que, em determinados momentos, acabavam convencidos um pela retórica do outro. Mas somente por alguns instantes, depois voltavam a defender suas convicções com todo fervor.

Depois de algum tempo, impreciso tempo, ficaram em silêncio. Não sabiam explicar o motivo que os levara a cerrarem os lábios. Trocaram olhares como se pudessem transmitir seus pensamentos e depois de aproximadamente cinco minutos, voltaram a conversar.

Falavam sobre a vida. Discutiam sobre a morte. O comandante se justificava dizendo que não podia crer em uma divindade superior que havia tirado o único filho. Um filho que morreu em seus braços agonizando por causa de uma maldita doença. Em contrapartida, Nikolai não sabia argumentar o motivo que levara o filho do comandante a se encontrar com a morte.

A morte os apavorava. Não entendiam, não sabiam explicar, não sabiam de onde vinha ou para onde ia, só não queriam ter que olhar para a face negra e maldita da morte.

Às vezes, não sabiam sequer se era maldita. A morte… Maldita ou bendita? Não sabiam ao certo. Confundiam-se a cada palavra que se dispersava pelo ar. Eram simples criaturas tentando decifrar os enigmas mais bem protegidos que o ser humano tentou desvendar em todos os tempos.

Não conseguiam respostas que os satisfizessem. Beberam mais vodka e acabaram adormecendo abraçados, como duas crianças. Dormiram tranquilamente até que o Sol reluziu fortemente em suas faces mostrando toda a imponência de luz e calor.

Sentiram-se meras formiguinhas diante do gigantesco astro. Preferiram não mais falar sobre o assunto da noite passada, embora houvesse uma grande frustração estampada nos rostos de ambos.

Durante todo o dia, o escritor aproveitou para relatar toda a sua viagem junto à tripulação do Kiev. Tomou depoimentos de quase todos os tripulantes e por fim se dava por satisfeito. No fim do dia, encontrou-se com Mazukiewikz que lhe disse:

– Você sabe tantas coisas e não sabe nada ao mesmo tempo…

Nikolai se surpreendeu com as palavras ditas pelo comandante do navio Kiev e esperou que ele completasse a frase:

– Não tem certeza de seu próximo passo. Não sabe sequer se dará um próximo passo… Se terá a oportunidade de seguir adiante…

– Todavia tenho que continuar… – disse Nikolai olhando dentro dos olhos do comandante.

– Continuar para quê? À procura do quê? O que tanto desejas?

– Ainda não sei… Sei que não posso parar. Tenho que ir adiante. Tenho que continuar.

Após ter dito essas palavras, ele foi para a cabine e ficou meditando sobre as coisas que haviam acontecido nos últimos dias.

Percebeu que não precisava ir a Istambul para escrever seu conto, tinha material suficiente para narrar tudo o que havia passado juntamente com a tripulação do Kiev e principalmente suas conversas com o comandante Mazukiewikz.

Preferiu não seguir viagem e acabou retornando para casa. O comandante, a princípio, não se conformou com a decisão de Nikolai. No entanto, compreendeu que o lugar do escritor não era a bordo do Kiev. Ele tinha que continuar sua busca, já que o comandante já havia abdicado de procurar por respostas. Dava-se por satisfeito ao reencontrar o filho Nikolai.

Dessa pequena aventura surgiu o livro NAVEGANDO PELA MORTE EM BUSCA DO CAMINHO DA RAZÃO. Não sei por que Nikolai sempre gostou de títulos grandes, entretanto, bem instigantes. Creio que grande parte de sua obra é voltada para a essência do SER.

Apesar de não saber ao certo se essa viagem a bordo do navio Kiev foi verídica, o livro narra uma discussão filosófica entre dois marinheiros que, durante a viagem pelo Mar Negro, presenciam a morte do filho do comandante do navio e a partir desse fato, questionam-se sobre os entrelaçamentos dos caminhos da morte e da vida no universo em que pensamos viver.

Nikolai é realmente surpreendente… Ou seria um louco? Surpreendente… Louco… Simplesmente Nikolai.

CAPÍTULO 7 – Publicado em 06/10/2017

Anna aguardava ansiosamente uma oportunidade para reencontrar seu amante. No mesmo dia em que seu marido viajou para vender sapatos, ela procurou por Nikolai. Mandou um bilhete por um portador de confiança marcando um encontro à noite na hospedaria.

O escritor respondeu prontamente dizendo que iria e que faria o possível para não se atrasar. Precisava concluir alguns trabalhos que não poderiam ficar para depois.

Assim que anoiteceu, Anna preparou uma poção sonífera para o filho que, em pouco tempo acabou adormecendo. Pegou uma capa e ganhou a rua. Percorreu várias vielas antes de chegar à hospedaria. Tinha um enorme cuidado para que ninguém, além das pessoas que eram cúmplices daquele relacionamento extraconjugal, soubesse de sua aventura.

Chegando ao quarto, jogou algumas pétalas de rosas sobre a cama e se despiu por inteiro. Deitada na cama, passava as pétalas pelo corpo tendo seu cheiro misturado ao cheiro das rosas. Era uma bruxa… Uma encantadora bruxa capaz de levar qualquer homem a cometer o mais louco dos crimes por apenas uma noite de amor.

Tocava-se em algumas partes do corpo… Isso lhe dava um enorme prazer. Pensava em seu amante e o prazer aumentava ainda mais. Desejava estar nos braços dele… Desejava seus beijos, seus toques, suas doces palavras ditas bem pertinho do ouvido… Desejava ser amada novamente com a mesma intensidade da última vez em que se encontraram.

A única coisa que fazia sentido para Anna era o grande amor que nutria pelo escritor. Venderia sua alma ao diabo, se preciso fosse, para ficar ao lado daquele que havia elegido como seu escolhido.

Creio que Nikolai não havia planejado uma noite de amor da mesma forma que Anna. Ele pensava em conversar sobre o pequenino Dimitry. Queria saber onde estava o amor de mãe para com seu único filho. Queria ver mudanças da parte dela para que o garoto pudesse ter uma vida um pouco melhor. Penso até que desejava conversar a respeito de Vladimir, o pobre marido traído que carregava consigo um misto de bondade e bestialidade.

Bem! Quanto a isso fica difícil de saber. O fato de ser amante lhe dava grande prazer. O “fruto proibido” o deixava maravilhado diante da perspectiva de ser o homem ideal para toda e qualquer mulher.

Claro que Nikolai era vaidoso e com certeza um homem bastante interessante. Entretanto, todos os ditos criados em torno dele eram um reflexo direto de seus trabalhos lidos por grande parte da população, principalmente as mulheres que adoravam ler seus romances.

