Conto: o sanfoneiro que tocou no inferno

Conto: o sanfoneiro que tocou no inferno

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Imagem: reprodução da Internet | ilustração

O Itaperuna News disponibiliza neste espaço o conto ‘O sanfoneiro que tocou no inferno’, escrito pelo jornalista e escritor Eusébio Dornellas em 2002.

No modesto vilarejo de Vargem Alegre havia um homem bastante conhecido em toda região. Tratava-se de Hildebrando, um sanfoneiro famoso que em seus bailes e shows, contagiava toda a plateia, com um autêntico sertanejo de raiz.

Costumava dizer que tocava com a alma, pois, sua maior paixão era a música.

Tamanha era sua paixão pela música, que os relacionamentos amorosos nunca foram bem-sucedidos; algumas de suas amadas reclamavam que a sanfona estava em primeiro lugar, e que elas só viriam em terceiro. Terceiro?  Opa!!! E em segundo? Ah!!!  Em segundo lugar vinha a cachaça.

Além de ser um exímio sanfoneiro, era um grande apreciador da mais brasileira das bebidas.  Tinha por hábito tomar doses e mais doses de cachaça diariamente e quando fazia shows, aumentava ainda mais as doses.  Um de seus defeitos era desafiar a tudo e a todos, mas, isso ele só fazia em elevado estado de embriaguez.

Quando alguém era desafiado por Hildebrando, este alguém simplesmente ignorava o fato, por dois simples motivo: o primeiro, pelo fato de ele estar bêbado; e o segundo, a admiração que todos tinham por ele, pois bêbado ou não, quando tocava era capaz de chamar para si a atenção até mesmo de um canário belga.

Nunca encontrou ninguém que aceitasse suas provocações, então fazia desafios ao sobrenatural.  Com a sanfona ao peito e com uma garrafa de cachaça em uma das mãos, às vezes, era visto pelas ruas da cidade dizendo que se o diabo realmente existisse que aparecesse a ele, para que pudesse apreciar suas canções.

– O que toco é tão belo e tão bonito, que até o diabo ficaria de quatro – dizia Hildebrando, confiante em seus belos acordes.

Certa vez, ele foi convidado a tocar na festa de Bom Jesus. A ansiedade tomou conta do lugar, pois aqueles que tiveram o prazer de ouvi-lo, queriam novamente ter este privilégio, e os que somente conheciam sua fama, quase não conseguiam se conter.  Aquelas pessoas criaram uma expectativa muito grande em torno da festa, mas, para ele, era só mais um show.

Ao sair de casa com sua companheira inseparável, a sanfona, Hildebrando antes de pegar a estrada que o levaria para a cidade, resolveu dar uma pequena parada para tomar umas doses de cachaça.  Cachaça vai, cachaça vem, e ele começa a falar um monte de asneiras:

– Estou indo tocar na festa de Bom Jesus e gosto demais da conta da minha sanfona, é tudo que mais gosto de fazer nesta vida. Mais eu queria mesmo era tocar no inferno… Inferno? Será que existe o tal de inferno? Se existir, fiquem sabendo todos vocês que eu sou muito macho para ir até lá e tocar minha sanfona. Sou capaz de colocar um arreio no diabo, montar nele e enfiar a espora… Ninguém iria segurar o sanfoneiro Hildebrando – dizia sorridente.

Todos que estavam no bar já o conheciam e não deram muito crédito às suas palavras.  Malditas foram as palavras proferidas por Hildebrando, ele se arrependeria um pouco mais tarde do que teria dito.

Pagando a conta, saiu meio que cambaleando com sua sanfona nas mãos rumo à cidade.  Estava bastante frio naquela noite, pois o inverno já tinha chegado, o vento ‘assobiava’ fazendo com que a velha porteira rangesse sem parar; o frio ‘cortava’ até a alma, nem as doses de cachaça que ele havia tomado amenizavam o frio.

Quando caminhava em direção ao estábulo de um amigo que lhe emprestara um bom cavalo para que pudesse ir até a festa, eis que como num passe de mágica surgiram dois faróis em sua direção.  Era um carro… E que carro… Hildebrando só havia visto aquele tipo de carro na telinha do velho cinema; parecia um Ford Landau, de cor vermelha, conduzido por dois homens bastante afeiçoados de terno e gravata.

Estavam trajados de preto e um deles usava um anel de brilho muito intenso, brilho que fascinou o sanfoneiro.  Aproximando-se de Hildebrando, chamaram-lhe pelo nome e disseram:

– Gostaríamos que nos acompanhasse e tocasse em nossa festa, pois sua fama corre longe e estamos ansiosos para ouvi-lo – disse um dos homens.

Hildebrando se assustou pelo fato dos homens o chamarem pelo nome, mas, como realmente era conhecido em toda região relevou o fato.  Encantado com grande beleza e riqueza que estavam diante de seus olhos, não pensou duas vezes em aceitar o convite daqueles distintos cavalheiros, afinal, um deles, além de tudo, lhe oferecera uma boa quantia em dinheiro.

Entrando no carro, Hildebrando estava radiante e completamente extasiado, a esta altura não se lembrava mais da festa de Bom Jesus, também não perguntou em momento algum àqueles homens onde iria ser o baile.

O carro seguia uma interminável reta e ele ficou um pouco temeroso, afinal, nunca tinha visto uma estrada tão retilínea que parecia não ter fim, as cenas que observava pelo vidro do carro eram completamente diferentes de tudo o que já presenciara.

Durante a longa viagem em linha reta que fazia, Hildebrando, calado, notou que os dois homens raramente conversavam e quando o faziam, conversavam numa língua estranha.  Prontamente se acalmou: “está claro, com um carro desse, com estas roupas e falando uma língua que não conheço, estou indo tocar numa festa de estrangeiros”, pensou o pobre sanfoneiro sem saber o que realmente estava para acontecer.