Enquanto caminhava em direção à hospedaria, lembrou-se do dia em que socorreu o pequenino e acabou chorando. Chorou amargamente como se aquele garoto fosse seu filho. Não aceitava a condição imposta pela vida ao pequenino Dimitry. Tinha que fazer alguma coisa, precisava de uma solução para o problema. No entanto, lembrou-se de que não são todos os problemas que têm solução.

Ao menos iria conversar com Anna para exigir que seu papel de mãe fosse executado como deveria ser. Pelo menos alguma coisa ele poderia fazer pelo pequenino.

Chegando ao quarto da hospedaria, ele se esqueceu de todos os nobres motivos que havia pensado há pouco. Recuperou o fôlego que havia perdido por um breve momento e se pôs a contemplar aquela mulher nua em cima da cama… Seus olhos pousaram na nudez da linda mulher…

O cheiro de rosas lhe invadiu as narinas deixando-o estonteado com a deliciosa fragrância que se misturava ao frescor da pele suave e macia de Anna…

Ouviu-a chamar pelo seu nome docemente, parecia ter mel nos lábios…

Aproximou-se vagarosamente da cama sentando-se ao seu lado. Delicadamente, seus dedos percorreram toda a extensão do corpo dela. Mãos que acariciavam pernas… O abdômen bem desenhado… Mãos que tocavam os seios com extremo cuidado, como se fossem duas jóias raras…

Os lábios dos amantes desejavam-se fortemente como se a vida dependesse de um beijo para existir… O néctar dos deuses havia sido compartilhado.

Estava tudo pronto. Os cinco sentidos aguçados eram uma pequena prévia de tudo o que iria acontecer durante a noite.

Anna desejava ser amada com toda a virilidade que o amante pudesse lhe proporcionar. Queria sentir novamente todos os prazeres do último encontro. Nikolai também compartilhava o mesmo desejo.

A fricção causada pelos corpos incendiava a cama. Desejavam-se com tanto fervor que pareciam estar brigando… Mordidas e arranhões complementavam aquela luta, tamanha era a intensidade amorosa.

Ela gritava como uma loba selvagem em pleno cio que conclama seu macho a copular…

A mistura dos corpos exalava um cheiro libidinoso que, misturado ao suor, excitava-os ainda mais. Eram dois animais que se devoravam e continuariam a se devorar até que alcançassem o clímax do prazer.

Não demorou muito para que esse estágio fosse atingido. Era recíproco o desejo de ambos e como não se viam há dias, atingiram o clímax em um tempo menor. Não que isso fosse importante, já que a sensação que tiveram, desta vez, foi certamente melhor.

 Ficaram aproximadamente uma hora deitados bem juntinhos sem pronunciar uma palavra sequer… Sentiam-se leves… Seus corpos não pesavam mais de um quilo… Aproveitaram aquele momento silencioso trocando carícias…

Nikolai desejou acender um cigarro, entretanto não o fez. O clima harmonioso daquele quarto era tão perfeito que qualquer movimento mais brusco poderia quebrar todo aquele encanto. Preferiu não arriscar.

Todo o universo cabia naquele pequeno quarto de hospedaria. Ao menos, as coisas boas do universo. O resto do mundo era somente resto, pelo menos era essa a impressão obtida pelo casal de amantes. Definitivamente não queriam sair para se confrontarem com um mundo real.

Como não tinham nenhuma pressa, estavam dispostos a se amarem novamente… O escritor beijava suavemente os delicados pés de Anna que se contorciam em alguns momentos ao sentir as cócegas provocadas por aquela doce língua. Durante algum tempo se deliciaram com essa brincadeira.

Ele delicadamente a tocou na vulva, com a ponta dos dedos, enquanto seus lábios procuravam os lábios de Anna.

Nikolai cobria cada centímetro do belo corpo de Anna com beijos ardentes… Beijos que provocavam arrepios não somente nos poucos pêlos que ela possuía nos braços, como também na alma.

Amaram-se durante horas… Agora pareciam dois jovens que estão descobrindo a arte de amar, diferentemente dos “animais” de algumas horas atrás que se “atracaram” desejosos, como se a morte os esperasse em seguida e fossem privados dessa prática para todo o sempre.

O ritmo suave com que seus corpos bailavam sobre a cama era a verdadeira expressão da paixão. Deliciavam-se com o embalo… Seus sorrisos iluminavam o simples quarto como o Sol em uma manhã de primavera.

Não se soltavam para nada… Também, isso era algo que não desejavam fazer.  Eram os dois um único indivíduo… Eram os dois um só espírito… Amantes loucos! Loucos amantes que se entregavam sem reservas.

Mais uma vez a harmonia entre eles era perfeita. Conheciam-se… A cama, literalmente, era a solução para todos os problemas que tinham. Entendiam-se perfeitamente… Na cama!

Não poderiam se esconder pelo resto de suas vidas dentro daquele cubículo. A vida não se resumia simplesmente em sexo. Existiam outras coisas que iam além da imaginação do casal quando estavam trancafiados no pequeno quarto da hospedaria.

Não se disseram uma só palavra naquela noite. Depois que não tinham mais forças para continuarem, acabaram adormecendo. Abraçados, pareciam recém-casados em suas núpcias.

Assim que amanheceu, Anna se vestiu rapidamente, beijando a face de seu amante, sem que ele acordasse. Pôs-se a caminho de casa cantarolando como uma menininha que acabara de ganhar o presente almejado por toda a vida.

Sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Estonteada com a noite maravilhosa que teve, ainda não tinha caído em si. Esqueceu-se por alguns minutos de que tinha uma vida própria… Uma vida longe do quartinho da hospedaria… Uma vida bem diferente.

CAPÍTULO 6 – Publicado em 04/10/2017

O dia já estava amanhecendo. Deveriam ser seis horas. Os primeiros raios do Sol já me acariciavam. Havia passado a noite em claro no corredor, próximo ao quarto de Nikolai. Decidi ir até lá e verificar como estava meu amigo.

Chegando ao quarto, pude vê-lo trabalhando intensamente em seu livro. Ainda não havia notado minha chegada ao recinto. Depois de alguns minutos observando com que afinco ele escrevia, acabei sendo notado.

– Você está aí? – disse-me sorridente como se nada houvesse acontecido na noite anterior.

Somente acenei com a cabeça. Não tinha a mínima intenção de incomodá-lo, mesmo porque minha única vontade era ir para o meu canto dormir um pouco.

Enquanto me preparava para dormir, pude ouvi-lo falar consigo mesmo. Anotava durante longo tempo, depois discutia e repetia em voz alta tudo aquilo que estava sendo registrado.

– Eu tenho razão! Sempre tive razão! Bem! Pelo menos na maioria das vezes, sempre estive coberto de razão. – exprimiu-se o escritor.

Não demorou muito para que ele produzisse uma outra frase memorável:

– No fundo, todos acham que merecem o melhor do que verdadeiramente possuem… Ninguém se satisfaz com o que tem.

Pareciam frases soltas, sem nexo, não conseguia captar o que ele estava querendo dizer com todas aquelas palavras. Por fim, acabei perdendo o sono e tentei durante algumas horas parafrasear o que estava sendo dito pelo escritor.

O escritor tentava chegar ao âmago da questão. E a questão para ele era o ser humano. A razão de ser, de estar, de pensar era a chave principal para toda a sua busca. Ele queria respostas. Às vezes penso que Nikolai não tinha a mínima ideia de onde viriam todas as respostas que formulava no seu dia-a-dia.

Aquelas frases me levaram a refletir sobre fatos que passavam despercebidos na minha vida… Razão? Merecer o melhor do que verdadeiramente tem? Não estar satisfeito com o que possui?

Todos os questionamentos abordados por ele são bem próprios do ser humano. Talvez a autossuficiência, a empáfia, a ganância… Os sete pecados capitais: avareza, gula, inveja, ira, luxúria, orgulho e preguiça; talvez possam ajudar a elucidar os questionamentos propostos por Nikolai. Ou não?

A essa altura dos acontecimentos, pude concluir pouca coisa do que havia sido dito. Passei a observar detalhadamente todos os movimentos de meu amigo.

Nikolai estava no banheiro com a porta totalmente aberta. Sentado na privada, defecava tranquilamente, enquanto relia suas anotações e assobiava como se fosse um passarinho.

Como a descarga estava com defeito, ele pegou seus excrementos e os jogou na pia. Deixou a água correr por entre os dedos, socando logo em seguida com a ponta dos dedos, o último pedaço que se desfez pelo ralo abaixo.

Após todo esse ritual, lavou bem as mãos e as cheirou. Sorriu como uma criança que acabasse de cometer uma travessura. Parecia estar purificado. Segundo ele, essa era a principal função da água.

Olhou-me com um olhar fulminante… E, antes que eu dissesse algo, falou-me que um dos males da humanidade é não assumir a condição de excremento perante o seu próximo… Deu as costas para mim, abriu a porta e saiu pelo corredor.

Fiquei ainda mais confuso. Talvez ele quisesse dizer que não adiantava todo o poder que os homens buscavam a todo o custo, não se importando com nada, não se importando com ninguém para obter prestígio… Quem sabe quisesse dizer que as guerras, as bombas, o domínio de uma nação sobre a outra fosse tudo uma grande porcaria! Talvez estivesse se referindo à má distribuição de renda que existe em vários países do mundo e chegasse à conclusão de como é duro viver em um mundo tão injusto… Talvez estivesse pensando nos políticos corruptos – a grande maioria – que são verdadeiros lixos…

Talvez… Quem sabe? Talvez… O jeito como Nikolai colocava as coisas poderia ter uma infinidade de significados. Porém, assim como eu não conseguia decifrar suas incógnitas, ele também não conseguia decifrar todos os seus caminhos… Não decifrava os caminhos do ser humano.

Enquanto aguardava sua volta, lembrei-me de fatos relacionados à sua vida pessoal que talvez me auxiliassem a compreender sua busca…

CAPÍTULO 5 – Publicado em 03/10/2017

Nikolai havia ganhado o mundo ainda na adolescência. Não me lembro de ele ter me falado sobre seus pais. Em uma de nossas primeiras conversas, disse-me que havia sido criado na Rua das Prostitutas.

Tinha pouco mais de dezesseis anos quando conheceu a bela Katerinne. Ela era dona do prostíbulo mais requisitado da região e teve pena do jovem que foi bater à porta de seu estabelecimento em busca de comida.

Ele havia conhecido a fome. A miséria havia assolado a região em que vivia. Nem mesmo baratas havia naquele lugar, pois não havia sobras para que elas sobrevivessem.

Seu corpo era o reflexo real da miserabilidade de um ser humano. Fraco e debilitado, foi-se recuperando aos poucos, até que um dia Katerinne disse que ele já estava bom e que poderia ir embora. Já estava pronto para seguir sua própria vida.

Ele chorou e implorou para ficar. Não tinha para onde ir. Mesmo assim, a dona do prostíbulo insistiu para que ele fosse embora, pois não havia nada que ele pudesse fazer para pagar as próprias despesas. Nem mesmo fazer a segurança das moças – que às vezes eram agarradas à força e espancadas por alguns bêbados – ele servia. No entanto, havia algo que Nikolai fazia que era privilégio de poucos.

Nikolai sabia ler e escrever e fazia isso muito bem. Nunca revelou quem lhe havia ensinado, embora isso não tivesse tanta importância. Acabou fazendo um contrato verbal com a dona do prostíbulo, pois ela precisava de alguém para ajudá-la a administrar seu lucrativo negócio.

Além de ajudar a administrar a casa de Katerinne, ele passou a fazer uma série de obséquios para as moças que trabalhavam naquele estabelecimento. Lia o jornal informando-as sobre tudo o que se passava; escrevia cartas para os familiares de algumas delas, omitindo os verdadeiros fatos quando lhe pediam; narrava as mais belas e trágicas histórias de amor contadas naquele tempo, causando um delírio generalizado às doces “donzelas”.

Com o passar do tempo, o jovem garoto começou a contar suas próprias histórias agradando a todos. Sentiu um enorme desejo de registrar as histórias que contava para que outros pudessem ter acesso aos seus pensamentos. Pela primeira vez, foi chamado de escritor.

Nessa época, não tinha maiores pretensões. Também, nem poderia. Precisava ser lapidado. Teria que estudar muito e somente com o passar do tempo poderia fazer jus ao título dado pelas jovens da casa de Katerinne.

Lembro-me de palavra por palavra do seu primeiro texto que só obteve resultado positivo no prostíbulo, nem mesmo o Jornal Revolucionário, que tinha um pequeno espaço destinado a textos românticos e poéticos, quis publicar. O texto dizia o seguinte:

Sonho Meu

Na noite passada, profundo silêncio, a solidão imperava na mais penetrante escuridão, num passe de mágica já não estava mais só…

Podia embriagar-me com seu aroma delicioso e divino; seus cabelos esvoaçantes deixavam o seu semblante com certo ar de mistério, seu rosto queimava em febre, simplesmente desejo.  Desejo que fazia suas delicadas mãos transpirarem e eu ardesse em paixão.