Ao longe, avistou um lindo casarão todo iluminado, era algo indescritível e na medida em que admirava todo aquele luxo ele ia caindo em um profundo sono.  Quando voltou a si, estava em um grande salão de festas, com muitas pessoas em sua volta esperando que ele começasse a tocar.  Mais que depressa, pegou sua sanfona e tocou.

Suava como uma tampa de chaleira, pois era um calor infernal, suas roupas estavam todas molhadas… O frio que outrora o incomodava, parecia ter ficado do lado de fora do salão.  Ele começava a se sentir diferente naquele ambiente, olhava para os lados a procura dos homens que o contratara, para pedir algumas informações, mas, os homens simplesmente haviam desaparecidos.

Tocava e ao mesmo tempo observava o desenrolar da festa. Reparou que as pessoas conversavam e ele não as entendia, ficou encabulado com aquilo, no entanto, relevou o fato momentaneamente, afinal, os homens que o contratara também falavam outra língua.

A festa continuava e Hildebrando ficava cada vez mais desconfiado.  As pessoas eram pálidas e apesar de estarem numa festa tinham um semblante fechado e aspecto bastante tristonho; por mais que se esforçasse, não conseguia arrancar sorrisos e a costumeira empolgação da multidão. Somente dançavam e conversavam, pareciam que estavam sob grande opressão.

Apesar da indiferença, não paravam de dançar, o que pelo menos contribuía com um pequeno alívio para o ego do sanfoneiro.  Mesmo assim, queria sair daquele lugar horrendo o mais rápido possível, sentia em determinados momentos que suas mãos eram conduzidas por uma força estranha a sua vontade, tocava com os “dedos da morte”, parecia que estava com o demônio no corpo.

Lembrou-se, então, das malditas palavras que havia proferido antes de sair do bar.  Atônito a tudo o que estava acontecendo, de repente uma moça jovem aproximou e disse:

–  Hildebrando, o que fazes aqui?

–  Fui convidado para tocar nesta festa estranha, e não entendo nada do que se passa – respondeu, curioso por ver que uma pessoa falava a sua língua.

– Como sabes o meu nome e por que só você fala a minha língua?

A moça olhou no mais profundo de seus olhos e lhe disse:

– Você realmente não se lembra de mim, pois era um garoto quando eu morri. Sou sua tia Joana e falo sua língua porque você é de minha parentela… Aqui temos o costume de falar a língua dos mortos. Nós estamos no inferno e eu não queria que ninguém de minha família viesse para cá – respondeu a jovem moça, deixando o sanfoneiro apavorado.

Porém, seu tremor não fazia com que parasse de tocar e quanto mais apavorado estava, mais ele tocava e mais as pessoas dançavam.  Hildebrando já estava completamente dominado quando num ato de relance lembrou de toda a sua vida e clamando por misericórdia perguntou a jovem tia o que ele precisava fazer para sair daquele horrendo lugar.

 A tia lhe disse que soube que eles ofereceram certa quantia em dinheiro, e que quando o baile estivesse por encerrar os mesmos homens que o contrataram iriam oferecer o dobro para que ele continuasse tocando.

– De maneira nenhuma aceite o que te oferecerem, nem a mais nem a menos, só assim você conseguirá sair daqui. E mais uma coisa, nunca escarneça do diabo e muito menos de seu reino, o inferno.

Disposto a seguir o conselho de sua falecida tia, ao final do baile, quando todos ainda estavam dispostos a continuar com a festa, os dois homens se aproximaram de Hildebrando e lhe ofereceram o dobro do combinado para que ele continuasse a tocar.

Ele, já ansioso para sair daquele lugar recusou a oferta, dizendo que não aceitaria nem a mais nem a menos do que eles haviam combinado.

Indignados com a recusa de Hildebrando, os homens não insistiram, porém, um forte cheiro de enxofre surgiu em todo o salão de festa, era o anfitrião que acabara de se manifestar entre os presentes e diante dos olhos de Hildebrando.

Um homem bem trajado, aparentando uns cinquenta e poucos anos, trazendo em suas mãos uma espora e um arreio.  Era o diabo, parecia querer dizer algo para Hildebrando, mas não dizia nada, somente o olhava, observava todas as sensações do sanfoneiro e via, que ele realmente compreendera que tudo aquilo era real.

Naquele exato momento entendera que não era correto escarnecer e zombar do senhor das trevas.

Foi então que o próprio diabo ordenou aos dois homens de preto, que os acompanhasse Hildebrando até o carro.  Obedecendo mais que depressa, eles o levaram até o Ford Landau e Hildebrando, quando se deu por conta, estava chegando à festa de Bom Jesus, a cavalo.

Apavorado com o acontecido, não tinha resposta para as próprias perguntas.  Não sabia o que realmente acontecera, contou o fato para todos na festa.  Muitos achavam que estava bêbado, outros que ele estava louco.  Mas ele afirmava que realmente tinha tocado no inferno e que suas mãos tinham sido usadas pelo próprio diabo.

As pessoas que aguardavam o show com tamanha ansiedade tiveram que se contentar apenas com a presença de um homem apavorado que não falava coisa com coisa. Não houve show naquela noite.

Um único fato é certo…

Algo de muito estranho aconteceu com ele, pois daquele dia em diante nunca mais se ouviu falar no sanfoneiro Hildebrando. Ele deixou para sempre o instrumento que tanto amava e nunca mais desafiou nada, nem ninguém… Restou apenas a lembrança de um grande músico e a história que foi sendo contada de pai para filho sobre o ‘sanfoneiro que tocou no inferno’.

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