De repente, senti que minhas mãos tocavam levemente o seu corpo como se elas quisessem dizer algo.  Não, elas não queriam dizer nada, somente contornar as formas que foram divinamente esculpidas pela natureza.  Minha boca teimava em fazer o mesmo percurso das minhas mãos, meus lábios quentes contornavam todo o seu corpo como tinta suave de um artista retocando sua obra de arte.

A temperatura do seu corpo alternava, queimava em desejo, ardia em curiosidade, como também esfriava em preocupação…

O fogo que ardia com infinita intensidade queimou todos os obstáculos que perduravam em insistir e quando olhamos olhos nos olhos, começamos a nos descobrir.

Nossos corpos se misturavam, podia sentir bem de perto seu perfumado hálito que se confundia com flores do campo. O brilho dos seus olhos iluminava toda aquela noite escura.  Os sorrisos de felicidade eram como músicas aos meus ouvidos e a verdadeira razão de existirmos fazia-se presente naquele momento: o amor.

Aquele momento parecia infindável.  Eu continuava a amá-la.  Seu corpo tinha as marcas de meus lábios.  As leves marcas de minhas unhas; não queria parar…  Minha língua contornava a ponta de seus seios numa interminável demonstração de carinho…  Ela, sorria e dizia: “eu te amo”!

Gotas de vinho eram derramadas pelo seu corpo, e eu, deliciava-me, já não era mais o seu corpo uma obra de arte, e sim, uma admirável taça de cristal a qual eu, com enorme zelo, cuidava para que estivesse sempre cheia.

A curiosidade se renovava a cada gesto, a cada palavra, a cada nova descoberta que se ia aproximando…  Não, realmente não queríamos parar.  Parar?  Somente o tempo, este sim, queríamos parar e imortalizar aquelas cenas.

Penso em cada momento, em cada palavra, em cada segundo vivido…

De repente, aquela escuridão começou a se dissipar, as nuvens negras que cobriam o céu dão lugar à luz do Sol que entram pelas frestas do quarto, denunciando mais um dia como outro qualquer.

Fim.

Apesar de jovem e iniciando sua carreira como escritor, Nikolai tinha ciência de suas limitações e acreditava profundamente em seu potencial. Sabia que se tornaria um grande escritor. Tinha convicção de que um dia, todo o seu país ouviria falar em Nikolai S. Andreiev. Tudo aconteceria no seu devido tempo.

Como disse anteriormente, nenhum jornal da época quis publicar seu texto, todavia houve uma grande agitação nas dependências do recinto onde morava.

Uma das meninas de Katerinne, chamada Yelenna, que já estava há tempo olhando de forma especial para o rapaz, ficou ainda mais encantada ao ouvi-lo dizer todo o texto representativamente e… E acabou se declarando.

Yelenna foi quem iniciou Nikolai na arte do amor. Ele aprendia tudo muito rápido e, em pouquíssimo tempo, a jovem estava completamente apaixonada. Havia se tornada aluna de seu discípulo.

Katerinne não gostou do envolvimento dos dois. Aquele relacionamento, segundo ela, estava atrapalhando o bom andamento dos negócios. Yelenna já não era a mesma, não queria agradar aos fregueses. Não queria que nenhum outro homem a tocasse. Só desejava ser de Nikolai.

Ele também não queria dividir a jovem com mais ninguém… Já não era mais o mesmo. Algumas tarefas incumbidas a ele não eram executadas da mesma forma, sem contar que a atenção dada às outras mulheres já não existia.

Um sentimento inusitado passou a fazer parte do dia-a-dia de todos aqueles que viviam sob as ordens de Katerinne. O ciúme…

A própria Katerinne experimentava esse sentimento sem entender muito bem quais eram seus interesses diante daquela história. Seriam interesses puramente comerciais?

Algumas semanas se passaram e Yelenna recebeu ordens para ir visitar sua velha mãe que estava morrendo. Assustada com a notícia, pediu a Katerinne um pouco de dinheiro para poder fazer a viagem. A quantia dada foi superior ao que ela necessariamente precisaria…

Uma semana depois, o jovem Nikolai parecia ter esquecido todas as juras de amor que havia trocado com Yelenna. Deitava-se na melhor cama e no melhor quarto da casa… Havia se tornado o amante oficial de Katerinne.

Jamais teve notícia de Yelenna. Tudo lhe pareceu uma grande armação de sua nova amante. Não se importou… Nem mesmo lhe passou pela cabeça a possibilidade de ir atrás da jovem. Estava levando uma vida que jamais havia sonhando. Tudo estava perfeito demais, não queria mudar os rumos traçados pelo destino.

Com o passar dos anos, deixou os interesses do prostíbulo de lado e passou a cuidar de seus interesses próprios. Dedicava-se com afinco à literatura. Lia grandes obras e começou a apurar seu gosto. Tolstoi, Gogol, Gorki, Liérmontov, Tchekhov, Zóchtchenko, o grande Dostoiewsky e outros passaram a ser leituras obrigatórias para ele.

Nikolai agora tinha espaço para publicar seus trabalhos no Jornal Revolucionário. Sua técnica e seu estilo inconfundível já agradavam à grande maioria dos leitores.

Apesar de toda essa dedicação, o jovem escritor, em momento algum, havia abandonado Katerinne, ao contrário, estavam cada vez mais juntos. Não sei ao certo se havia um sentimento forte e conciso neste relacionamento, o que sei é que a primeira publicação de seu livro UMA FORCA PARA O HOMEM DE SANGUE AZUL foi totalmente pago por ela.

Ele nunca foi muito claro em relação aos sentimentos por Katerinne. Todavia, ela o amava sinceramente. O que ficou bastante claro nesse relacionamento foi que, no início de sua carreira, o escritor Nikolai S. Andreiev foi totalmente amparado por sua amante. Sem ela, com certeza seria impossível o acesso do público às suas obras.

CAPÍTULO 4 – Publicado em 02/10/2017

Eram três horas e vinte cinco minutos da madrugada. Respirei aliviado quando vi meu amigo Nikolai retornando ao quarto. Caminhava lentamente, com muita dificuldade. Uma das mãos apoiando a cabeça e a outra na cintura. Sentou-se na cama e preferiu não conversar. Os cabelos molhados como se alguém o tivesse atirado em um poço d’água, grudavam no rosto. A boca, entreaberta, salivava com pequenos movimentos executado pelos lábios. Seu olhar percorria todas as direções… Senti que inconscientemente me ignorava, não sei explicar por quê.

O silêncio era absoluto no quarto. Não desejava comer nada, talvez por saber que nada houvesse para comer. Teve vontade de se deitar para poder recuperar suas forças, mas não foi possível, seus músculos estavam rígidos como uma rocha. Manteve-se sentado e chorou.

Havia algum tempo que Nikolai não chorava, pelo menos na minha presença. Confesso que aquela cena mexeu muitíssimo comigo. Como era difícil compreender os sentimentos, as emoções, os desejos, as ansiedades, as culpas, a própria existência! Era tudo complicado, eu estava perplexo…

Em determinados momentos, tive a nítida impressão de que gritava, embora som algum saísse de sua boca. Talvez seu grito fosse de fora para dentro. Nikolai estava sofrendo… Não sabia ao certo se lhe doía o corpo, talvez estivesse ferido. A única coisa que eu sabia, não me pergunte como, mas sabia, é que sua alma se dilacerava…

Aproximei-me de sua cama e o toquei. Ele me olhou, esboçou um sorriso e pude compreender perfeitamente que estava querendo ficar sozinho.

Eu não podia fazer mais nada. Conhecia-o suficientemente bem para saber que tudo tinha seu tempo e aquele não era o tempo de conversarmos a respeito do que havia ocorrido.

Levantou-se cautelosamente da cama e caminhou com certa dificuldade até a porta. Antes que saísse de sua presença, disse-me que eu era seu maior amigo…

Lembro-me do ranger da porta que se fechou às minhas costas e jamais me esquecerei dos sons produzidos por alguns objetos quebrados por Nikolai.

Enquanto eu caminhava pelo corredor, lembrava-me de suas palavras e me envaidecia: “você é meu maior amigo”. Sabia que o momento era delicado, porém não poderia deixar de pensar naquelas singelas e sinceras palavras.

Antes mesmo de cruzar o corredor, tive que encarar os vizinhos… Olhavam-me assustados, com olhos interrogadores pelas portas semiabertas, como se eu fosse a resposta para todos os questionamentos e atitudes desencadeadas pelo escritor Nikolai.

Não pude ir muito longe, afinal, morava com Nikolai. Teria que voltar ao quarto mais cedo, ou mais tarde… Aproveitei o tempo ocioso que tinha para procurar respostas. Algumas conversas com o escritor começaram a borbulhar em minha mente…

CAPÍTULO 3 – Publicado em 30/09/2017

Dimitry havia ido ao açougue comprar um pouco de carne para o almoço. Durante seu trajeto, viu de longe alguns garotos brincando. Eles estavam ofegantes, porém contentes com a brincadeira.

Sentiu um enorme desejo de participar daquela brincadeira com os demais. Com suas pequenas pernas apressou o passo em direção ao grupo com o intuito de ser mais um garoto. Ele estava enganado. Ele não era mais um garoto, ele era o garoto…

Houve um enorme silêncio quando Dimitry ficou frente a frente com os demais meninos. Eles ficaram paralisados. Um deles acabou fugindo, teve medo… Os outros esperavam algo da parte da “aberração”.

– Posso brincar com vocês? – perguntou Dimitry com um inocente sorriso.

Não houve resposta de imediato. Eles o olhavam de cima a baixo como se para constatar que o garoto que estava à frente deles era real. A realidade nua e crua de um menino com problemas congênitos era terrivelmente assustadora. Creio que todos nunca haviam visto Dimitry, embora já houvessem escutado uma série de coisas a seu respeito.

Não demorou muito para que o silêncio fosse quebrado, pois um dos garotos disse aos berros que ele voltasse para o inferno, lugar de onde ele nunca deveria ter saído.

Os demais, empolgados com a agitação do colega, engrossaram o coro, ameaçando-o de surrá-lo até a morte.

 Assustado com toda aquela confusão, Dimitry correu por dois quarteirões, sendo perseguido por todos aqueles garotos que lhe socavam as costas, com toda força que tinham.

A poucos metros do açougue, o jovem perseguido, levou um soco na cabeça e caiu no chão, batendo fortemente a fronte no solo. Os agressores, assustados com o sangue que jorrou imediatamente, fugiram sem nenhum remorso.

Pela primeira vez Dimitry chorou…

Ele só estava querendo brincar… Não havia feito nada demais contra os outros. A única coisa que desejava, era tão somente participar da brincadeira.

Suas lágrimas lhe denunciavam o quanto era difícil ser diferente numa sociedade “perfeita” e… “Normal”…

Seus conceitos de perfeição e normalidade pareciam se perder… Justo ele, que sempre encarava a vida de cabeça erguida… Justo ele que estava sempre com um sorriso nos lábios… Nunca se tinha incomodado com sua aparência. Não, até aquele exato momento.

Levantou-se… Limpou a face com sua camisa e caminhou em direção ao açougue para cumprir a tarefa imposta a ele.

Antes mesmo de chegar a tocar na maçaneta da porta do açougue, viu o responsável pelo estabelecimento colocando um aviso de que estavam fechados. Fez sinal para o açougueiro mostrando que tinha dinheiro para poder comprar, mas foi inútil. Ele não abriu a porta.

Toda aquela confusão de minutos atrás havia sido presenciada pelo açougueiro, que se omitiu diante do fato ocorrido a Dimitry. Para falar a verdade, penso que ele aprovou a agressão realizada pelos outros garotos.

Estava claro que a presença de um garoto com todos aqueles problemas em seu estabelecimento poderia prejudicá-lo. Tinha medo de atrair má sorte e de perder seus fregueses…

Já estava ficando tarde e Dimitry tinha que voltar ao lar. Estava com medo… Somente sua mãe estava em casa e esse era o maior problema. Sabia que o pai o defenderia de qualquer coisa, mesmo se ele estivesse errado, todavia, a situação era bastante desfavorável, sua mãe era completamente diferente.

Caminhava lentamente como se não quisesse chegar ao seu destino. Em uma das vielas por onde passava, com intuito de cortar volta dos garotos agressores, viu Nikolai, que se assustou ao vê-lo ensangüentado.

O escritor mal conversou com o menino para saber o que de fato havia ocorrido. Pegou-o no colo e o levou à casa mais próxima de onde estavam. O prostíbulo de Katerinne. Nikolai não pensou duas vezes. Precisava cuidar do menino.

Dimitry estava encantado com aquele universo. Jamais tinha visto tantas cores vivas em uma mesma sala. Na verdade, era um salão. Um enorme balcão de madeira com uma adega ao fundo davam um charme bastante rústico ao ambiente. Cortinas vermelhas, entreabertas, deixavam-se revelar um pequeno palco. Um lindo piano deixava claro que as noites naquele lugar eram bastante animadas. Uma escada em caracol levava ao andar de cima onde havia vários quartos… Por alguns minutos ele se esqueceu de quem era e do que havia acontecido.

As mulheres o rodeavam e falavam todas ao mesmo tempo. A princípio, bastante curiosas… Depois, demonstraram-se solícitas e cuidaram dos ferimentos do garoto. Ele começava a se esquecer da surra que havia tomado e já conversava com algumas das prostitutas com bastante desenvoltura, parecia íntimo de todas.

Nikolai aproveitou a ocasião e levou o garoto a um dos quartos para poder conversar mais à vontade com ele. Conversaram longamente de forma que não foram incomodados por ninguém.

Era encantador ouvir maravilhas da boca de uma criança considerada o horror em forma humana. Nikolai registrava palavra por palavra, em sua mente, como se tudo aquilo fosse fazer parte de um livro. Falaram da surra que Dimitry havia acabado de levar dos garotos…

Dimitry agora estava diferente. Semblante fechado, relembrou que somente desejava brincar com os demais e o desfecho da história foi aquela tragédia. Nikolai o consolou.

Curioso é que, no cerne da questão, Nikolai sentiu-se feliz com a infelicidade de Dimitry, embora tenha disfarçado muito bem.

Não!!! Nikolai não era um homem ruim, ao contrário. Somente defendia a tese de que Dimitry não poderia ser feliz. Para ele, essa hipótese era impossível. Ainda que Dimitry encontrasse a felicidade na vasta escuridão do labirinto, jamais sairia de lá.

O garoto se viu no reflexo de um grande espelho que havia no quarto e se sentiu mal com as suas anomalias. Entretanto, não poderia ficar a vida toda ali, lamentando-se. Tinha que ir embora e já estava quase anoitecendo. Lembrou-se de sua mãe e teve medo.

Nikolai o encorajou dizendo que não haveria problemas, bastaria ele mencionar os fatos à sua mãe de forma simples e direta. E que ele havia sido cuidado pelo próprio Nikolai, mas, em hipótese alguma, ele deveria falar que estivera no prostíbulo de Katerinne. Para todos os efeitos, ele havia recebido ajuda na casa do escritor.

Mal chegou em casa, Dimitry foi recebido com um tapa no rosto. Sua mãe o estava esperando atrás da porta morrendo de ódio porque havia almoçado um caldo com legumes sem a carne tão esperada por ela.

– Desgraçado! Filho do demo! Por sua causa tive que comer esta porcaria de caldo. Por que demorou? E não trouxe a carne? – gritava Anna com seu filho.

Dimitry, apavorado, tentava fugir de sua louca mãe que tinha o ódio estampado na face. Anna estava disposta a estrangular o próprio filho e só não o fez, por que o garoto em meio à surra que estava levando, pronunciou o nome de Nikolai.

Ensandecida, soltou o pequenino que fugiu para o quarto dele e se enfiou debaixo da cama, enquanto ela quebrava as louças que estavam na mesa desde a hora do almoço. Anna chorava, não creio que de arrependimento, talvez pensasse na possibilidade de perder o amante. Talvez… Bem, o certo é que chorava.

Na manhã seguinte, Vladimir chegou à sua casa. Estava contente por ter vendido uma boa quantidade de sapatos. O dinheiro para o mês já estava garantido. Poderia ficar mais tranqüilo e não precisaria viajar por aproximadamente dez dias.

Ainda não tinha encontrado com o filho e se assustou com os ferimentos de seu pequenino. Dimitry contou sobre o que os garotos haviam lhe feito, entretanto, omitiu a tentativa de estrangulamento de sua própria mãe. Anna preferiu se calar, enquanto o pai estava possesso.

Vladimir quis tirar satisfação com todos os envolvidos no caso, contudo o pequeno Dimitry com muita conversa o convenceu do contrário. Anna suspirava aliviada; segundo ela, já bastavam os escândalos. A única coisa de que Vladimir não abriu mão foi de ir agradecer pessoalmente, os préstimos do escritor Nikolai, por quem ele nutria certa admiração.

– Não creio que seja necessário. – disse insistentemente Anna.

Vladimir ignorou por completo os argumentos de sua esposa e foi procurar aquele que ajudou seu filho e cuidou de todos os ferimentos do garoto como um verdadeiro pai. Estava contente por saber que havia uma outra pessoa no mundo que se importava de verdade com seu filho.

Batendo à porta do escritor, ouviu alguns rumores dentro da casa. Depois de alguns segundos, alguém perguntou:

– Quem é?

– Vladimir Svalonilov… Vendedor de sapatos, pai do pequenino Dimitry.

– Não precisamos de sapatos, vá embora! – disse novamente a pessoa.

– Não, não é nada disso! Eu não estou vendendo sapatos. Quero dizer, não neste momento, eu só…

– Então o que você quer?

– Eu só queria agradecer por ajudar meu filho.

A porta se abriu e Nikolai apareceu enrolado em alguns lençóis. Com a porta entreaberta, Vladimir viu de relance a silhueta de uma mulher que tentava se esconder atrás das cortinas.

– Desculpe-me pelo incômodo. Eu só vim para agradecer-lhe. Muito obrigado por socorrer meu filho.

– Ah, o garoto pequenino! Não por isso… – disse Nikolai com um sorriso nos lábios.

– Tenho uma dívida de gratidão com o senhor, espero um dia poder pagá-la. Mais uma vez, muito obrigado.

Vladimir, percebendo que o escritor estava acompanhado, não se demorou. Apertou fortemente a mão de Nikolai, que o olhou surpreso, e mais uma vez afirmou ter uma dívida de gratidão.

O escritor não estava esperando aquela visita repentina e isso o deixou pensativo durante todo o dia. Sentia-se confuso, não sabia o que o atormentava. Via naquele homem um misto de bondade e bestialidade incompreensíveis…

Vladimir era de poucas palavras, bastante discreto, não falava da vida alheia. Quando retornou ao seu lar, disse que havia falado rapidamente com Nikolai, entretanto não mencionou que o escritor estava acompanhado.

Anna quis mais detalhes, embora seu marido já houvesse narrado o fato duas vezes. Por fim, acabaram indo fazer uma refeição. Comeram um delicioso guisado. Anna, Vladimir e o pequeno Dimitry.

CAPÍTULO 2 – Publicado em 29/09/2017

Deveria ser uma hora da madrugada quando notei uma pequena movimentação pelo lado de fora da porta do quarto. A luz do corredor estava acesa, isso raramente acontecia na madrugada. Olhei por debaixo da porta a fim de ver o que se passava. Não vi ninguém. Nikolai dormia em sua velha cama, coberto por várias folhas de papel. Havia trabalhado arduamente durante todo o dia e acabou adormecendo em meio às suas anotações.

Preferi não acordá-lo. Estava visivelmente cansado… Um pouco abatido também. Parecia ter urgência em concluir o trabalho. Ainda não me havia falado claramente do que se tratava, mas eu já podia imaginar o que vinha a ser aquele livro.

Estava com fome e fui ver se havia algumas sobras para mim. Sobras, sim! Nikolai era um pouco guloso, ainda mais quando estava escrevendo compulsivamente. Felizmente havia um pouco de queijo com azeitonas em cima da mesa e pude me fartar.

Acabando de fazer minha refeição, relembrei-me da última conversa com meu amigo Nikolai e percebi que seu livro tinha tudo para ser um grande sucesso. Não que eu seja crítico literário, todavia suas ideias eram no mínimo ousadas.

Os minutos avançavam lentamente e o cansaço chegou rápido como uma flecha, arrebatando-me. Procurei meu canto para repousar e adormeci em pouquíssimo tempo.

Algum tempo depois, impreciso tempo, acordei com um forte grito. Era Nikolai. A princípio pensei se tratar de um pesadelo, entretanto, quando dei por mim, vi dois homens agarrando-o e levando-o para fora do quarto. Não tive tempo de ajudá-lo. A truculência dos bárbaros-selvagens-trogloditas assustou-me de tal forma, que fiquei paralisado.

Passado o estado de choque, corri em direção à porta, que ainda estava aberta, para ver que direção tinham tomado. Já não havia mais ninguém no corredor. Senti uma fisgada no peito. Parecia um sinal. Tinha medo de nunca mais voltar a vê-lo.

O morador do 102 – vizinho da frente – abriu rapidamente sua porta e quando me viu, fechou-a. Não sei se tinha visto tudo o que havia acabado de acontecer, o certo é que não queria se envolver. Talvez estivesse com medo. Quem desvendará os mistérios mais ocultos da mente humana?

Na verdade, não o culpo. Ninguém se envolvia nos problemas alheios. Nikolai era o único que procurava ajudar os outros. Mesmo assim, na maioria das vezes, era criticado por suas atitudes.

“Jamais irei me perdoar se algo acontecer”.

Pensava constantemente no que poderia acontecer com ele. Como não conseguia dormir, passei por algumas de suas anotações e algo em particular me chamou a atenção. Um de seus textos, dizia o seguinte:

Depois da morte? Bem, não sei! Pra gente que fica, parece o fim; parece que tudo vai acabar, quando na verdade fica tudo igual…

As folhas secas da figueira continuam a cair; o choro dos recém-nascidos está cada vez mais alto; o Sol continuará a nascer pontualmente às 5h 59min nas manhãs de primavera; a lua estará sempre formosa contemplando os casais apaixonados; a semente não deixará de germinar porque alguém morreu.

O que fica são saudades de que, através dos anos, talvez não haja sequer resquícios. O sopro de vida é tão complexo que, a partir do momento em que a essência da vida abandona a matéria, tudo se torna podre. Transforma-se em resto… Até o cheiro cadavérico torna-se insuportável… Não importa quem seja a pessoa, fede. Simplesmente fede!

Dez, vinte, trinta, cem anos… Com quantos anos se é arrebatado pela morte? Não há diferença! Acontece! O ritual é sempre o mesmo… A negra sombra, com sua foice amolada, vem ceifar mais um escolhido, não se sabe se a mando de Deus ou do diabo, só se sabe que, quando ela vem, sempre alguém é obrigado a ir…

A dor da perda não tem fim. Pelo menos, é o que se pensa. Deseja-se também morrer, como se houvesse a certeza de que se encontraria com aquele que se foi.

Deseja-se fazer voltar o tempo para modificar algo que porventura estivesse equivocado… Ou até mesmo, para salvar a vida de uma pessoa. Fazer voltar o tempo!? Puro engano… Dois ou mais enganos… O tempo, assim como a morte, são supremos em aspectos incompreensíveis ao homem. Não há como mudá-los. Eu, pelo menos, não conheço.

Sinto saudades dela…

Sinto ódio de mim, por sentir que a estou perdendo pela segunda vez. Os anos se passam e, a cada ano, esqueço-me um pouco do seu jeito… Dos seus gestos… Do seu olhar carinhoso… Da sua maneira inigualável de ser.

Eu que não conhecia os mistérios dos homens, mas conhecia muito bem meu amigo, ou pensava que conhecia, não sabia quem era a pessoa à qual o texto se referia. Formulei algumas teorias, no entanto, nenhuma delas me convenceu. Poderia se tratar de um texto fictício… Afinal, Nikolai era escritor e estava trabalhando em seu novo livro.

Não era hora de formular conjeturas… Não a esse respeito, pois Nikolai não havia retornado ao quarto. Eu simplesmente não sabia o que fazer. Dentro de mim, um grande ímpeto heroico me ordenava sair procurando por ele, todavia o cansaço e principalmente o medo de me confrontar com aqueles homens convenceram-me de que a melhor coisa seria esperar.

Enquanto esperava por notícias e principalmente pela volta de Nikolai, veio à minha memória lembranças de nossas longas conversas a respeito de Anna, Vladimir e principalmente do pequenino Dimitry…

CAPÍTULO 1 – Publicado em 28/09/2017

Ele sempre me falava a respeito de Anna. Sobrancelhas finas e separadas proporcionalmente ao afilado nariz davam um aspecto puro e ingênuo àquela bela mulher. Olhos claros e cílios alongados só não eram mais belos que os lábios, capazes de enlouquecer uma reles alma com um único beijo. Longos cabelos loiros, pele branca e suave como de uma adolescente na puberdade. Seios pequenos e encantadores erguiam-se lentamente com os suspiros de amor dados por ela. Pernas ligeiramente grossas iam ao encontro de rígidos quadris, tão admiráveis quanto seus delicados pés. Mãos macias, como seda chinesa, que se tocavam, tateando todo o belo corpo, como se para constatar que todos aqueles atributos faziam parte de si. Era essa a descrição mais próxima de Anna que Nikolai fazia para mim.

Encontravam-se secretamente em uma pequena hospedaria próximo à Rua das Prostitutas, lugar onde não levantariam muitas suspeitas. Não se viam com muita frequência, entretanto, sempre que o marido de Anna viajava, era para lá que iam.

O escritor Nikolai adorava relatar os momentos mais íntimos entre eles. Entre uma risada e outra, não me poupava detalhes. Podia visualizá-los naquela pequena cama de solteiro, com lençóis limpos e um pequeno travesseiro de penas de ganso, trocando confidências e juras de amor.

Ficava excitado quando se lembrava das noites frias de inverno, sendo aquecido por sua amada, debaixo de uma coberta feita de pele de urso.

Certa noite, enquanto a neve caía lentamente cobrindo as ruas da cidade, toda a hospedaria foi acordada por gritos que ecoavam dentro do quarto do casal. Eram gritos misturados, entrecortados por gemidos e suspiros. Estavam fortemente abraçados. Nus, completamente nus. Coberta jogada ao lado da cama… Batimentos cardíacos acelerados… Respirações ofegantes… Um estranho e forte arrepio invadia os corpos dos amantes levando-os à felicidade plena. Tomados pelo suor, pareciam eternamente uma só carne. Um sorriso fácil se instalara nos rostos de Anna e Nikolai, que já não pensavam em mais nada, senão na experiência que acabavam de ter. Era uma novidade, uma agradável novidade que gostariam que se repetisse por toda a vida. Depois de alguns minutos que pareciam eternas horas, começaram a questionar como poderiam ter ficado tanto tempo privado de sensações tão prazerosas, inexplicáveis sensações que eram bem-vindas.

Após Nikolai ter urinado na latrina, tentou novamente sentir o gozo efervescente que havia sentido há pouco, mas não foi possível. Apesar de terem se amado, Anna já não o desejava com a mesma intensidade, estava satisfeita, realizada… Talvez cansada. Quem sabe? Queria dormir e acabou adormecendo. Ele foi obrigado a se contentar com as descobertas daquele dia, entretanto, estava ávido por uma nova experiência.

O sono não chegava. Ainda não havia pregado os olhos. Olhava para o lado e espantava-se com o sono de Anna. Tão profundo quanto os sentimentos que ele alimentava ou pensava ter por ela. Amava-a realmente ou ainda estava sob o efeito da recente descoberta? Questionou-se profundamente.

Durante a madrugada, Nikolai tentou transpassar para seu bloco de anotações tudo o que já havia vivenciado, principalmente ao lado de Anna. Todos os sentimentos, as sensações, as dúvidas e perspectivas de vida ao lado de uma mulher casada… Seus sonhos, seu futuro como escritor, as tolices do dia-a-dia… Enfim, tudo de que pudesse se lembrar estava sendo registrado. Não sabia muito bem o que desejava com todas aquelas anotações. Anotava… Simplesmente anotava.

Pouco antes de amanhecer, Anna se levantou para ir embora. O jovem escritor, distraído com seu trabalho, não havia percebido que sua amada despertara. Ela o abraçou fortemente, obrigando-o a se levantar da cadeira em que estava. Desejaram-se novamente, mas Anna já havia ficado longas horas fora de casa. O pequeno Dimitry, filho de Anna, poderia ter acordado durante a noite e notado a ausência da mãe. Ela se foi prometendo que o veria o mais breve possível.

Nikolai não falava muito sobre o filho de Anna. Foram três ou quatro vezes que me lembro de ter ouvido de seus lábios relatos sobre o pobre Dimitry. Falava sobre o garoto com a voz trêmula, os olhos molhados por lágrimas que insistiam em rolar sobre o rosto magro, de aparência calma e às vezes faminta. Entretanto, sua aparência famigerada era por algo a mais do que simples alimentos… Nikolai queria respostas…

Dimitry havia nascido com algumas anomalias. O lado esquerdo de sua face apresentava uma falha na composição óssea, parecendo ter somente pele e carne, formando um afundamento na face. Também sofria de ananismo. Com a idade de 16 anos, aparentava ter somente a metade.

Os médicos não sabiam explicar por que o garoto havia nascido daquele jeito. Algumas pessoas diziam que era fruto do demônio, outros preferiam não dizer nada, sequer olhavam para o inocente menino. Houve até quem dissesse que Dimitry era filhote de bruxa…

Nikolai não acreditava nas bobagens ditas pelo povo. Ansiava por descobrir a causa ou causas que levaram à deformação do filho de sua amada, não por simples curiosidade, mas com intuito de ajudá-lo. Era uma das poucas pessoas que se aproximavam do garoto.

Anna sentia vergonha do filho. Sempre respondia por monossílabos quando o amante lhe perguntava sobre o menino que nunca era visto com ela. Diferentemente de seu marido, que sempre que podia, estava ao lado de Dimitry, por onde quer que ele fosse.

Aliás, quando Nikolai viu o pequenino Dimitry pela primeira vez, ele estava no mercado central, com o seu pai, Vladimir, um respeitado vendedor de sapatos, que não media esforços para dar um pouco de alegria ao seu sofrido filho.

O próprio Dimitry parecia não se importar com sua baixa estatura ou sua terrível aparência. Estava sempre de bom humor. Seu pai dizia nunca tê-lo ouvido reclamar de absolutamente nada. Era até curioso: quando as pessoas falavam alguma coisa sobre ele ou simplesmente o olhavam com repugnância, mantinha-se mais tranquilo do que a normalidade, parecendo adivinhar todos os pensamentos que o rodeavam e sorria. Sorria como se conhecesse todas as respostas do mundo, principalmente as respostas sobre sua vida.

Aquela força de vida era algo que mexia com o entendimento de Nikolai. Por mais que conversasse com o garoto, não encontrava motivos para crer que fosse realmente feliz. A felicidade seria algo inalcançável para Dimitry na concepção do escritor.

Anna não admirava em nada a vontade de viver do filho. A simples presença do garoto a incomodava. Preferia vê-lo em um caixão a ter que conviver com uma figura tão repugnante saída de seu ventre.

Sentia-se amaldiçoada e acabou amaldiçoando o dia do nascimento do filho e pediu aos céus que nunca mais concebesse. Coincidência ou não, Anna havia sido atendida. Não podia mais dar a luz, teria que se contentar com seu único filho, seu rejeitado filho.

Nikolai percebia e não entendia por que Anna agia daquela maneira com o pequeno Dimitry. Estava com uma mulher que não tinha amor para com o próprio filho. O verdadeiro sentido da palavra amor era uma incógnita para o escritor.

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